Séries e TV

Crítica

Feud - 1ª Temporada | Crítica

Série de TV encerra sua temporada como mais uma brilhante crítica às relações entre mídia e sociedade

Henrique Haddefinir
25.04.2017
12h24
Atualizada em
25.04.2017
13h01
Atualizada em 25.04.2017 às 13h01

Conhecido por sua carreira de grandes sucessos (e muita ambiguidade na recepção deles), Ryan Murphy está em uma espécie de "rehab dramatúrgica". Enquanto seus títulos originais são conhecidos por ousarem demais na forma e conteúdo, cheios de metáforas e alegorias que nem sempre são fáceis de entender, suas séries de TV baseadas em histórias reais servem como uma verdadeira discussão a respeito desse "afastamento criativo". Precisando respeitar o conteúdo histórico das tramas, a expressão artística de American Crime Story e agora de Feud se desenha em roteiro e direção de uma forma bastante eficiente.

Feud em português significa rixa e esse é um título quase auto-explicativo. A série contará em cada uma de suas temporadas a história de uma rivalidade entre celebridades. Para o primeiro ano Murphy escolheu abordar as vidas de Bette Davis (Susan Sarandon) e Joan Crawford (Jessica Lange) durante o período em que elas dividiram a cena no clássico What Ever Happened To Baby Jane. O filme se tornou uma espécie de apogeu de uma competição entre elas e a partir desse momento, as vidas das duas seguiram numa impressionante trajetória de luta para continuarem existindo na indústria.

What Ever Happened To Baby Jane hoje em dia é tratado como um referencial de cinema, mas na época foi lançado como Filme B, sem muito reconhecimento crítico, algo recorrente em produções de horror. Bob Aldrich (Alfred Molina) teve a incumbência de unir as duas estrelas, que embora tivessem prêmios da academia no currículo, eram tratadas como decadentes por serem maduras e não estarem mais à frente de títulos comerciais, reservados a atrizes mais jovens. Podemos dizer que o longa só antecipava péssimas previsões. 

What Ever Happened To... Bette and Joan?

Embora boa parte do material promocional de Feud tivesse foco nos bastidores de Baby Jane, a série consegue cobrir uma parte considerável da vida das atrizes após o lançamento do longa. Mesmo em apenas oito episódios, o olhar panorâmico da primeira temporada revela uma obra muito segura e coerente nos recortes que fez de cada uma das protagonistas. Os roteiros são concisos, não se espalham demais por setores que desfocariam a atenção do espectador e a direção dos episódios é correta em tudo: ambientação, direção de arte, fotografia, etc., e excelente naquilo que todos mais esperavam: as interpretações de Sarandon e Lange.

Uma olhada superficial faz parecer que tudo era uma simples questão de vaidade. A perspectiva da mídia, sobretudo, perpetuou a ideia de que Joan e Bette eram pilares de egocentrismo que só se preocupavam em superar uma a outra. De fato, boa parte da abordagem de Feud é a partir do quanto a mídia fora responsável por piorar a rivalidade. A Hollywood dos anos 50 e 60 era uma espécie de indústria da juventude e da beleza, que enaltecia suas divas até o ponto em que não as considerava velhas demais para manter a fantasia de eternidade que a cultura pop sempre incutiu na engrenagem social.

Joan e Bette se odiavam justamente porque refletiam as inseguranças uma da outra. Joan tinha uma excessiva preocupação com sua aparência e Bette uma excessiva preocupação com seu talento. Obviamente, o que cada uma tinha de melhor era o que faltava na outra. Cientes disso, estúdios, diretores, jornalistas, alimentavam as demonstrações de desafeto para lucrarem com isso descaradamente. Assim, a equipe de roteiristas conduz a trama de uma forma que primeiro estabelece a agressividade para só depois disso começar a investigar possíveis raízes para ela. Como quase todos os trabalhos de Murphy, há uma profunda compreensão das ambiguidades entre o quanto a cultura pop inspira e ao mesmo tempo, pode aniquilar com suas influências.

Jessica Lange e Susan Sarandon estão brilhantes e irrepreensíveis. Enquanto Susan veste uma Bette invulnerável e altiva, Jessica chega a comover com a forma como constrói uma Joan cheia de fragilidades. Todos os episódios focam em um momento crucial dessa rivalidade, indo das pequenas sabotagens durante as filmagens de Baby Jane até a passividade agressiva da noite do Oscar de 1963. O texto impecável descreve o quanto a fortuna feita com o filme não adiantou para “ressuscitar” as carreiras de suas estrelas, que são exploradas pela própria rivalidade, até caírem no esquecimento, antecipando um Season Finale extremamente triste, mas tomado de uma beleza indiscutível.

Mais do que uma história de rivalidade, Feud é uma série sobre profunda admiração. Há sim uma melancolia inevitável nos últimos momentos da temporada, mas é uma melancolia reverenciada. Bette e Joan eram grandes demais uma para a outra, mas se amavam nem que fosse pela perspectiva mais louca. O último quadro do show reforça isso de maneira belíssima, fazendo de Feud uma das melhores estreias desse ano e um retrato crítico e ao mesmo tempo doce dessas perversas inimigas.

Nota do Crítico
Excelente!