Leia a crítica de I May Destroy You, da HBO

Créditos da imagem: HBO/Divulgação

Séries e TV

Crítica

I May Destroy You

Revelação do ano, relato autobiográfico de Michaela Coel tira todo o potencial do humor dramático

Marcelo Hessel
01.09.2020
12h53
Atualizada em
01.09.2020
13h18
Atualizada em 01.09.2020 às 13h18

I May Destroy You se tornou uma sensação entre as novas séries de 2020 antes mesmo da primeira temporada de 12 episódios se encerrar, talvez porque seu teor autobiográfico seja tão potente. Michaela Coel teria escrito 191 versões do roteiro antes de entregar - e produzir, codirigir e estrelar, com controle criativo - o seriado da BBC e da HBO que reconta a história do estupro que ela sofreu na época em que criou e estrelou a sitcom Chewing Gum, que teve duas temporadas entre 2015 e 2017.

Coel revelou o abuso em 2018 durante um festival de TV em Edimburgo. Ela lembra que estava trabalhando virado para entregar um episódio de Chewing Gum na manhã seguinte e fez uma pausa para beber com colegas; depois de um blecaute de memória, ela se vê finalizando o roteiro pela manhã e mais tarde percebeu que havia sido drogada e violentada por estranhos no meio da madrugada. Essa experiência é adaptada em I May Destroy You com variações de situações e personagens, mas a própria presença de cena poderosa de Coel, aliada a um tom francamente confessional, já indica logo de cara que há muito de autoficção no relato, mesmo para quem não conhece a história por trás da série.

Londrina de 32 anos, filha de ganeses, Coel cria para si a figura de Arabella, uma escritora que debutou com um livro baseado em tuites e agora precisa entregar o temido segundo romance para uma grande editora de Londres. Na madrugada em que é violentada, Arabella também estava trabalhando a noite toda, até aceitar um convite para beber com amigos. A temporada se baseia no processo de cura dessa experiência, ao mesmo tempo em que Arabella se descobre pessoal e profissionalmente, tanto na relação com a família imigrante quanto nas trocas com amigos e parceiros sexuais, numa das cidades mais cosmopolitas do mundo.

O fato de I May Destroy You ter sido precedida pela revelação do abuso real de Coel transforma a experiência de assistir à série, mas não é um pré-requisito. Na verdade, ela se estrutura mais num jogo de controle narrativo que a roteirista sugere ao seu espectador-confidente. Não se trata de uma relação de “brodagem” como nas quebras de quarta parede de Fleabag, é mais um contrato de confiança. Esta é uma história de uma alegria de viver interrompida - Arabella era a espontaneidade em pessoa até ser forçada a desenvolver um olhar cínico do mundo - e então I May Destroy You coloca o público no mesmo lugar: toda situação cômica ou minimamente inocente será apenas um intervalo entre estados permanentes de consternação.

Coel não inventa a roda; as comédias dramáticas são um subgênero consagrado pelas modulações agridoces entre o choro e o riso. O que I May Destroy You faz de particular dentro desse subgênero é transportar a experiência do abuso - que muda a relação da pessoa com o mundo e força a viver em constante desconfiança - para a própria cadência dos roteiros. Sempre que assistimos a algum momento de enlevo, como quando Terry faz seu primeiro sexo a três, por exemplo, isso vem acompanhado de algum sinal de alerta (presente no jogo de câmera, na criação do suspense, no semblante melancólico dos personagens). Tal é o impacto do abuso sexual: ele tem a propriedade de mudar a própria constituição do mundo, do que se vê materialmente e do que se sente.

À parte os estudos de personagem (melhor desenvolvidos com Arabella, evidentemente, do que nas subtramas de Terry e do amigo gay Kwame), a primeira temporada de I May Destroy You tira a sua força desse exercício de modulação e de absurdo. O senso de vigilância é constante, sempre à espera do próximo choque, e os alívios cômicos não aliviam muita coisa. Ao mesmo tempo, as elipses são desconcertantes quando nos sonegam momentos de escape dramático (por exemplo, Kwame conta a Arabella do seu próprio caso de abuso num salto temporal que não vemos), como se minimizassem esses momentos em nome daquela busca por uma leveza de ser, por um otimismo incorrigível. Então daí o seriado nos coloca plenamente no lugar esquizofrênico de Coel/Arabella: como viver de humor, num mundo definido pela violência?

O desfecho totalizante da temporada lembra soluções tradicionais de teledramaturgia (pontas soltas amarradas, acertos de contas pontuais com personagens vários) porque afinal algo foi desvelado no mundo e Arabella inevitavelmente agora vê tudo por outro filtro - inclusive nas lembranças do passado que mudam diante dela. I May Destroy You então desenrola seu manifesto em relação ao mito de que o trauma pode ser algo “transformador”: não se trata de dizer que Arabella ficou “mais forte”, mas que a jornada toda de formação, e da busca por um olhar interiorizado, ponderado, assume os traumas como parte de si. 

Nota do Crítico
Ótimo