Séries e TV

Crítica

The Following - 1ª Temporada | Crítica

Kevin Williamson volta a explorar as ligações entre mídia e psicopatia numa série ambiciosa

Henrique Haddefinir
15.06.2013
12h00
Atualizada em
29.06.2018
02h47
Atualizada em 29.06.2018 às 02h47

The Following começa como muitas produções da "fase de ouro" da modalidade seriada e conta com um vilão manipulador e um herói transgressor, atormentado na vida pessoal e insuperável na profissional. Muitas séries têm a mesma dinâmica, assim podemos entender que, em se tratando de Kevin Williamson, um showrunner tão antenado ao mercado, esses não são clichês acidentais.

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Conhecemos Ryan Hardy (vivido por um Kevin Bacon esforçado, mas sem brilho), um ex-agente do FBI, que entrou na mente do assassino serial Joe Carrol (James Purefoy) e foi responsável por sua prisão. Anos depois Joe consegue fugir da cadeia e volta a matar, o que resulta no retorno de Ryan ao trabalho. A premissa é extremamente simples, mas começa a se tornar complexa conforme o "plano maior" do psicopata Joe vai ganhando formas.

A série se apresenta com nervosismo, como deve ser em tempos de um público tão ávido por tramas rápidas e sagazes. A fuga de Joe está totalmente ligada ao passado entre ele e Ryan, já que o primeiro objetivo dela é conseguir matar a única sobrevivente do primeiro massacre, salva pelo ex-agente. Joe quer brincar com Ryan mais uma vez, quer continuar a formar um legado de reeducação social. Assim como fez com Pânico, Williamson nos apresenta uma trama apoiada no que existe de mais obscuro na alma humana: a curiosidade e eventual fascinação pela morte.

Joe se inspira na obra de Edgar Allan Poe para matar. Essa é a forma que a série encontra para começar a enriquecer o contexto da trama. Pode parecer uma escolha aleatória, mas é notável a facilidade que psicopatas tem para correlacionar seus crimes com referências artísticas ou matemáticas. De modo muito sombrio, a arte inspira o assassino e ele inspira outros assassinos, misturados à população normal e com evidência cada vez maior.

Esse é outro diferencial da série, de onde sai seu título e sua relevância contemporânea. Joe é um psicopata que se torna uma espécie de ídolo para outros psicopatas e conforme esses "fãs" vão entrando em contato com ele, uma rede de "seguidores" vai se formando, cada um com uma função e um propósito, além de lealdade cega ao criminoso. Isso acaba causando uma ansiedade e tensão imensas nos personagens e nos espectadores. Percebemos, então, que em The Following, qualquer um pode ser um seguidor de Joe. Ninguém está a salvo.

Helter Skelter

Durante os primeiros episódios da temporada, a expectativa de qual será o próximo seguidor revelado é extremamente competente. Fica evidente que o psicopata tem um plano arquitetado para destruir seu rival, vingar-se da esposa que o traiu, catequizar o filho pequeno para segui-lo e movimentar o mundo com a maior rede de crimes hediondos que a história já viu. Como todo psicopata, Joe vê beleza no sofrimento e na morte, além de achar que é superior a todos simplesmente por isso.

A trama segue muito bem nessa direção, principalmente porque acompanha seus seguidores mais jovens: a dedicadíssima Emma (Valorie Curry) e os amigos Jacob (Nico Tortorella) e Paul (Adan Canto). O roteiro mostra muita esperteza ao nos informar que Jacob e Paul passaram anos fingindo ser um casal gay vizinho de uma das vítimas, apenas para não levantarem nenhuma suspeita. Emma, por sua vez, era a babá de confiança da esposa de Joe. Os três representam o apogeu da discussão acerca da verossimilhança da série. Coisas desse tipo, pessoas seguindo assassinos e cumprindo suas ordens sem critério, essas coisas são possíveis?

Qualquer pesquisa no Google sobre os crimes do Helter Skelter, vai responder a pergunta. Em 1969, um grupo de hippies liderados por Charles Manson cometeu uma série de crimes bárbaros em Los Angeles, sob a justificativa de que Manson era o "filho do homem" (Man-son). Manson acreditava que a obra dos Beatles mandava mensagens cifradas para ele, que as usava como inspiração pro desfile de assassinatos. As vítimas eram atormentadas e depois esfaqueadas dezenas de vezes. O sangue delas era usado para escrever palavras e frases das letras dos Beatles nas paredes das residências. A esposa do diretor Roman Polanski, Sharon Tate, foi uma das vítimas mais célebres do grupo. Ela foi esfaqueada 16 vezes aos oito meses de gestação.

