Foto da última temporada de Homeland

Séries e TV

Crítica

Homeland - 8ª Temporada

Série volta as raízes e se despede do público com um final digno do sucesso que um dia a série teve

Henrique Haddefinir
01.05.2020
10h56

Quando Homeland fez sua estreia em 2011, a crítica e o público se renderam rapidamente a proposta da série. Ela parecia feita para ser unanimidade. O roteiro era inteligente, a proposta era nova e a configuração dos personagens seguia a cartilha dos novos dramas da televisão dos anos 2000: episódios longos, tecnicamente perfeitos e com uma protagonista perturbada e inescrupulosa. Não é à toa que a produção ganhou uma enormidade de prêmios e elevou Claire Danes ao status de grande estrela da geração. O impacto foi tão positivo que cobriu a série de uma obrigação de ser infalível, como se fosse impossível que tamanha qualidade caísse, mesmo que só algumas polegadas.

Contudo, os criadores eram Howard Gordon e Alex Gansa, dois dos nomes mais fortes da produção executiva de 24 Horas, a pioneira na exploração da temática Oriente Médio versus Estados Unidos. Embora não tivessem criado a série de Jack Bauer, a marca deles foi impressa no andamento das temporadas. Homeland, é claro, também sofreu certa influência. Já a partir da segunda temporada, alguns vícios narrativos de Gansa e Gordon foram aparecendo, quebrando a coerência da base dramatúrgica, sobretudo no que diz respeito a Brody (Damian Lewis), que foi sendo arrastado temporada após temporada, mesmo que já não houvesse mais um espaço digno para ele. Quem sofreu as maiores consequências foi Carrie.

Quando os roteiristas finalmente abriram mão de Brody, demorou mais uma temporada inteira para que eles colocassem a protagonista de volta ao eixo da coerência. Isso só aconteceu no quinto ano. Até essa mudança de abordagem, Carrie foi tratada com certo fetiche pelos roteiros, que não perdiam a chance de usar a doença dela como forma de chamar a atenção do público, como se fosse uma muleta narrativa que quase nunca servia de verdade aos propósitos da história. Isso ficou ainda mais evidente quando nos sexto e sétimo ano a série encontrou o apogeu das próprias habilidades e não lançou mão de seus maneirismos sem que eles fossem necessários para a trajetória da produção. 

As sexta e a sétima temporada, inclusive, ousaram abrir mão durante algum tempo da constante relação entre os conflitos no Oriente Médio e o governo norte-americano. Tudo ainda estava ligado de alguma maneira, mas foi refrescante ver a história seguir para uma direção em que a conspiração era mais interna, ligada a Fake News e com uma evidente inspiração no momento histórico do Brasil, que tinha acabado de passar pelo golpe que resultou no impeachment da Presidente Dilma. Além da primeira, foram as temporadas 6 e 7 as que mais representaram a força narrativa de Homeland, sem dúvida nenhuma. Então, ao retornarmos para o último ano, vimos que os criadores quiseram reviver o começo, com boas doses de conflitos entre América e Oriente; e uma nova dúvida: Carrie seria o novo Brody?

Pátria Amada

O grande acerto da temporada final de Homeland foi envolver os velhos códigos (muçulmanos humanizados e traidor na Casa Branca) em uma motivação nova. Dessa vez a paz era realmente possível e Haqqani (Numan Acar) voltou para negociá-la com o governo dos EUA ainda que isso colocasse sua vida em risco. Foi uma transgressão bem vinda, já que Saul (Mandy Patinkin) vem trabalhando por isso há muitos anos e a proximidade com Haqqani não era uma novidade para o público. Embora forças trabalhassem contra – e a série sempre tenta equilibrar os lados, colocando mocinhos e bandidos dos dois lados – o mais interessante é que o que acabou atrapalhando o processo de paz foi um simples e mero acaso.

Gordan e Gansa foram muito espertos ao construírem uma tensão que não tinha nada de extraordinária, mas que era extremamente eficaz, porque segurava todos os enredos numa mesma corda. Uma caixa-preta de helicóptero capturada pelos russos e uma ex-agente da CIA que sempre esteve disposta a tudo de errado para fazer a “coisa certa”. O problema é que Carrie ficou meses presa numa instituição mental russa e sua proximidade com Yevgeny Gromov (Costa Ronin) se tornou uma dúvida para as autoridades americanas.

É claro que seria estapafúrdio se Carrie “virasse a casaca” repentinamente, mas um outro grande acerto desse planejamento foi colocar a protagonista em situações onde ela só poderia contar com o amigo russo, o que ia tornando sua palavra cada vez mais frágil. Carrie também sempre foi o caos necessário para que as coisas realmente aconteçam e isso foi levado a sério nessa última temporada, com a possibilidade da paz dependendo unicamente do quanto alguém estaria disposto a fazer sacrifícios. Ao chegarmos ao fim desse enredo, nos perguntamos se Saul não saberia, no fim das contas, que ele mesmo não precisava tomar nenhuma decisão difícil, justamente porque Carrie - não importa como - faria isso por ele. E ela foi longe, sempre numa distância coesa, correta, com pontos de dramaturgia muito bem amarrados.

É possível dizer que para um final da série, alguns fãs poderiam estar esperando uma eloquência maior. No decorrer do último episódio há algumas viradas anticlimáticas, como a falta de um desfecho mais detalhado para os núcleos da Casa Branca e do Talibã; e a falta de um eco para os mínimos sucessos da operação que dominou todos os eventos do ano. Contudo, há algo de extremamente poético no final escolhido para Carrie, que após fazer o último grande sacrifício em nome de sua pátria, é obrigada a abrir mão dela.

Durante essas oito temporadas, Homeland trouxe discussões importantes, fez provocações necessárias e terminou mostrando que de algum jeito a paz não é impossível, desde que todos os lados estejam interessados nela. Talvez a grande lição que Carrie ensinou sem nem saber foi que os governantes nunca percebem que sempre estão dispostos a tudo para atacarem o inimigo, mas não tem a mesma disposição para evitar esses ataques. Carrie chegou a extremos terríveis, mas uma olhada atenta vai nos fazer chegar a uma conclusão libertadora: ninguém queria fazer o que era necessário e ela fez. De repente é disso que o mundo está precisando para mudar: hesitação na hora da guerra e absurdos em nome da paz.

Nota do Crítico
Ótimo