Imagem de Grace and Frankie

Créditos da imagem: Grace and Frankie/Netflix/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Grace and Frankie - 6ª temporada

Novo ano demora para emplacar temas relevantes e usa clichês para resolver a história

Camila Sousa
28.02.2020
11h15

Há anos o cinema e TV contam histórias de amor e descoberta, que geralmente são focados no público jovem. Um casal de 20/30 anos que começa um romance; uma jovem que vai para a “cidade grande” tentar realizar seu sonho; o adolescente que sonha em deixar sua vida no interior e ir para a faculdade, etc. As tramas envolvendo essa faixa etária são tão tradicionais, que o público as conhece de cor.

Grace and Frankie estreou na Netflix em 2015 com uma proposta diferente: mostrar que há muito o que se contar também sobre o público mais velho. E a produção acertou. Mesclando representatividade com humor e grandes atuações, o seriado cumpriu seu papel e colocou seus protagonistas no coração dos fãs. Infelizmente, a sexta temporada chega ao streaming sem o mesmo fôlego.

Um dos grandes problemas do novo ano é a falta de temas realmente importantes - e o tratamento que eles recebem quando eventualmente aparecem. Seja um personagem com uma doença grave, uma grande discussão entre um casal ou uma decisão errada tomada por uma das protagonistas. Os conflitos até dão as caras em certos momentos, mas não há peso. Rapidamente a questão é resolvida para dar lugar à outro problema.

O que isso traz é uma falta de aprofundamento em temas interessantes, como a relação de Grace (Jane Fonda) e Nick (Peter Gallagher). Casada novamente após décadas de relacionamento com Robert, a empresária chega em um novo relacionamento disposta a não cometer os erros do passado. Grace não quer se anular pelo marido e deixar sua personalidade de lado em prol do cônjuge.

O resultado, no entanto, é exatamente esse. É difícil para ela deixar velhos hábitos de lado, mesmo sendo uma mulher com a mente aberta. O tema é bom? Com certeza, mas não é explorado com real importância. Na maior parte da temporada, os medos de Grace em se expôr ao marido são mostrados apenas pelo lado do humor e uma real discussão sobre isso aparece apenas no penúltimo capítulo. Há um respiro sobre isso no episódio 3, que fala sobre o conceito de “esposa modelo” e como homens mais velhos preferem mulheres mais jovens, mas tudo permanece raso.

Pelo lado de Frankie (Lily Tomlin), os pontos altos da temporada são seus encontros amorosos. A personagem se envolve com nomes quase tão interessantes quanto ela, que rendem boas participações especiais. No entanto, é uma pena que uma personagem tão carismática tenha seus melhores momentos apenas quando está ao lado de outros. Frankie continua irreverente e tem boas sacadas nos diálogos, mas, nesta temporada, ela permaneceu muito mais reativa com o que acontece ao seu redor. 

Filhos sem brilho

Apesar de ser uma série focada na terceira idade, Grace and Frankie tem um núcleo jovem formado pelos filhos de Sol (Sam Waterston) e Frankie e Grace e Robert (Martin Sheen). Porém, diferente de temporadas anteriores, eles não têm um bom destaque aqui. Mallory (Brooklyn Decker), por exemplo, não faz nada de significativo na temporada inteira. Em comparação à ela, os demais irmãos pelo menos têm pequenos acontecimentos: a busca de Bud (Baron Vaughn) por sua família biológica, o envolvimento de Coyote (Ethan Embry) com alguém que finalmente o entende e os conflitos de Brianna (June Diane Raphael) em integrar um relacionamento de verdade.

Esta última, aliás, sempre foi a jovem com mais personalidade do grupo. Isso não muda totalmente nesta fraca 6ª temporada, mas perde grande parte de seu brilho. Os comentários ácidos de Brianna não são tão bons quanto antigamente e seus conflitos com Barry (Peter Cambor), que culminam em uma mudança de sua percepção sobre relacionamentos, são os mais batidos possíveis. A conclusão em que a personagem é bonita e culmina em um bom momento no capítulo final, mas não há construção suficiente para que os fãs tenham uma ligação real com as angústias de Brianna.

A forma que a temporada encontra para unir seus nomes principais é o desejo de começar um novo negócio, como já aconteceu antes. Para realizar tal sonho, Grace e Frankie vão a um reality show conhecido, no que seria o ponto alto da temporada. As atuações de Tomlin e Fonda são muito boas na cena e especialmente depois dela. Mas a sequência nem de longe tem o efeito esperado, por conta de sua história de fundo repetida: Grace e Frankie já passaram por todo o processo de criar um novo negócio anteriormente. As motivações são diferentes, é claro, mas as etapas e as dificuldades são as mesmas.

Com sua sétima e última temporada confirmada, Grace and Frankie não se tornou uma série totalmente ruim, mas quem é fã sabe que a produção tem um potencial muito maior. Ao invés de investir em clichês novelescos (como o problema com Nick no final) e repetições dentro de sua própria trama (a necessidade de mudança de casa por causa de um problema de manutenção), a série tem a capacidade de fazer exatamente o inverso: deixar de lado os clichês das histórias tradicionais e trazer de volta o frescor que já teve um dia.

Nota do Crítico
Regular