Dr. Brain é visualmente deslumbrante e não tem medo do absurdo

Créditos da imagem: Lee Sun-kyun em cena de Dr. Brain (Reprodução)

Séries e TV

Crítica

Dr. Brain é visualmente deslumbrante e não tem medo do absurdo

Apesar de roteiro inconsistente, k-drama da Apple conquista por estética e emoção à flor da pele

Caio Coletti
14.12.2021, às 15H15

Conhecido por alguns dos filmes de terror mais populares das últimas décadas na Coreia do Sul, como Medo (2003) e Eu Vi o Diabo (2010), o diretor e roteirista Kim Jee-woon é dono de uma visão muito vívida de como contar uma história de gênero. Dr. Brain, a primeira série de TV do cineasta, se aproxima muito mais da ficção científica do que do horror, mas nem por isso abandona as cores ousadas e as muitas reviravoltas que marcaram o seu estilo na tela grande.

De fato, Dr. Brain, distribuída no Brasil pela Apple TV+, é um refresco para os olhos de quem passou os últimos anos indignado com a insistência de Hollywood em criar mundos compostos quase inteiramente de tons de cinza e marrom em nome de um “realismo” equivocado na própria concepção. Banhados em iluminação multicolorida, suplementada por uma direção de arte criativa, os ambientes nos quais Dr. Brain desenvolve sua trama contrastam com a necessidade que a indústria ocidental parece ter desenvolvido de realçar a “seriedade” de suas histórias com um visual literalmente obscuro.

A trama da série, inspirada em HQs de mesmo nome (disponíveis em inglês aqui), acompanha o neurocientista Dr. Koh Sewon (Lee Sun-kyun, de Parasita), que desenvolve um método através do qual consegue “sincronizar” o seu cérebro com o de pessoas mortas ou em coma, absorvendo assim suas memórias e até habilidades. O aperfeiçoamento dessa tecnologia coincide com o ressurgimento de mistérios do passado do Dr. Koh, incluindo o desaparecimento de seu filho e a tentativa de suicídio de sua esposa (Lee Yoo-young, em excelente performance que se torna o centro emocional da série).

Ao lado dos corroteiristas Kim Jin-a e Koh Young-jae, o criador Kim Jee-woon conta a história de um homem que aprendeu a sentir tarde demais, e aproveita para examinar a própria natureza das nossas relações interpessoais. Quando elas deixam de ser utilitárias, e se tornam laços movidos à emoção? Quando o cuidado, a necessidade de proteção que sentimos em relação a quem amamos, se transforma no impulso tóxico de subjugá-las à nossa vontade? E o que acontece quando esse afeto é sublimado, reprimido, quando não sabemos lidar com a vulnerabilidade natural dele?

Dr. Brain está profundamente conectada a essas questões, e por isso é fácil acompanhá-la através das reviravoltas sucessivamente mais absurdas que ocorrem durante os seis episódios da temporada. Esta é uma série que não tem medo do ridículo, agarrando a chance de voar alto com sua premissa, levando às últimas consequências as implicações fantasiosas da tecnologia desenvolvida pelo protagonista - Dr. Brain não está acima de mostrar uma “sincronização” do cérebro do Dr. Koh com um animal doméstico, por exemplo, e nem de dar a ele habilidades super-humanas depois disso.

É verdade que a série, em meio a esse abraço do absurdo e do esteticamente prazeroso, por vezes perde o fio da meada da trama. Pulos de lógica, contradições práticas e soluções fáceis não faltam em Dr. Brain, especialmente em seus capítulos finais, mas até os mais obcecados por plot provavelmente acharão fácil perdoá-la por esses “detalhes” quando, em todos os outros sentidos, ela é uma confecção tão fascinante.

Dr. Brain
Em andamento (2021- )
Dr. Brain
Em andamento (2021- )

Criado por: Kim Jee-woon

Duração: 1 temporada

Nota do Crítico
Ótimo

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