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Crítica

Homeland - 7ª Temporada | Crítica

Série faz uma de suas melhores temporadas ao analisar o terror promovido pelo cidadão comum

Henrique Haddefinir
05.05.2018
11h15
Atualizada em
05.05.2018
14h01
Atualizada em 05.05.2018 às 14h01

Um dos mais emblemáticos momentos do sexto ano de Homeland, no ano passado, foi o que mostrou o podcaster Brett O’Keefe (Jake Weber) organizando um grupo de pessoas responsáveis por manter online uma enormidade de perfis falsos em redes sociais, que pudessem ser usados para propagação de Fake News a respeito da então candidata Elizabeth Keane (Elizabeth Marvel). Mais importante que a notícia, contudo, era criar uma rede de disseminação de pseudo-verdades, defendidas inflamadamente; e que são parte notória dos hábitos sociais contemporâneos.

A sexta temporada, inclusive, foi o ato de abertura do que vimos nesse sétimo ano, um ano em que a série precisou olhar de verdade para o próprio legado para compreender que, além de respeitar a própria essência, ela precisava aprender a falar sobre vigência - terror religioso e terror político já não estão mais separados. Os danos são os mesmos e a única diferença que os separa é o quão dissimuladas podem ser as artimanhas políticas. E Homeland soube trabalhar muito bem essas dinâmicas.

Para que a escalada de tensões fosse bem colocada, a temporada foi dividida em dois núcleos narrativos complementares. Na primeira metade vimos como a resposta da presidente Keane aos eventos do sexto ano prejudicaram seus primeiros meses de mandato e chegamos, com isso, ao apogeu dos reflexos negativos plantados por O’Keefe quando começou sua jornada de manipulação midiática. Na segunda metade a série voltou às origens e reajustou os eventos para que falassem do que termina sendo a essência do show: uma história sobre pátrias.

Paean For The People

Depois de passar alguns anos perdida em repetições e recorrências sobre o terror no Oriente Médio, Homeland avançou para uma direção diferente: ela resolveu focar no que pode acontecer quando o próprio cidadão comum é usado como força bélica capaz de provocar até mesmo a queda de grandes líderes. Nesses tempos em que a internet virou uma “bíblia” do que é ter um status relevante, a opinião, a voz, o verbo, ganharam tanta força quanto qualquer outra arma de destruição. Essa compreensão levou a série a recuperar suas sutilezas e a se comunicar melhor com os espectadores.

Carrie (Claire Danes) também surgiu nesse ano com uma narrativa extremamente segura. A personagem – que tinha sua loucura sendo usada indiscriminadamente em outros anos – encontrou até mesmo no investimento em sua bipolaridade uma perspectiva menos óbvia. Ela também teve sua maternidade colocada em pauta e, dessa vez, os roteiristas preferiram não simplesmente fazê-la reagir, mas sim ponderar, como se espera de uma personagem com tanta experiência como ela. Até que ponto só amar um filho te faz uma boa mãe? Foi reconfortante ver a personagem lidando de modo sensato com as implicações dessa pergunta.

Os elementos dramatúrgicos ajudaram: até metade da temporada vimos o plano para desmoralização da Presidente chegar a extremos reais e que foram piorados por ela mesma, inclusive. Então, logo depois do clímax desses eventos, a temporada precisou se reajustar e passou um período de retração, muito rápido, encontrando logo uma nova construção de tensões que resultavam da descoberta de que era outra pátria a responsável por todo o engodo que transformou a presidência numa piada nacional. Essas novas tensões foram bastante coesas e isso fortaleceu as expectativas. Os roteiristas chegaram à reta final com uma quantidade respeitável de boas opções de impacto.

Com um final de temporada do mais intensos que a série já fez, o público teve o prazer de acompanhar as consequências do plano contra Keane atingirem todos os núcleos com perfeição. Os culpados sendo revelados, o sacrifício da equipe liderada por Saul (Mandy Patinkin) revelando mais uma forma surpreendente de abordar os demônios de Carrie e o mea-culpa da presidente funcionando como um diálogo implícito e direto com o público. Homeland fez do final da sétima temporada uma espécie de brado sócio-político, refletindo nossas responsabilidades no mau uso da engrenagem pública. E fez isso com sensibilidade, algo que nem sempre foi visto na proposta sempre tão crua do show. Acabou sendo um final extremamente bonito e catártico.

Sabendo que o oitavo ano será o último, os criadores podem manter a ousadia da dramaturgia e continuar a apostar nos horrores disfarçados de simplicidade. São esses que corroem com muito mais eficiência as noções de integridade. Há grandes chances de vermos a história de Carrie Mathison terminar muito bem.

Nota do Crítico
Ótimo