Foto de Grey's Anatomy

Créditos da imagem: Grey's Anatomy/ABC/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Grey's Anatomy - 15ª temporada

Após bater recorde, Grey's Anatomy luta contra o tempo, mas não se salva de contar sempre as mesmas histórias

Henrique Haddefinir
28.05.2019
23h17

Em 27 de fevereiro desse ano a ABC exibiu o episódio número 332 de Grey’s Anatomy, que bateu a marca de 331 da clássica ER (Plantão Médico), se tornando a série médica mais longa da história da televisão americana, uma marca sacramenta o que todo mundo já sabia: Grey’s se tornou a série médica mais importante da televisão, tanto pela sua longevidade, quanto por sua relevância dramatúrgica e sociopolítica. ER lançou ao mercado nomes de peso como George Clonney Juliana Margulies, virou referência nostálgica e é, de fato, a base para tudo que veio depois. No entanto – e isso também se deve à popularidade da internet – não chegou nem perto do apelo midiático e emocional em que chegou a primogênita de Shonda Rhymes.

A palavra emocional aqui tem papel fundamental na hora de fazer qualquer julgamento sobre Grey’s. Depois de construir sua trajetória através dos pilares românticos e trágicos dos personagens, a série chegou a um lugar de afeto que muitas vezes soa inabalado e inalterável. Andando discreta nos últimos anos, evitando os picos sangrentos pelos quais se tornou conhecida, o que Grey’s tem feito é pisar em ovos, errando o mínimo, para que o público cativo sempre se sobreponha ao exigente, garantindo temporadas que durarão, no mínimo, até 2021. Então, mesmo que ainda só tenha 4 membros do elenco original (Meredith, Alex, Bailey e Richard), a série só quer falar baixinho, dar passos curtos, apenas garantir que os sedentos por mais emoção continuem, para que quando chegar ao fim ela seja a marca quase impossível de ser superada.

É curioso, porque não podemos dizer nem que a série está ruim nem boa. Nos últimos três anos (ou talvez mais) os episódios seguem numa estrada mediana, ousando o mínimo, mas ainda escritos com elegância, doses de humor, engajamento político, o que lhe garante – vez ou outra – um destaque nas mídias especializadas. É como se a série tivesse superado sua fama de imprevisível e tivesse encontrado a zona de conforto, onde nada é fatal como antes, mas muito mais apoiado em maturidade e memória. Quando paramos para pensar: “Grey’s não é mais imprevisível”, pode ser que levemos um susto. Mas, de novo, existe algo de corajoso em parar de acessar grandes viradas dramáticas o tempo todo e contar um pouco de como a rotina da vida é. A questão maior é saber se estamos dispostos a continuar por mais dois anos quando tudo que vimos nos últimos três foi mais do mesmo.

MerLuca

A décima quinta temporada de Grey’s Anatomy tinha pouquíssimas narrativas centrais que costurassem o ano. O papel de Alex Karev (Justin Chambers) como chefe prometia algumas possibilidades de reviravoltas, mas o personagem não é – e não pode – se comportar impulsivamente como antes, o que faz com que a expectativa de vê-lo numa posição de poder seja nula. Era inevitável que a saída dos roteiristas transformasse a trama apenas em uma transição que garantisse tema para alguns episódios. Perto da final as coisas já voltam a ser como eram antes, o que torna a experiência essencialmente irrelevante, desperdiçada. Já cansamos de ver Bailey (Chandra Wilson) sendo o coringa de saída e retorno do cargo toda vez que é conveniente.

Ela, aliás, também é o peça-chave do crossover com Station 19, que acontece com cada vez mais frequência, e também não ajuda a melhorar as coisas. A série dos bombeiros é como um eco distorcido de Grey’s, não tem absolutamente nenhum carisma e quando os encontros acontecem, é como se fossem um filler, um episódio que só está “recheando” a temporada. Isso também acontece com a trama do retorno de Altman (Kim Raver), que serve majoritariamente para dar aos fãs mais um rosto familiar; e também oferecer alguma esperança de que se Hunt (Kevin McKidd) ficar com ela em algum momento, os eternos arcos sobre o péssimo marido que ele é se acabem.

