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Crítica

How To Get Away With Murder - 4ª Temporada | Crítica

Projeto que carrega a tutela de Shonda Rhymes continua correndo em círculos

Henrique Haddefinir
05.05.2018
11h29
Atualizada em
05.05.2018
18h02
Atualizada em 05.05.2018 às 18h02

Séries procedurais já não são mais comuns na TV americana como eram antigamente. Ainda há algumas no ar que são respeitadas e assistidas, mas o público tem dificuldade em aceitar novas tentativas de plantar histórias como essas na própria rotina. Parece que hoje em dia todo mundo quer ser desafiado a montar quebra-cabeças narrativos. Porém, algumas ideias dependem diretamente de um pouco do formato procedural e How To Get Away With Murder parece tentar flutuar entre uma coisa e outra desde que estreou, quatro anos atrás.

O formato da série não era nenhuma novidade. Anos antes, a série Damages já tinha sido muito bem sucedida na estratégia de começar a temporada com imagens de um crime e ir montando o desenvolvimento disso nos episódios seguintes, sempre usando os últimos minutos do bloco final para avançar nas revelações. De fato, a estrutura de How to get Away é exatamente igual a de Damages até mesmo na relação entre mentora e aprendizes. De algum jeito, porém, essas semelhanças berrantes não impediram a série de alcançar status, algo que se deve quase que completamente a presença de Viola Davis no elenco.

A história da advogada brilhante e manipuladora que influenciava negativamente seus alunos preferidos armou-se uma cilada: a cada temporada precisava montar não apenas um, mas dois picos de tensão que levassem a crimes, para que fossem sendo revelados com o tempo, em doses curtas, com a intenção de surpreender e chocar a audiência. Foi a mesmíssima armadilha em que a própria Damages se colocou, conseguindo ser brilhante em algumas dessas charadas e, às vezes, absolutamente medíocre em outras. Logo os crimes precisaram acontecer tantas vezes que o surpreendente passou a ser a sobrevivência.

Let Annalise Live

A quarta temporada de How to get Away, entretanto, buscou um caminho meramente novo. Ao estrear mostrando Annalise em busca de redenção, os roteiristas revelaram uma preocupação em tentar fugir da corrida em círculos que eles vem dando há bastante tempo. Eles estabeleceram que Annalise é o mal encarnado e que tudo em volta dela morre ou escurece. Assim, ficam num cabo-de-guerra complacente em que quando interessa ninguém quer estar perto dela, até que seja necessário torná-la o centro de tudo novamente. E isso sempre acontece, afinal, Viola está ali (como Glenn Close estava em Damages) e é o nome dela que segura as pontas.

Curiosamente, foi mesmo a trajetória de Annalise o ponto mais positivo desse quarto ano, que em termos de avanço na trama passou mais 15 episódios numa incansável exploração da morte de Wes (Alfred Enoch). É até admirável que eles tenham conseguido criar tantas ramificações para o que aconteceu, mas o fato é que todo esse plot está esgotado e nada mais de chocante pode sair dele sem que perca todos os níveis de coerência.

A trajetória de Annalise, contudo, conseguiu gerar não só bons momentos para Viola brilhar, como aproveitou a personagem através de olhares menos duros. Claro que em um ou outro momento a ladainha do “Annalise é o demônio” vinha à tona, atrapalhando a verossimilhança dos fatos. Mas, foi deleitoso acompanhar o bom desenvolvimento dela ao lado de Connor (Jack Falahee) numa causa realmente altruísta e foi ótima toda a história do parto de Lauren (Karla Souza) servir para redimí-la dos eventos passados. Quando chegamos ao crossover com Scandal, o impacto da postura positiva de Annalise provocou empatia e comoção, algo que não é correlacionado à personagem faz muito tempo.

Isso não salva a temporada da previsibilidade. Michaela (Aja Naomi King) segue sendo uma reprodução menos carismática de Annalise, Lauren segue liderando os piores plots, Bonnie (Liza Weil) e Frank (Charlie Weber) orbitam a protagonista sem nenhuma razão concreta e se não fosse pelo carisma de Oliver (Conrad Ricamora) e principalmente Asher (Matt McGorry), o elenco poderia ser dado como perdido. Nesse ano ainda tivemos a dinâmica entre Annalise e Isaac (Jimmy Smits), mas no final das contas começa do mesmo jeito e termina do mesmo jeito: ela sendo interessante e necessária e depois culpada de tudo de ruim que acontece com ele.

O bom final de temporada parece ter varrido Wes para debaixo do tapete definitivamente e deixou em aberto um gancho importante (embora absurdo) para que a quinta temporada seja, enfim, a última. Pode parecer irônico, mas a melhor coisa que os roteirista de How to get Away With Murder conseguiram esse ano foi fazer brotar no público um anseio: eles precisam deixar Annalise viver e se continuarem escrevendo sobre ela, cairão progressivamente na tentação de continuarem demonizando-a. E precisamos deixar Annalise viver sem ser maldita, finalmente.

Nota do Crítico
Bom