Adulta e inteligente até o fim, Good Girls merecia um destino melhor

Créditos da imagem: Mae Whitman, Christina Hendricks e Retta em cena de Good Girls (Reprodução)

Séries e TV

Crítica

Adulta e inteligente até o fim, Good Girls merecia um destino melhor

Cancelada sem conseguir finalizar história, a série deixa legado de frustração, mas teve grandes momentos

Caio Coletti
31.08.2021
11h55
Atualizada em
31.08.2021
13h47
Atualizada em 31.08.2021 às 13h47

“Nevada”, o último capítulo da 4ª temporada de Good Girls, seria um season finale brilhante - se não fosse, na verdade, o episódio final da série toda. A decisão da NBC, emissora responsável pela exibição de Good Girls nos EUA, de cancelar a série sem dar a ela uma última temporada para fechar a sua história, deixou os fãs furiosos, e com razão. Good Girls não merece ser definida por um legado de frustração.

Desde a sua estreia, em 2018, a criação de Jenna Bans se mostrou uma das mais inteligentes e adultas da televisão americana, cujas principais virtudes sempre foram um entendimento profundo de seus personagens, e um senso preciso de para onde as jornadas deles precisavam ser levadas. Não que ela fosse perfeita: em seus piores momentos, Good Girls era também uma série que hesitava em levar sua premissa às últimas consequências, em abandonar completamente o status quo que construiu no início (um defeito comum a quase toda série de TV aberta nos EUA).

O resultado era uma Breaking Bad pela metade, que nunca quis abandonar a concepção nuclear que tinha de seus personagens para permitir que eles se transformassem de verdade. Beth (Christina Hendricks), Ruby (Retta) e Annie (Mae Whitman), as mães suburbanas que se viam envolvidas no submundo do crime por conta de vários problemas financeiros, nunca viraram Heisenberg - e talvez nem devessem, mas ainda havia em Good Girls um receio palpável em fazê-las experimentar consequências verdadeiras por seus atos, o que por vezes atrapalhava a experiência do espectador.

É mais difícil ainda fazer as pazes com o cancelamento porque a quarta temporada de Good Girls foi justamente aquela onde essas consequências começaram a aparecer: a deterioração do relacionamento de Ruby com o marido, Stan (Reno Wilson); a quebra definitiva da ilusão que sempre foi o casamento de Beth e Dean (Matthew Lilard); a chegada do FBI à cena, representado pela agente Donnegan (Lauren Lapkus, excelente); a introdução de um antagonista que reposiciona o relacionamento do trio principal com Rio (Manny Montana)...

Especialmente na segunda metade deste quarto ano, Good Girls se permitiu olhar o quadro maior, e levar a cabo narrativas que estava preparando há tempos - e o seu trio de estrelas, sempre irrepreensível, aproveitou a deixa para elaborar os dilemas mais fundamentais das protagonistas. O tédio existencial de Beth nunca foi mais vívido no olhar de Christina Hendricks do que aqui; Mae Whitman encontrou novas formas de divertir e emocionar com o exaspero caótico de Annie; e a honestidade emocional que Retta aplicava à sua interpretação de Ruby foi ainda mais valiosa e impactante do que em episódios anteriores.

As decisões que Good Girls toma em “Nevada”, após um jogo conceitual brilhante que revela (ou reafirma) a verdadeira natureza de suas protagonistas, colocam as três em uma posição inédita de confronto com a moralidade e inevitabilidade de suas próprias escolhas. É a tempestade perfeita que os fãs estavam esperando há anos - mas, graças à NBC, não vai dar para ver o estrago que ela deixou.

Good Girls
Encerrada (2018-2021)
Good Girls
Encerrada (2018-2021)

Criado por: Jenna Bans

Duração: 4 temporadas

Nota do Crítico
Ótimo

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