Foto de Go! Vive a Tu Manera

Créditos da imagem: Go! Vive a Tu Manera/Netflix/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Go! Vive a Tu Manera - 1ª temporada

Nova produção latina da Netflix é honesta em suas intenções: apresentar uma novela adolescente que se passa por uma série musical

Henrique Haddefinir
28.02.2019
11h44

As séries adolescentes são um dos maiores filões da teledramaturgia. A televisão americana está lotada de todos os tipos, desde os dramas sobre pobres meninos ricos, até aqueles onde há criaturas sobrenaturais por toda parte. No Brasil, os títulos são mais limitados. A Globo mantém no ar uma infinidade de versões de Malhação, que é uma espécie de primo híbrido dessas tantas fórmulas que estão no ar. A outra fatia dessa briga pela audiência fica nas mãos do SBT, que já alcançou muito sucesso tanto com produções infantis como Chiquititas, quanto com produções adolescentes como Rebelde. A primeira produzida na Argentina, mas falada em português; e a segunda produzida no México. As duas produções musicadas e voltadas para o tipo de dramaturgia que pode ser facilmente digerida em segundos.

Se essas descrições soam familiares ao espectador de Go! Vive a tu Manera, isso não é uma coincidência. Ted Sarandos, diretor-executivo de conteúdos da Netflix já tinha declarado que o novo investimento da plataforma seguiria a linha da própria Chiquititas, ainda que o elenco principal não fosse formado por crianças, como era na novelinha de 1995. Não é impossível fazer comparações também com High School Musical ou Glee, mas apenas os aspectos musicais permitem essa proximidade. Go! Vive a Tu Manera não funciona com os mesmos códigos das produções americanas, respeitando, assim, a identidade latina desse tipo de trabalho, o que acaba transformando um pouco os julgamentos a respeito do resultado final.

Criada por Patricia Maldonado, o seriado tem o tipo de roteiro que rege praticamente todas as produções adolescentes do momento. Mia (Pilar Pascual) é uma jovem talentosa, com poucos recursos, que com sua madrinha adotiva vive cantando e sonhando com o dia em que poderá entrar na conceituada escola que dá nome à série. É claro que nesse tipo de história o "desajustado" sempre vence e ela vai conseguir entrar na instituição, onde será atormentada pela queen bee do pedaço, que é filha da dona da escola e irmã do crush da protagonista. Pronto, novela pronta. E a palavra “novela” aqui tem peso. Os conflitos e o desenvolvimento textual da série são pautados exclusivamente com o que existe de mais pueril na estrutura de uma novela. De fato, Go! Vive a Tu Manera é um produto embrulhado para fácil degustação.

Viva do jeito que o sucesso quer

Todas essas produções adolescentes do mercado latino tem pontos em comum. Na verdade, todos os pontos são comuns. As canções são originais e não há um investimento real em fazer com que elas sejam diferentes umas das outras. Mensagens motivacionais fazem parte das letras o tempo todo. Em alguns momentos uma ou outra canção se destaca. Mas, o mundo musical de Go! é pasteurizado, como tudo sobre a série, aliás. Os cenários são excessivamente limpos, claros, é possível arriscar dizer que não há uma cadeira com um simples arranhão. O mundo das produções latinas é assim: perfeito. É algo como o que acontece com as novelas mexicanas, em que todo mundo é muito bem vestido e maquiado 24 horas do dia e os cenários de estúdio parecem salas de espera de um consultório. Essa também é uma questão que esbarra no elenco. Go! tem um dos elencos mais homogêneos da atualidade. Um número zero de diversidade. O que – em tempos de Sex Education – soa ultrapassado, retrógrado.

Os enredos são infantis, assumidamente infantis. Mia, a mocinha de Pilar, é muito boa, muito sincera, muito honesta, muito “mocinha”. Lupe (Renata Toscano), a vilã, é daquelas que não dizem uma frase sem empáfia. Os coadjuvantes orbitam no meio dessa rivalidade, com histórias simplórias e desenvolvidas para serem isso mesmo, leves, sem vontade de provocar qualquer ponderamento nos espectadores. Os atores cantam bem, mas são engessados pela proposta de pobreza narrativa. Pilar e Renata fazem caretas o tempo todo e quando alguma tensão explode, o texto parece saído de uma briga de jardim de infância. Sabemos que a temporada nos levará para o momento em que Mia será reconhecida como aquela que salva tudo e todos, o que torna os acontecimentos completamente inverossímeis. Em Glee, por exemplo, onde a dramaturgia era cruel e muitas vezes azeda, o clube do coral da escola perdeu por anos, o que era uma tentativa dos roteiristas de crescer a expectativa e fazê-los amadurecer até chegarem lá. Em Go! não, aqui tudo é vitória e superação. Mas, superação de problemas e limitações que não fazem ninguém nem suar.

Enfim, por sua natureza de fácil “digestão” é bem possível que muitas temporadas estejam por vir. O final é aberto e a última sequência deixa claro que o mundo da série é esse mesmo, o da previsibilidade que não emociona ninguém.

Nota do Crítico
Ruim