Imagem de Eu, a Vó e a Boi

Créditos da imagem: Eu, a Vó e a Boi/Globoplay/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Eu, a Vó e a Boi

Série de Miguel Falabella criada a partir de tweets esquece a simplicidade da história original e peca pelo excesso de devaneios

Henrique Haddefinir
02.12.2019
12h25

A cabeça de Miguel Falabella traça planos artísticos ousados, sempre apoiados no que o ser humano tem de mais real, mesmo que ele sempre esteja interessado em fantasiar em cima dessas diretrizes. A vida dos personagens de Falabella não é fácil, mas eles encontram poesia e sonho em algum lugar. São lindos exatamente por isso. Seus trabalhos no teatro também tinham um pouco disso, mas está na sua carreira como roteirista de TV o grande ponto de comparação: Sai de Baixo, Toma Lá Dá Cá, Pé Na Cova... Essencialmente, famílias e relações de afeto pautadas em pobreza, mas capazes de sublinhar otimismos saídos de profundezas inesperadas, tais quais a do buraco que ilustra o cenário de Eu, A Avó e a Boi.

Isso tem que ser levado em consideração na hora de avaliar essa nova série, que peca por desviar-se demais da verossimilhança, mesmo que, ironicamente, seja uma produção saída de uma história real. Eduardo Hanzo, resolveu contar no Twitter a história de grande rivalidade entre a vó dele e uma vizinha, que ela chamava de Boi. A série de tweets viralizou, chegou até Glória Perez, que resolveu chamar Miguel Falabella para adaptá-la para a televisão. O Omelete conversou com Hanzo, que falou animadamente sobre como foi inusitado ter essa história se transformando, de repente, numa série original da Globoplay.

Nos tweets, a avó de Eduardo tinha uma rivalidade com a vizinha. Na série, o jovem Roblou (Daniel Rangel) vê essa disputa acontecer entre suas duas avós, Yolanda (Vera Holtz) e Turandot (Arlete Salles). As duas moram uma de frente para a outra e seus filhos Montgomery (Marlo Luque) e Norma (Danielle Winits) se apaixonam e têm filhos. Montgomery, contudo, fugiu da responsabilidade, enquanto Norma entregou-se a uma constante entorpecência. A história desse núcleo central não tem exatamente um ponto de partida. O roteiro começa estabelecendo que a briga entre as duas mulheres sempre existiu e que o ódio era outro parente morando naquelas casas frias e apertadas.

Duelos

Como em todos os outros trabalhos televisivos de Falabella, a lista de coadjuvantes bizarros é longa e essa é a primeira demonstração de recorrências no produto final. Nomes comuns quase ninguém por ali tem. Todos comem na pizzaria do Cabello (Edgar Bustamante), a policial da região é Seu Rocha (Alessandra Maestrini), uma lésbica masculinizada, típica do universo do autor; e todas as famílias se inspiraram em astros do cinema para nomearam os seus. Além de Roblou, seu irmão Matdilou (Matheus Braga), a jovem bailarina Demimur (Valentina Bulc) e as idosas assanhadas Belize (Eliana Rocha) e Mary Tyler (Stella Miranda), cuja filha se chama Rondha (Josie Antello); compõem o quadro.

A série tem seis episódios para desenvolver sua história, mas a boa ideia de falar da rivalidade entre as vizinhas não encontra escopo para funcionar por si mesma e Falabella corre para dar conta desse tempo de tela, dando aos personagens suas próprias histórias. Os problemas, então, começam a se acumular. Roblou começa anunciando-se virgem e cinco minutos depois Demimur está com ele na cama. Um episódio depois já está grávida. Paternidades são anunciadas e desmentidas aos montes, muito rapidamente, sem dar ao público tempo suficiente para se importar com isso. Conhecemos Seu Rocha numa cena e na outra o roteiro já quer que nos emocionemos com seu sonho – já realizado – de cantar numa ópera.

O formato de temporada completa de uma vez só ajuda a aumentar essa sensação de que as emoções estão sendo exigidas e não construídas, sobretudo quando notamos que a ótima e clássica trilha sonora se impõe entre o dramático e o melancólico a cada cinco minutos de episódio. A narrativa precisa que tudo aconteça rápido porque os planos para o final da temporada são ainda mais ambiciosos, apocalípticos, numa receita eficientíssima para acabar com qualquer chance de envolvimento com os personagens. É curioso, porque ao mesmo tempo em que é um mestre do minimalismo suburbano, Falabella pode acabar despistando essa capacidade com rompantes de eloquência cômica que tanto podem comover com um musical emocionado ou distanciar com um terremoto sem sentido.

Essa é outra incoerência da dramaturgia, que quebra a quarta parede através de Roblou, transformando-o em narrador direto, provocando um efeito de crônica que tem muito a ver com histórias sobre a vida e o indivíduo comum. Porém, quanto mais a história avança, menos verossímil ela parece e a cada entrada da voz em off do protagonista, mais ela se descontextualiza dessa proposta inicial. Não há nada discreto ou comum na série. Ela não conta a história, ela berra. Os nomes, os figurinos, as atuações... Holtz e Salles seguram bem as duas inimigas, Daniel Rangel tem carisma e Daniele Winits está numa personagem confortável, que ela humaniza muito bem. No entanto, a escalação de Marco Luque é um mistério sem solução, Magno Bandarz não tem construção e Matheus Braga está tão cru que o núcleo dos dois afunda sem salvação.

Para o Buraco

Há muito potencial translúcido em Eu, a Vó e a Boi. Um exemplo disso é a forma como o texto parece, em alguns momentos, querer discutir o ódio como catalisador de tudo que está acontecendo em volta dos personagens e à nossa volta também. O problema é que a produção encosta em muita coisa, mas não passa da superfície em todas elas. Ela insinua uma linguagem de videogame, mas isso fica pelo caminho já no primeiro episódio. Ela está centrada no subúrbio, mas a rua onde se passa a história parece deserta na maioria do tempo. Ela vai no folhetim, desvia para a comédia pastelão, ensaia a poesia do drama, mas tudo fica pontuado isoladamente, sem a devida construção. Quando as duas mulheres, lá pelo final, chegam ao extremo do assassinato, o texto faz a ruptura definitiva com a proposta de Eduardo Hanzo, que tinha a beleza do rumor, da especulação, da dúvida e da ligeira inocência.

Enfim, o buraco no meio da rua que serve como metáfora para vários “buracos” onde as pessoas se jogam todo dia vira o centro da filosofia escondida na série. Falabella vai contra sua própria correnteza ao desistir do otimismo com o qual encerra suas obras, mas erra o tom do “voo narrativo” e exige demais da relação entre analogia e espectador. O impacto pretendido pelo episódio final não é alcançado justamente porque não existe clímax sem construção de tensões. Talvez uma narrativa o mais minimalista possível preservasse a sensibilidade do enredo. Do jeito que foi, quase totalmente alegórico, não havia outra saída possível que não a da indiferença.

Eu, a Vó e a Boi, disponível na Globoplay, poderia ser uma ótima crônica da vida cotidiana, mas acabou soando um exercício de improviso narrativo, daqueles que não sabem para onde ir e acabam saindo de controle. Os tweets, enfim, divertem mais, provocam mais, comunicam mais.

Nota do Crítico
Regular