Logan Lerman e Al Pacino em Hunters, da Amazon Prime Video

Créditos da imagem: Hunters/Amazon Prime Video/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Hunters - 1ª Temporada

Série da Amazon Prime Video é inconsistente e dramática em excesso, mas diverte ao encontrar sua voz em conspirações históricas

Arthur Eloi
02.03.2020
18h07

Por mais sombria que seja sua marca na história da humanidade, a Segunda Guerra Mundial encontrou lugar no entretenimento pela ampla variedade de abordagens. O conflito já foi explorado pelo drama, heroísmo, espetáculo e trauma. Hunters, a nova série do Amazon Prime Video, discute as consequências do evento em uma mistura de todos esses ângulos, mesmo que eles não se encaixem.

No programa, Jonah (Logan Lerman, de Percy Jackson) esbarra em uma conspiração seguindo o assassinato de sua avó. O jovem judeu descobre que, mais de 30 anos após o fim da guerra, células nazistas estão infiltradas nos Estados Unidos, e cabe a um grupo liderado por um antigo amigo de família - Meyer Offerman, vivido por Al Pacino - caçá-los e impedir seus esquemas nefastos. É uma premissa bastante chamativa e digna de filme-B, algo que a série veste com orgulho.

Há muito carinho pelo cinema apelativo - também chamado de exploitation - dos anos 1970, produções baratas mas muito lucrativas pelo seu excesso de sexo, violência e absurdos. Hunters flerta com a estética dessas obras, especialmente de filmes gráficos de guerra. A inspiração vêm da mesma fonte que Quentin Tarantino usou em Bastardos Inglórios e até Era Uma Vez… Em Hollywood. O seriado, por outro lado, não vai tão longe quanto o cineasta em sua homenagem.

Atirando para Todo Lado

Mesmo com o visual e ideias do exploitation, Hunters tem medo mergulhar no sensacionalismo. A caçada aos nazistas é, sem dúvidas, o prato principal, e poderia muito bem ser conduzida na mesma pegada de The Boys e seus super-heróis problemáticos. Um ou outro momento de violência, como os interrogatórios aos inimigos, demonstram que a produção é a favor da ideia. Mas ao invés de atingir esse potencial, a série perde muito tempo discutindo a natureza de sua premissa. Enquanto as referências estéticas são antigas, a narrativa quer muito ser TV moderna, com complexidade moral, reviravoltas e núcleos de personagem. O problema é que esse encontro geracional não se encaixa.

O tom é completamente inconsistente. Em um momento a série quer ser aventuresca e brutal; em outro, fica dramática para demonstrar os crimes impensáveis cometidos nos campos de concentração. A transição não costuma ser sútil. Uma cena dos caçadores torturando um nazista pode ser seguida por um flashback emotivo do Holocausto. É como tentar juntar Bastardos Inglórios e A Lista de Schindler em uma obra só. A temática até pode ser a mesma, mas as abordagens não se complementam.

A escrita é a parte mais fraca e incoerente do programa. O assunto por si só é complexo e precisa de sutileza, especialmente se a ideia é traçar paralelos com os dias de hoje. Hunters não tem sutileza alguma, nem na apresentação de seu universo e nem nas comparações. Quando quer apresentar algum personagem, costuma inserir nome completo e cargo em diálogos não-naturais. E quando quer criar dinâmica entre o passado e presente, dá uma gigante piscada para a tela, como inserir o slogan de Donald Trump na boca de uma nazista, ou então falas do tipo “nazistas nos Estados Unidos, quem poderia imaginar?!”. Esse conflito de identidade, aliado com texto medíocre, faz com que o seriado soe vazio, tentando forçar um estilo que não consegue - ou não quer - sustentar.

A Grande Verdade

Não significa que Hunters não tenha seus acertos, e o maior é a sua pegada conspiracionista. Mesmo se complicando ao misturar gêneros incompatíveis, a trama gradualmente se esclarece como um thriller. A ponta-solta que Jonah encontra no início leva para algo muito maior e perturbador, com mudanças de identidade, documentos alterados, agendas secretas e sujeira escondida debaixo do tapete pelo governo norte-americano.

O melhor de tudo é que muito disso realmente aconteceu (algo que, novamente, é sinalizado sem sutilezas). É aqui que o potencial da série fica evidente, tratando decisões questionáveis do passado com coragem e acidez. É surpreendente que, de fato, dá para aprender uma coisa ou outra com o programa, como o que foi a Operação Paperclip, ou então a relação entre o cientista nazista Wernher von Braun e Walt Disney.

O inimigo fortalecido, organizado e poderoso, ameaçando sair das sombras e mudar o rumo da história, é um oponente muito mais interessante que alguns indivíduos escondidos. Além disso, dois arcos secundários conquistam: a investigação da detetive Millie Morris (Jerrika Hinton), e a impiedosa ascensão do neonazista americano Travis (Greg Austin). Enquanto a primeira sempre parece estar na cola dos antagonistas, o segundo surpreende pelo carisma sombrio e criatividade para a brutalidade.

É esse lado mais satírico e consciente que faz Hunters se destacar e não cair em mediocridade, ainda mais com uma conclusão tão forte. Há sim muita coisa para se ajustar, começando pelo escopo e foco do projeto. A primeira temporada é tão caótica porque morde mais do que a boca. Ver o esforço para mastigar não é agradável, mas eventualmente se torna mais fácil de engolir e até bastante saboroso.

Nota do Crítico
Bom