Cauã Reymond em Ilha de Ferro

Créditos da imagem: Globoplay/divulgação

Séries e TV

Crítica

Ilha de Ferro - 2ª temporada

Apesar da grandiosidade, segunda temporada reforça o próprio fetiche pela violência como único recurso dramático

Henrique Haddefinir
06.11.2019
12h48
Atualizada em
06.11.2019
13h38
Atualizada em 06.11.2019 às 13h38

A primeira temporada de Ilha de Ferro foi um imenso sucesso para o Globoplay. A série foi apontada pela revista Variety como uma das melhores produções do mercado internacional e com a promessa de leva-la à TV aberta em seguida, as perspectivas eram as melhores possíveis. Essa atenção também foi tudo que a equipe criativa da série queria para mantê-la sempre no topo da dramaticidade. Se antes, lá no primeiro ano, o excesso de drama, de tragédia e de grosseria da série já era grande, com essas aprovações vindo de todos os lados, era de se esperar que a segunda temporada viesse disposta a dobrar a receita. E ela dobrou.

Tudo na concepção de Ilha de Ferro já era problemático desde o começo. A Globo (como um todo) inaugurou um novo filão - "quibado" lá dos princípios ativos da HBO - que é: disfarce a fragilidade do roteiro com o máximo de recursos visuais possíveis. Há bastante tempo, a maior rede de televisão do país vem caprichando imensamente na sua forma, deixando para trás a atenção ao conteúdo. Foi assim em vários dos títulos que ocuparam a faixa das 23 horas como O Matador, O Canto da Sereia, Amores Roubados, Onde Nascem os Fortes, Supermax, entre outros. O Globoplay traz consigo o mesmo problema, que se refletiu em Ilha de Ferro mais que em qualquer outro título.

Ainda no começo da nova leva de episódios, o público é levado para a prisão onde o irmão de Dante (Cauã Reymond) está preso. Estruturalmente falando, mesmo estando numa série sobre uma plataforma de petróleo, é normal que a narrativa deslize em outras direções por algum tempo. Em Ilha de Ferro a fragilidade de sua ideia é tanta que os roteiros procuram qualquer desculpa para passar o máximo de tempo possível em terra. E lá estamos nós, em um episódio inteiro dentro da tal prisão, depois na perseguição de um grupo de bandidos, depois em um sequestro (recurso preferido dos roteiristas do time da Globo). É perceptível que os envolvidos se acham ousados ao resolverem o destino de Bruno (Klebber Toledo), quando, na verdade, eles estão apenas substituindo-o pelo novo personagem, Playboy (Erom Cordeiro).

Fetiche Pela Dor 

Na nova temporada o primeiro episódio já começa com Dante lidando com a perda da personagem de Sophie Charlotte, uma ausência que poderia parecer um sinal de que os roteiristas haviam reconsiderado sua posição, já que a atriz era a que mais sofria dessa obsessão trágica. Contudo, em cinco minutos a história já está tomada de enredos de risco, gritos, palavrões, peles suadas e gente infeliz, muito infeliz. É provável que os envolvidos achem que os protagonistas erráticos de séries como House, Mad Men e Sopranos merecem sua versão nacional, o que explicaria o empenho em transformar Dante num dos seres humanos mais desprezíveis que a televisão já viu. E o pior: sem nem um grama do carisma que os anti-heróis citados conseguiam ter. Reymond se entrega a isso com força total, sendo o comedor implacável, o corajoso decidido e o sofredor hesitante. Ele olha para tudo como se  estivesse morto, o que condiz com a falta de humanidade absoluta de seu personagem.

Há outros que ganham destaque nessa temporada, mas todos eles são igualmente rasteiros ou reproduções dos que ficaram para trás. Olívia (Mariana Ximenes), inclusive, em determinada cena chega a tentar se passar pela personagem de Sophie, enquanto a direção e o roteiro a levam para o mesmo caminho onde estão todos os outros: traumas, traumas, dores, muitas dores; e lágrimas que possam brilhar na luz e borrar maquiagens. Também do Globoplay, a boa Segunda Chamada, inclusive, se debate com o mesmo fetiche pela dor, ao achar que a leveza e humor da professora de Thalita Carauta não podem protagonizar uma produção. É necessário um grande astro para sofrer em belos ângulos.

O maior problema de Ilha de Ferro é sem dúvida sua inexistente progressão dramática. A narrativa sempre começa tão no topo das tensões que não existe para onde crescer. A plataforma é um lugar terrível, demonizado, onde todos trabalham de cara feia e onde a “beleza” se esconde em recursos mofados como um casamento (na temporada passada) e um parto (na temporada vigente). O único aprofundamento de personagens se dá ou através da dor ou da corrupção. Não há nenhum investimento em representar uma rotina para quem trabalha nesse lugar. A série não sabe criar tensões em coisas simples, ela precisa de eloquência, planos rocambolescos, tiros, explosões... E as mulheres... Terrivelmente retratadas como desequilibradas, sempre estão em cena sendo usadas para sexo (e a única que não está trabalha como cozinheira). É alarmante. 

Ao passo em que a temporada avança, vamos percebendo que as coisas vão terminar do mesmo jeito: com uma ação gigantesca e incoerente com o formato. No ano passado parecia que um vilão vivido por um astro de Hollywood iria aparecer andando em meio ao fogo das explosões. Esse ano é Mariana Ximenes quem fica com o cargo, amargando uma evolução de personagem que só os piores finais de novela têm. A segunda temporada de Ilha de Ferro é definitivamente a sequência cinematográfica ruim mais tecnicamente superior do mercado. E é só isso.

Enfim, também é hora de dizer adeus. Depois de uma série de problemas internos entre a direção e o Globoplay, Afonso Poyart, o diretor artístico, deixou a atração e seguiu para a Netflix. João Mesquita, então diretor da plataforma de streaming da Globo, assinou com a Amazon. Ilha de Ferro, então, foi cancelada e o investimento de dois milhões na construção dos cenários virou prejuízo. Depois de passar tanto tempo salvando a plataforma de todo tipo de enredo maluco, eis que, enfim, ela afundou.

Nota do Crítico
Ruim