Katja Herbers e Mike Colter em Evil

Créditos da imagem: Evil/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Evil - 1ª Temporada

Criadores de The Good Wife emplacam série sobre a busca pela natureza do mal

Henrique Haddefinir
09.02.2020
11h27
Atualizada em
09.02.2020
17h25
Atualizada em 09.02.2020 às 17h25

Já perto do fim, a temporada de Evil resume sua essência em uma cena emblemática. Ao ouvir da neta que ela vem sofrendo bullying na escola, a avó dá o conselho derradeiro: se você for violento com quem te oprime, a opressão acaba. A menina leva o ensinamento para a escola, aplica e vê o resultado acontecer. Confrontada pela mãe, ela entrega a avó, que nega veementemente. Depois, volta até a menina e dá a outra pitada de sabedoria: o mundo detesta quem é dedo-duro. Pronto, a catequização maligna foi instaurada na psique da criança e dali ela dificilmente será removida.

Embora Evil trate do mal em escalas muito grandes, o programa não se esquece que esses conceitos começam e se arrastam pela humanidade a partir de coisas pequenas. É como com a corrupção. As pessoas acham que fraudar uma carteirinha de estudante para pagar meia não é nada comparado a roubar os cofres públicos. Contudo, a consistência cultural que isso provoca ao longo do tempo é mais difícil de ser vencida que uma epidemia biológica. O mal minimalista é tão nocivo quanto aquele que envolve nações e é justamente quando entra nessa discussão que a série revela seu verdadeiro potencial.

Criada por Robert e Michelle King, o casal responsável por The Good Wife e pelo derivado The Good Fight, Evil também reúne algumas contradições que trabalham a seu favor. Sua premissa lembra Arquivo X como nenhuma outra tinha lembrado antes: um seminarista chamado David Acosta (Mike Colter) trabalha usando sua fé e sua sensibilidade para investigar casos sobrenaturais. Mas, ele precisa contratar uma psicóloga forense para oferecer um contraponto. O nome dessa psicóloga é Kristen Bouchard (Katja Herbers). Tudo isso pode soar assustadoramente parecido com o universo de Mulder e Scully, mas, curiosamente, os criadores surpreendem mesmo deitados nessa base tão corriqueira.

Qualquer sinopse sobre a série, descrita assim, a faz parecer um procedural sem grandes virtudes. Porém, o trabalho dos Kings à frente de um texto nunca é convencional. A prova disso foi a tentativa de falar sobre políticos possuídos por alienígenas, na bizarra BrainDead, que acabou não dando certo. Mesmo em The Good Wife - em que a história era sobre ser simplesmente uma esposa traída que voltava a ser advogada - o texto nunca perdia sua perspectiva provocativa e o que parecia banal no invólucro, escondia uma substância narrativa e conceitual que era realmente invejável. Isso se repete em Evil.

Todas as qualidades da série se escondem em detalhes. A vida de Kristen, por exemplo, é dominada por uma intensa energia feminina, já que ela tem quatro filhas pequenas e um marido quase totalmente ausente. O seriado trabalha com a modernidade inserida em uma direção de arte vintage, o que faz parecer o tempo todo que Kristen está num filme de terror situado no universo de Invocação do Mal, onde tudo é antigo e as mulheres (e meninas) são sempre o primeiro alvo de forças demoníacas. O texto e a direção brincam com isso, assustam com demônios gráficos, presenças virtuais arrepiantes, mas tudo isso sem nunca perder de vista que o mal pode ser só um ponto de vista.

É claro que a partir do ponto em que pessoas começam a ser afetadas, essa problematização filosófica do termo vai se enfraquecendo. O mal pode ser palpável e cruel como na sua definição mais clichê e alguém que saiba disso pode acabar instaurando algum tipo de caos, que é o que os protagonistas querem evitar. É isso que acaba estremecendo o alcance de Evil. Através da figura de Leland (Michael Emerson), a série insinua que possa haver uma rede de aspectos malignos que esteja se ampliando de maneira consciente. Ou seja, Leland como um vetor primordial de uma espécie de unificação dos efeitos do mal, o que, em primeira instância, parece abalar a maturidade da dramaturgia da série. Parecia ser mais certo quando o mal era imperceptível para quem o praticava do que quando ele aparece como a motivação vilanesca sem bases objetivas. Leland é a pedra do sapato da série, que não consegue explicar porque ele está ali.

Seja no episódio em que as filhas de Kristen ouvem histórias de terror ou outro em que David se encontra à mercê de uma enfermeira horripilante, os roteiros apavora com a ideia de que o mal pode ser adquirido, repassado, escolhido ou até mesmo nato. Mesmo que esses roteiros não tomem partido sobre como combatê-lo (seja científica ou religiosamente), é como se a série estivesse avisando que o cessar da existência conhecida pode ter muito mais a ver com o conselho malvado da avó do que com o botão da guerra nuclear.

O final da temporada estabelece ganchos, mas erra um pouco a mão ao perder sua postura minimalista. Ao mesmo tempo, para não ficar presa em um loop de casos da semana, a série fermenta sua mitologia e trama central. A segunda temporada tem uma missão grandiosa, já que a forma como a história se move está pautada em elementos fantásticos, que podem desviar qualquer roteiro do bom caminho. Robert e Michelle King precisam ser cautelosos. Assim como o mal está rondando almas a cada esquina, ele também está naqueles que adornam tudo: os detalhes.

A temporada de Evil já está toda disponível na Globoplay.

Nota do Crítico
Ótimo