Séries e TV

Crítica

Glow – 2ª Temporada

Série retorna para uma segunda temporada amadurecida e adorável

Henrique Haddefinir
10.07.2018
12h30
Atualizada em
10.07.2018
14h19
Atualizada em 10.07.2018 às 14h19

Em 1986, a empresária Ursula Hayden era a proprietária de uma premissa televisiva chamada GLOW (Gorgeous Ladies of Wrestling), em que mulheres se enfrentavam num ringue entre esquetes de humor, números musicais e merchandisings amalucados. A ideia surgiu de um crescente movimento de liberação da mulher, que hoje, pela perspectiva da nova teledramaturgia, busca acessar essa ideia de liberdade pelo viés do empoderamento. Glow é um dos mais importantes títulos contemporâneos que fazem parte da grande fileira de produções centradas em mulheres fortes.

As criadoras da atração, Liz Flahive e Carly Mensch, se interessaram pela premissa depois de 2012, quando um documentário sobre o Glow dos anos 1980 foi ao ar. Ursula, a dona da marca original, passou a ser consultora da série e junto com outros nomes famosos do mundo das lutas encenadas, foi importantíssima para dar ao produto da Netflix uma polidez e uma verossimilhança que enriquecem aquele universo cheio de exageros. Embora o programa seja repleto de tantos desses exageros, há uma costura emocional na forma como ele é conduzido que não demora nada para captar a nossa atenção.

A personagem de Alison Brie, Ruth, funciona para Glow mais ou menos como Piper funciona para o presídio em Orange is the New Black. A Netflix estabeleceu uma identidade em parte de suas produções e bons roteiristas sabem pegar isso e reconfigurar para que mesmos erros não sejam cometidos. Ruth é uma atriz que nunca consegue bons papeis e acaba indo parar em Glow, onde um outro bando de losers se reúne para viver aquilo que mudará suas vidas. Ou seja, é uma base narrativa simplesmente irresistível. Ao mesmo tempo em que Ruth vai começando a acreditar na produção, o público vai junto com ela. A experiência de assistir Glow logo passa a ser extremamente catártica.

América X Rússia

Em sua primeira temporada, Glow tinha que estabelecer sua trajetória básica: Ruth dormiu com o marido da melhor amiga Debbie (Betty Gilpin), que depois de fazer parte de uma novela ruim e decadente, acaba indo parar no mesmo programa que sua antagonista. Quando os personagens que lutarão começam a ser decididos, Ruth vira uma personagem russa e Debbie uma heroína americana. A luta direta que acontece no palco contrasta com a literal “guerra fria” que se estabelece entre elas nos bastidores. Paralelo a isso, o diretor Sam (Marc Maron) tenta de tudo para que o programa seja exibido na TV em um horário e em condições decentes. Em volta, as coadjuvantes bizarras e adoráveis que contribuem para que a série se torne mais simpática.

Depois de tudo bem situado, o segundo ano conseguiu expandir mais o território, brincar com as outras personagens e, sobretudo, investir pesado no crescimento da série dentro da série. A melhor coisa da segunda temporada de Glow é acompanhar como a série passa a ser uma espécie de peça cult da televisão, sendo assistida por poucas pessoas, mas já se tornando notório, mesmo que pelas razões erradas. Com Debbie de produtora executiva, Sam e Bash (Chris Lowell) continuam tentando espaço e os roteiros são construídos de forma muito esperta nesse sentido. A temporada mostra desde decisões comerciais clássicas que condenam o programa ao fim, até o infame teste do sofá, que resulta em uma sequência de eventos que são o ponto alto da temporada.

Com mais tempo de explorar as relações, várias delas crescem gradativamente, criando tensões sexuais, amizades inusitadas e encontros bizarros. Sam, inclusive, é um personagem que tem propensão a implodir seus contatos interpessoais, mas é bonito ver como a relação com a filha e com Ruth vai se desenvolvendo sem que ele perceba imediatamente, até que a compreensão dos próprios sentimentos torna a torcida por ele inevitável. Os roteiros de Glow são muito eficientes em tornar aqueles personagens amorais e estranhos em pessoas pelas quais o público é capaz de desenvolver um extremo afeto. É como se os espectadores se tornassem duplos de Ruth, que vê na série da qual faz parte uma oportunidade de se sentir incluída, de ter uma família finalmente. E de poder ser ao menos um pouco da atriz que sempre quis ser.

Enfim, com uma direção de arte impecável, uma trilha bem selecionada e o espírito dos anos 1980 em evidência (esses anos agora tão relembrados), Glow nunca se esquece de ser leal às mulheres que o constituem. Não só com os cabelões e as cores vibrantes, mas com uma comédia dramática bem escrita, que apresenta cenas incríveis, como a que mostra Debbie, a atriz “famosa” do elenco, furiosa com Ruth, que mesmo com tudo a perder, se recusa a fazer o “teste do sofá”. A mulher que “aceita” o seu lugar e a mulher que precisa que o pensamento machista e patriarcal mude. Ou quando Debbie encena uma luta com um personagem mexicano, vence e diz: “Acho que vamos ter que esperar que as relações entre EUA e México melhorem no futuro”. Pequenos trechos de esperteza dramatúrgica que enriquecem Glow como poucas séries que estão no ar.

O ótimo fim de temporada encerrou a segunda temporada com um gancho cheio de possibilidades. Considerando que o programa original foi um hit até o início dos anos 1990, ainda vamos ver essas meninas brilhando. E elas merecem, sem dúvida nenhuma.

Nota do Crítico
Excelente!