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Crítica

Fugitivos - 1ª temporada | Crítica

Misturando questões do universo teen com super-heróis cativantes, primeira temporada entrega trama divertida e empolgante

Rafael Gonzaga
16.01.2018
19h30
Atualizada em
29.06.2018
02h42
Atualizada em 29.06.2018 às 02h42

Mesmo quem já está saturado de supergrupos de heróis no cinema e na televisão deveria conferir Fugitivos, nova série da Marvel no Hulu. O programa, que usa como base os quadrinhos homônimos de Brian K. Vaughan e Adrian Alphona, acompanha seis jovens -  Alex (Rhenzy Feliz), Nico (Lyrica Okano), Karolina (Virginia Gardner), Gert (Ariela Barer), Chase (Gregg Sulkin) e Molly (Allegra Acosta) - que, após descobrirem que seus pais integram uma espécie de seita do mal chamada Orgulho, fogem de casa e se unem para desmascarar os atos cruéis das próprias famílias. Enquanto se situam no caos de verem os pais potencialmente como seus piores inimigos, eles ainda descobrem ter habilidades especiais e precisam conciliar tudo isso com as questões hormonais comuns à adolescência.

Quem é aficcionado pelo universo dos quadrinhos sabe que a versão de papel de Fugitivos fez um ótimo barulho quando foi lançada - a publicação chegou a ser classificada como "um dos melhores conceitos originais da Marvel das últimas três décadas" por veículos especializados. Além de ter sido considerada um sucesso comercial, Vaughan, criador da história original, chegou a ganhar um Eisner, o Oscar dos quadrinhos, em 2005: a qualidade de Fugitivos foi reconhecida de todas as formas possíveis. Mas, para levar esse conteúdo para a TV era preciso, então, tornar isso palatável ao público médio. Para isso, o Hulu trouxe Josh Schwartz e Stephanie Savage, dupla responsável por séries adolescentes como The O.C. e Gossip Girl.

Essa união de série teen com o universo geek foi fundamental para preservar a atmosfera original dos próprios quadrinhos, que mesclam as questões conturbadas da adolescência com a descoberta aterradora das atividades dos pais e dos próprios poderes. É comum produções sobre jovens serem pontuadas por diálogos forçados, mas Fugitivos ganha pontos pelo roteiro assertivo. A interação entre os jovens é marcada por momentos de insegurança, referências divertidas de cultura pop e comentários cheios de acidez e ironia, exatamente o que se espera de jovens interagindo.

Em alguns momentos, contudo, a mão de Schwartz e Savage parece ter pesado muito na série. O destaque dado para os dramas conjugais dos pais parece um bônus nos primeiros episódios, já que nos quadrinhos as relações internas entre os vilões são pouco exploradas, mas, ao longo da temporada, elas começam a gastar um tempo de tela excessivo - são três casais passando por problemas ligados à traição entre os pais dos protagonistas. Ainda que seja interessante dar humanidade aos pais para tornar a dinâmica da série menos maniqueísta, a forma como o caráter dos vilões é construída por vezes soa apenas como uma sucessão de contradições.

Aliás, quem é fã dos quadrinhos vai se sentir em uma montanha-russa vendo a série: em dados momentos a adaptação é certeira, enquanto que, em outros, opta por caminhos decepcionantes. Fugitivos se aproxima mais de Vingadores do que de X-Men em relação à heterogeneidade da origem dos heróis: são feiticeiros, mutantes, cientistas, alienígenas reunidos. Na série, contudo, algumas dessas categorias foram sublimadas - Molly ganha os poderes em um acidente misterioso e o Cajado do Absoluto perde grande parte do seu impacto por ser convertido em uma espécie de artefato tecnológico.

Por outro lado, a parte técnica da série é ótima, principalmente quando nivelada com produções voltadas para o mesmo público-alvo. Os efeitos especiais usados são bastante convincentes - as cenas de ação com Molly são boas, a pele luminosa de Karolina é bastante fiel aos quadrinhos e, é claro, os principais momentos de Alfazema são tão impecáveis que a pet de Gert poderia ser treinada por Chris Pratt em Jurassic World. Além disso, o relacionamento entre os jovens protagonistas - um pacote de amizade, inveja, decepção e todas as complicações amorosas possíveis - são o ponto alto da série. A segunda temporada deveria investir em dar mais tempo de tela a eles do que deu na primeira em detrimento de seus pais.

Por mais que pareça arriscado investir em um título desconhecido do público mainstream, a estratégia da Marvel com Fugitivos já foi vista em outros campos. Após dominar o cinema com heróis famosos como Homem de Ferro e Capitão América, a empresa conquistou a confiança do público a ponto de fazer com que filmes de herói como Dr. Estranho e Guardiões da Galáxia, personagens pouco conhecido para quem não lê quadrinhos, ficassem entre as 150 maiores bilheterias de todos os tempos. De forma semelhante, na TV a Marvel viu a primeira temporada de Demolidor ser um sucesso e, em seguida, lançou as séries solo de Jessica Jones, Luke Cage e Punho de Ferro - certamente muita gente teve contato com esses nomes pela primeira vez através da Netflix. Fugitivos segue nessa mesma esteira.

A primeira temporada entregou uma das melhores séries desse gênero da atualidade, já que não é difícil ser conquistado pelo carismático sexteto. Ainda que se afaste perigosamente da obra original, há um leque de possibilidades para o já garantido próximo ano: além do aguardado confronto entre pais e filhos se aproximar, a série deixa questões a serem resolvidas entre os adultos e, certamente, o relacionamento dos jovens, convivendo de forma ininterrupta e sem o menor conforto, será elevado a outro nível. Fugitivos é uma boa pedida para quem é fã de séries de heróis - o público só precisa romper a barreira do desconhecimento para incluir seis novos rostos entre seus personagens com superpoderes preferidos.

Nota do Crítico
Ótimo