Os seguidores de Manson eram jovens em sua maioria e seguiam suas ordens como se não houvesse escolha. O clima na Los Angeles daquele ano era de medo constante. Como as vítimas eram escolhidas aleatoriamente, ninguém estava seguro. Eles invadiam as casas apenas para matar e faziam isso sem nenhum remorso, acreditando piamente na importância de Manson para a nova ordem do mundo. O "amor" foi correlacionado com a morte e com o sofrimento algumas centenas de vezes. Ele mesmo, o "filho do homem", não sujou as mãos nenhuma vez. Os crimes de Helter Skelter são, portanto, uma inspiração óbvia para o que surgiu em The Following. E para o que foi muito bem explorado nos primeiros episódios.

Do conceito à caça

A estrutura dramatúrgica de The Following, apesar de todas essas referências enriquecedoras, acabou refém da própria dinâmica. Enquanto o primeiro ato da temporada apresentou muito bem os personagens, em especial o trio Emma, Jacob e Paul, os outros dois atos caíram num ciclo de repetições que acabaram suprimindo os detalhes que ainda mantinham a qualidade da série.

Durante os primeiros episódios, as dúvidas quanto às identidades dos seguidores foram marcantes, mas logo começaram a ser a única forma de preparar os cliffhangers dos episódios. A busca pelo filho capturado de Joe ocupou espaço demais, se tornando uma constante quebra de expectativas. O público, por mais apegado que seja ao suspense, começa a se sentir enganado quando as reviravoltas apenas soam corajosas, enquanto não passam de estratégias para o adiamento de grandes eventos.

A nova fuga de Joe corresponde a um segundo ato, levando o roteiro a cair no mesmo erro, apenas substituindo a tensão da captura do pequeno Joey (Kyle Catlett) pela tensão da captura de sua mãe, Claire (Natalie Zea). Enquanto a série ia ganhando pontos com os poucos momentos textuais entre os seguidores, acabava perdendo-os ao insistir na caça complacente, que parecia que ia terminar e nunca terminava. Sempre as mesmas viradas, com seguidores atrasando ou atrapalhando investigações e sendo descobertos nos últimos minutos. Williamson e sua equipe não perceberam que a série crescia mesmo quando era mais conceito que caça.

Grandes momentos foram protagonizados por esse reforço intelectual, que trabalhava bem a referência. Os crimes com as máscaras de Poe e o massacre dentro do abrigo do FBI foram momentos altos da temporada, justamente porque eram parte do lado discursivo da série. O mesmo lado que construiu bem a interação inicial entre os personagens, que discutiam o prazer de matar como parte de um processo evolutivo da raça humana. Esse segundo ato foi interessante, porque Joe e seus seguidores tentavam fazer a história naquela casa do mesmo jeito que Charles Manson e os seus faziam no emblemático Rancho Spahn.

Mas então as viradas finais foram ficando menos verossímeis, com o roteiro exagerando a própria capacidade de ser literal, e o terceiro e último ato da temporada caiu num abismo de previsibilidade. Nem mesmo a chocante morte de um personagem importante daria jeito de tornar The Following surpreendente de novo. O episódio final apelou pro bom e velho "resgate do ser amado", colocando Ryan e Joe frente a frente e minimizou esse encontro com atenção demais à ação. Pareceu corajoso ao eliminar o vilão, mas demonstrou insegurança ao preparar uma cena final que repetiu o já desgastado cliffhanger do seguidor desmascarado. Uma segunda temporada acaba não soando preparada para novos estágios, mas apenas para a repetição de velhos truques.

Apesar disso, The Following tem muito a oferecer. A atração parte de uma ideia extremamente moderna e frutífera. Há uma série de ótimos caminhos possíveis e o curioso é que, para aproveitá-los, Kevin Williamson precisa, antes de tudo, abandonar seu senso mercadológico que exige fórmulas de sucesso e se jogar na ideologia. Se a ideologia perversa foi capaz de matar tantos inocentes, uma dramaturgia a respeito precisa ser fiel a ela. Até podem dar alguns tiros e perseguir alguns carros de vez em quando, porém, o lugar de The Following é no texto. O lugar de Kevin Williamson também. Sempre foi e ele apenas parece ter esquecido disso.

Nota do Crítico
Bom