Julia Roberts e Stephan James em Homecoming

Créditos da imagem: Homecoming/Amazon Prime Video/Reprodução

Séries e TV

Crítica

Homecoming - 1ª temporada

Como um verdadeiro quebra-cabeças, série de Sam Esmail desenvolve conspiração com uma narrativa envolvente e instigante

Mariana Canhisares
21.05.2020
18h36

A criação de uma instalação para ajudar veteranos de guerra a superarem seus traumas e, aos poucos, serem ressocializados pode até soar como uma iniciativa sensível e genuína, mas nem o sorriso da assistente social vivida por Julia Roberts consegue disfarçar que há algo de errado em Homecoming. Desde o primeiro episódio, um clima de tensão e mistério toma conta dos corredores deste que se anuncia como um projeto revolucionário, mas que esconde nos seus benefícios interesses maliciosos.

Talvez a dica já estivesse dada no simples fato de que um dos criadores da série é Sam Esmail, a mente por trás de produções como Mr. Robot, que mais de uma vez provou que as coisas nem sempre são o que parecem. Mas enquanto Elliot é um narrador nada imparcial, a desconfiança em Homecoming é expressa em duas linhas temporais distintas, que inicialmente não se completam.

Em uma, Heidi Bergman (Roberts) recebe o carismático soldado Walter Cruz (Stephan James) e dá início ao tal tratamento de seis semanas. Na outra, anos depois, Heidi trabalha como garçonete, sem qualquer memória do seu antigo emprego. Não há qualquer pista do que aconteceu nesse meio tempo, a não ser que um evento envolvendo a assistente social, o jovem militar e o centro de recuperação está sob investigação do burocrata do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, Thomas Carrasco (Shea Whigham).

Mais do que uma mudança sutil no visual de Roberts e a troca abrupta de cenários, os períodos são filmados de modos muito diferentes. Enquanto o passado ocupa toda a tela da TV e valoriza as cores do arborizado e moderno centro de recuperação, o presente é apresentado no formato 4:3, com tons opacos e acinzentados. Mais que uma escolha estilística para distinguir as linhas temporais, Homecoming usa essas formatações como uma metáfora, algo que fica mais claro somente quando a temporada se aproxima do seu final.

Aliada à história e a esta estética singular, a sensação de desorientação predominante na série é potencializada pela direção de Esmail, que filma os ambientes como se fossem labirintos, privilegiando a arquitetura e as formas geométricas de seus cenários. Não bastasse isso, a série ainda dá um passo além e instiga a curiosidade do público com uma trilha sonora inquietante, que coloca os espectadores no lugar dos personagens, sobretudo durante as descobertas de Heidi sobre si mesma. Com tanta atenção aos detalhes, Homecoming atrai o público para a sua conspiração que, adivinhe, é maior do que a assistente social e seu cliente preferido.

Há um fator importante nessa dinâmica de recuperação entre Heidi e Walter Cruz. A iniciativa conduzida pela protagonista não é governamental, mas sim de uma corporação gigantesca chamada Geist, mais uma grande incógnita desta equação. Ao longo dos 10 episódios o espectador acompanha também um importante representante da empresa, o executivo Colin Belfast, interpretado por Bobby Cannavale. Cobrando resultados a todo instante e se comportando como um grande babaca, o personagem é o principal indício de que nada de bom poderia sair daí.

Homecoming é, portanto, um intrigante quebra-cabeças. Apesar dos capítulos curtos, a série se desenvolve com calma e revela apenas o suficiente para manter o público preso na sua trama. Como fica claro na cena pós-créditos, essa história está longe de concluída e uma nova temporada é mais do que bem-vinda.

Nota do Crítico
Ótimo

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