Os casais de Grey’s Anatomy, inclusive, se tornaram um grande problema. Nenhum deles perdura. Mas não pensem que isso é porque o roteiro quer mostrar como os relacionamentos são efêmeros. Chega um ponto em que juntar um casal e separar um casal se torna a única coisa que os roteiristas conseguem realizar. Por isso, aquele recurso do "tenho um problema, não vou conversar com o parceiro e seguirei agindo loucamente" se torna insuportável. Eles passam meses construindo um casal e em um episódio nos fazem querer afogar os dois. Foi o que destruiu Hunt e Amelia (Caterina Scorsone); o que agora acontece com Jackson (Jesse Williams) e Maggie (Kelly McCreary) e provavelmente acontecerá mais para frente com Amelia e Link (Chris Carmack).

A outra grande tentativa de costura da temporada foi a junção do casal formado por Meredith (Ellen Pompeo) e DeLuca (Giacomo Gianotti), um casal encomendado para discutir uma questão muito importante, mas que sofreu com a falta de carisma. Em parte isso se deve ao fato de DeLuca ter sido usado como trunfo para garantir histórias com outras duas personagens e isso ter dificultado a credibilidade de seus sentimentos por Meredith. Porém, o que a trama pretende é incomodar mesmo, fazer com que as pessoas sejam flagradas rejeitando o casal justamente porque, no fim das contas, se a diferença de idades fosse oposta, talvez a questão do “carisma” não fosse tão relevante. Por enquanto ainda não é possível acreditar totalmente naquela relação. Mas, isso pode mudar. Eles são capazes de fazer isso mudar.

Prison Grey’s

Não podemos negar que em sua reta final a série até que tentou buscar uma construção climática interessante, mas fez isso acessando uma série de recorrências dramatúrgicas que já estão cansadas. Demissões que já sabemos que não serão efetivas, indiciamentos criminais que já sabemos que serão resolvidos, suposições de culpa trocadas, prisões, desaparecimentos... O roteiro da episódio final investiu pesado em deixar ganchos para a próxima temporada, mas essa "Grey’s Anatomy pós-recorde" não é dada a riscos irreversíveis, não se desfaz do que pode garantir, quase totalmente, que veremos alguns episódios de tensão no próximo outono americano (mas que tudo vai se resolver e se assentar). E toda série não é assim? Grey’s só chegou ao episódio 332 porque houve um tempo em que ela não era.

Vale mencionar que outra grande prática das temporadas mais recentes é a inclusão de um episódio centrado em questões femininas muito importantes. Dessa vez Jo (Camilla Luddington) foi escolhida para ser a emissora. Foi um acerto. A vida de Jo já tinha sido correlacionada com violência em outras ocasiões e pareceu coerente que seu passado mais remoto também tenha uma origem nesse mal. O episódio foi muito bem escrito e dirigido por duas mulheres e bifurcou sua narrativa entre as descobertas da personagem e a entrada de uma paciente violentada no hospital. Ainda que aquele final seja inverossímil perante a realidade da maioria dos hospitais do mundo, foi um final sensível, forte, importante por muitas razões e um daqueles que serão lembrados por muitos anos.

E será assim que seguiremos quando o próximo ano vier: um pouco entediados com a rotina cíclica, reclamando dela até, mas entendendo as mudanças necessárias, aceitando os casais incertos, acreditando que aquela trama repetida vai resultar em uma curva-sem-volta, porque foi assim que fomos treinados durante esses quinze anos de emoção. Mesmo que a série queira continuar em tons baixos e passos curtos, seguimos abobalhados atrás dela, ansiosos por mais uma canção pop, mais uma ameaça elusiva, mais uma lágrima comovida, porque é assim que o método Rhymes funciona. E sim, ele funciona.

Nota do Crítico
Bom