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Créditos da imagem: Elite/Netflix/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Elite - 2ª temporada

Segundo ano repete todos os códigos narrativos de sua primeira temporada, mas ainda consegue entreter

Henrique Haddefinir
09.09.2019
23h02
Atualizada em
10.09.2019
12h15
Atualizada em 10.09.2019 às 12h15

O sucesso de La Casa de Papel foi uma surpresa para o mundo, mas não para quem acompanha séries de perto. A televisão espanhola estava sendo esperta, reproduzindo métodos narrativos e artísticos típicos do modelo estadunidense, causando no espectador uma sensação confortável de familiaridade. Enquanto La Casa de Papel era uma série de ação no melhor estilo 24 Horas, Elite corria por fora como uma espécie de Segundas Intenções episódica, atraindo espectadores que quisessem assistir cenas chocantes, intrigas e sexo; e ainda acompanhar as carreiras de alguns dos atores que estiveram na série dos roubos. O melhor é que mesmo não disfarçando suas referências (Vis a Vis, inclusive, começa exatamente como Orange is the New Black), a televisão espanhola não tem poupado investimentos e os resultados são surpreendentes e dignos.

Elite é uma série sobre adolescentes. Todos eles tem 16 anos e estão no ensino médio, mas a cada temporada os atores parecem menos adolescentes e as tramas mais provocativas. Eles estão lá, com seus uniformes que lembram Rebelde e Glee. Mas, as histórias que são contadas nos corredores da abastada escola onde estudam são tomadas de intensidade e extremo. Ainda que feita por jovens, Elite não luta contra a correnteza e abraça a exploração da miséria humana presente em quase todos os títulos seriados mais bem sucedidos do mercado. Ninguém é feliz por ali. De fato, não há quase nenhum desdobramento otimista de nenhum enredo e mesmo que seja positivo não ter personagens maniqueístas, o desfile de autodestruição atrapalha um pouco nosso envolvimento com eles. É difícil torcer por alguém.

Séries como The O.C. e até o recente remake de Dinastia já mostraram como a vida dos ricos pode ser maldita. Mas, a dos jovens de Elite é tomada de tragédia. Após um primeiro ano que acompanhava o mistério da morte de Marina (María Pedraza), a série voltou para a segunda temporada com a missão de explorar os desdobramentos dessa revelação. Os personagens acham que Nano (Jaime Lorente) tem algo a ver com o crime, mas nós sabemos que Polo (Álvaro Rico) e Carla (Ester Expósito) têm muito mais a esconder. Logo Samuel (Itzan Escamilla) começa sua própria investigação e o desaparecimento de um dos estudantes toma o lugar do quebra-cabeças que precisa ser montado.

Tropa da Elite

O seriado cumpre todos os itens de uma série adolescente clássica (mesmo que não seja uma) e ter novos personagens a cada temporada é uma espécie de lei. Rebeca (Claudia Salas) e Valerio (Jorge Lopes) preenchem as cotas de loucura presentes em quase todo o elenco original. Até que a presença deles seja efetivada em próximos anos, eles só servem como bases de apoio para os outros. Rebeka interfere positivamente na vida de Samuel e Nadia (Mina El Hammani) e Valerio tem junto com Lucrecia (Dana Paola) uma das trajetórias mais controversas. Os dois novatos são descolados, ousados, boêmios e solares, o que é um ganho considerando a constante obscuridade em que vivem todos os outros. Há, também, a chegada de Cayetana (Georgina Amorós), uma personagem interessante, que esconde ser filha da faxineira da escola e usa os bens dos patrões para manter a farsa.

A fórmula estabelecida pela primeira temporada mantém o ritmo acelerado da narrativa, que está novamente cheia de escândalos, mentiras e troca-troca de parceiros. Elite não tem uma premissa original, mas ela é muito competente na forma como percorre os episódios, sempre bem dirigidos, com atores corretos, motivações concretas para as decisões que são tomadas e com uma ótima trilha de sonora, recorrendo às irresistíveis “montagens de final de episódio”, que mostram todos os personagens em meio ao intenso pesar que os persegue, ao som de uma canção pop cheia de viradas dramáticas. O penúltimo episódio da temporada, por exemplo, tem um dos melhores encerramentos, tomado de tensões e viradas, todas envoltas num tratamento estético e musical que ao mesmo tempo honra e desafia o gênero.

O melhor dessa segunda temporada está, sem dúvida nenhuma, na trajetória de Omar (Omar Ayuso), que se move cada vez mais contra o tradicionalismo do pai muçulmano e que também enfrenta as hesitações do namorado Ander (Arón Piper). Quando uma festa de Halloween invoca entre eles uma discussão sobre heteronormatividade, a série alcança um tópico que vai fora da curva, que enriquece com novas possibilidades a história entre eles; e que também não é exatamente única na TV. Elite não se preocupa muito em se engajar nos problemas comuns de um Ensino Médio e não disfarça sua amoralidade ao manter o álcool e as drogas como presença marcante em quase todos os acontecimentos. É uma questão de percepção, mais que de educação.

As ausências de Nano e Christian (Miguel Herrán), ocupados filmando La Casa de Papel, poderiam ter afetado a segunda temporada, mas elas não são sentidas. Em parte porque as atuações de ambos são cristalizadas em gritos, violência, cigarros, impulsividade, como se nos dois títulos eles fossem um só. Os núcleos em que estavam cresceram sem eles, sobretudo porque os roteiristas não tinham a constante obrigação de fazê-los brilhar. Um dos maiores pontos positivos da série está em seu ótimo senso coletivo, com a trama central afetando todos os personagens igualmente e dando a cada um deles a mesma oportunidade de aparecer. Somente assim o gancho do último episódio seria possível.

Elite já está renovada para a terceira temporada. É bastante provável que como com todas as séries adolescentes do mercado ela traia a si mesma com apelos desesperados pela atenção do público. Mas, assim como também acontece com as séries do gênero, ela pode resistir por mais muitos e muitos anos.

Nota do Crítico
Bom