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Créditos da imagem: How To Get Away With Murder/ABC/Divulgação

Séries e TV

Crítica

How To Get Away With Murder - 5ª temporada

Desvendando mistérios que não importam, quinta temporada da série se sustenta apenas no talento de Viola Davis

Henrique Haddefinir
03.09.2019
10h27

A primeira grande série a fazer sucesso com a fórmula do mistério que é revelado aos poucos em começos e finais de episódio foi Damages. Mistérios de “quem matou” ou “quem morreu” são comuns na teledramaturgia, mas essa fórmula, especificamente, ganhou as atenções e os prêmios depois que Glenn Close topou interpretar a terrível advogada que corrompia lentamente a pupila ingênua que começa a trabalhar como estagiária. A advogada vivida por Close era implacável, fria, cruel e também invencível. A cada episódio víamos um pedacinho do enigma que precisava ser montado no final. Esse pedacinho se dividia entre o começo e o final daquela hora e informações sobre quanto tempo faltava para que tudo acontecesse eram colocadas na tela convenientemente.

O sucesso de Damages durou exatos três anos. Assim que chegou ao quarto ano as coisas desandaram consideravelmente. E os erros estavam diretamente ligados ao quanto o público começou a se cansar de ser “enganado”. Os pedaços que formavam o enigma continuavam ali, mas quando as peças se juntavam, o resultado era insosso e desinteressante. Saídas fáceis eram usadas para explicar contextos e não havia nenhuma relevância em como os roteiros destrinchavam os mistérios que estabeleciam quando as temporadas acabavam. Na quinta temporada a série acabou e saiu de cena desacreditada e esquecida. E tudo isso faz de How to Get Away With Murder uma série cada vez mais parecida com Damages.

Peter Nowalk, criador de HTGAWM, absorveu o mundo de Damages e criou uma série com tantas semelhanças que até mesmo as fraquezas entre elas são iguais. A nova produção também tem em Viola Davis uma grande estrela do cinema que entrega ao papel principal a mesma implacabilidade que Close entregava à Patty. E muito por causa dessa escalação a série conseguiu se manter no radar da crítica e das premiações por muito tempo, ainda que seus argumentos narrativos estivessem completamente esgotados. A série de Davis, inclusive, já havia tido uma quarta temporada extremamente problemática, mas agora, no seu quinto ano, os problemas se agravaram consideravelmente, a ponto da presença de sua estrela não ser o suficiente para que o interesse se mantenha vigente.

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A quinta temporada agoniza, não há outra forma de avaliar seu desempenho. Tal qual todos os anos, começamos com um flashback (que tem até a mesma paleta de cores que os flashbacks de Damages) de uma noite em que pessoas choram e sangue está pingando no chão de algum lugar. Dessa vez estamos na neve, o bebê de Laurie (Karla Souza) está chorando e Bonnie (Liza Weil) agacha para falar com alguém que não sabemos quem é. Aleatoriamente, Annalise (Davis) estapeia Frank (Charlie Weber) e depois chora em casa; enquanto em um outro trecho do começo da temporada, todos procuram por Oliver (Conrad Ricamora) em plena festa de seu casamento com Connor (Jack Falahee). Aí estão algumas das peças que a temporada precisa juntar e que, obviamente, estão ali também como despiste. Nem tudo vai se realizar como imaginamos, mas não sermos completamente enganados é importante para a credibilidade da produção.

A história se concentra primeiro em jogar com a presença de Gabriel Maddox (Rome Flyn), um jovem que o roteiro insinua ser o filho de Annalise. Apesar de todo o investimento do texto em sacudir tudo na temporada passada, o quinto ano começa como se nada tivesse acontecido, com Annalise dando aulas e treinando jovens usando um crime real como instigador (não importam os erros, todos estão condenados a viver em repetição). O crime em questão é que envolve o pai de Nate (Billy Brown), o que também absorve alguns coadjuvantes importantes como Miller (John Hensley) e como a governadora Lynne (Laura Innes). Percebam que o oportunismo é tanto que até mesmo a escolha de um ator negro para fazer Gabriel tem reflexos nessa tentativa de nos ludibriar.

Não demora para que a narrativa comece a usar as muletas de sempre: Bonnie e Annalise. Enquanto a primeira passa a ser o foco da tal maternidade perdida, Annalise passa da otimista decidida a “sair do inferno” para a infernizada de sempre. Os roteiros dão a volta e terminam na mesma dinâmica, em que a miséria emocional de Bonnie e Annalise servem como catalisadores de tudo de dramático que a história precisa entregar. O problema é que quando as peças do enigma começam a se juntar, o que surge é uma revelação tosca, desinteressante, que usa de artifícios desonestos para captar nossa atenção (sumir com Oliver da festa e jogar com sua ausência como se ele fosse o morto do flashback é um exemplo disso). Tudo em HTGAWM é tão repetitivo que quando os roteiros resolvem o enigma ficam sem saída e ressuscitam mais parentes mafiosos de Laurie para dar conta do final.

É impossível não mencionar que com tudo que a série está vivendo, Davis continua forte e presente nas cenas, defendendo aquele looping de mesmos conflitos como se eles fossem novos. Liza Weil também faz um bom trabalho com os constantes traumas de Bonnie e merecia mais reconhecimento por ser a outra grande pilastra da série. Também é importante mencionar que a decisão de não continuar atribulando o relacionamento de Connor e Oliver foi muito positiva e eles representam uma parcela humana muito válida para a série, que está sempre se esquecendo de “ser de verdade” para “ser misteriosa e complexa”. E do jeito que as coisas estão, ela é cada vez menos.

A quinta temporada de How To Get Away With Murder já está disponível no catálogo da Netflix e a sexta já foi anunciada como a última. Annalise Keating precisa sair de seu inferno. Nós também.

Nota do Crítico
Ruim