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Séries e TV
Crítica

Ótima, Dom de Iludir abre espaço para Netflix investir mais no melodrama

Com Marieta Severo, Alice Wegmann e Nanda Costta, série nos lembra por que gostamos tanto de novelas

Omelete
5 min de leitura
28.10.2026, às 09H00.
Dom de Iludir (Reprodução)

Créditos da imagem: Dom de Iludir (Reprodução)

É essencial começar este texto lembrando de quando a Netflix decidiu investir em sua primeira novela brasileira: Pedaço de Mim, lançada em 2024. Consolidado pela TV aberta, o formato encontrou no streaming novas possibilidades diante das mudanças na relação com o tempo e o consumo. Ao perceber que ainda havia espaço para explorar esse gênero no catálogo, a plataforma voltou os olhos para uma espinha-dorsal da teledramaturgia brasileira: o melodrama - que o Brasil conhece bem e sabe fazer. E histórias desse tipo já demonstraram seu potencial para conquistar o público internacional – impossível não citar Avenida Brasil, a novela brasileira mais vendida no exterior.

Mas como adaptar essa tradição a um modelo de consumo diferente? Enquanto as novelas da TV aberta costumam se estender por centenas de capítulos, as produções do streaming precisam contar suas histórias em menos tempo, sem perder a intensidade dos conflitos e o envolvimento emocional que conquistam o público.

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É nesse contexto que a Netflix prefere chamar suas produções de “melodramas brasileiros”, uma denominação que, para além da estratégia de inovação, ajuda a entender como elementos tradicionais das novelas são reorganizados em narrativas mais curtas. Isso sem necessariamente abandonar os conflitos familiares, as grandes revelações e a intensidade emocional que caracterizam o gênero.

Estrelada por Juliana Paes e Vladimir Brichta, Pedaço de Mim já conquistou público no Brasil e no exterior com a história inédita de uma mãe que descobre ter filhos de pais diferentes. Sucesso que abriu espaço para o próximo grande projeto da plataforma, Dom de Iludir, em parceria com a Conspiração Filmes. A superprodução brasileira é liderada por nomes consolidados da teledramaturgia: Marieta Severo, Alice Wegmann e Nanda Costta, que formam um trio bem sintonizado e que exala química. Outro destaque é o diretor-geral Mauro Mendonça Filho, veterano conhecido por trabalhos como a inesquecível Verdades Secretas - vencedora do Emmy Internacional - e O Outro Lado do Paraíso.

A denominação de melodrama cabe perfeitamente à produção e ajuda a traçar suas semelhanças e diferenças em relação às novelas tradicionais. Com uma trama de fácil assimilação, que flerta com o suspense e com o universo do true crime, a série aborda conflitos familiares na elite carioca. O suspense é tratado de forma direta, sem precisar de grandes artifícios para criar tensão: o próprio conflito, por sua verossimilhança, já carrega o perigo.

Acompanhamos Lúcia Rossetti (Marieta Severo), colecionadora de obras de arte e mãe dedicada, desesperada diante da doença incurável da filha, Maíra (Alice Wegmann). É nesse momento de fragilidade que ela conhece Irina (Nanda Costta), uma mulher que se aproveita da vulnerabilidade alheia por meio da manipulação espiritual. Quando Lúcia se torna vítima de um golpe, o conflito ultrapassa a dimensão financeira e expõe duas famílias atravessadas por um castelo de vidro, com relações marcadas por amor, controle, ressentimento e culpa.

Assim, o plot golpista é apenas o ponto de partida para uma história focada nas relações familiares. As atitudes das personagens despertam indignação e repulsa no início, mas, conforme a trama avança, suas complexidades aparecem. Maíra oscila entre o desejo de autonomia, a culpa e a empatia, enquanto Lúcia mistura cuidado genuíno e controle obsessivo. Essa ambiguidade afasta o laço entre as duas de uma simples disputa entre certo e errado, construindo o grande trunfo psicológico da obra.

Longe de uma divisão maniqueísta entre bem e mal, essa engrenagem humana se completa com Irina. Ela não opera por pura vilania, mas por sobrevivência, usando a performance do afeto para desafiar estruturas de poder. Com isso, nenhuma dessas três mulheres se resume ao papel de vítima ou algoz.

Não por acaso, o título e a trilha na voz potente de Liniker ditam o conceito da história. A ilusão também se manifesta na forma como cada uma interpreta seus próprios laços. É nesse terreno de sentimentos contraditórios que o melodrama ganha força, mostrando que nem sempre é preciso inventar uma mentira para enganar alguém: às vezes, basta oferecer aquilo em que o outro mais deseja acreditar.

Essa dinâmica ganha profundidade ao expor como ciclos de manipulação são transmitidos entre gerações. O conflito ganharia ainda mais força se a trama revelasse um elo oculto ou um acerto de contas do passado para mover as engrenagens dessa aproximação. Ainda assim, o choque entre realidades distintas evidencia as amarras que atravessam essas relações, provando que, para essas mulheres, o disfarce muitas vezes se torna a única defesa possível.

Quanto à estrutura clássica do melodrama, Dom de Iludir reúne todos os ingredientes irresistíveis: dilemas morais, segredos, romance, planos maquiavélicos e conflitos emocionais capazes de fazer o público tomar partido inicialmente, para depois, rever seus julgamentos. Com 10 episódios, a série mantém um ritmo ágil, que favorece o envolvimento com a trama e estimula a maratona. Ao concentrar a narrativa nos protagonistas e evitar desvios desnecessários, a produção consegue manter o interesse de um episódio para outro, sem perder de vista os conflitos centrais.

Essa agilidade também faz com que algumas situações avancem rapidamente, deixando espaço para que certos conflitos e suas consequências emocionais pudessem ser explorados um pouco mais. A trilha sonora, por sua vez, poderia acompanhar melhor a intensidade de algumas cenas, contribuindo para ampliar a catarse. São aspectos pontuais em uma narrativa que, no conjunto, consegue sustentar o interesse e dar espaço às relações que movem a história.

A principal revelação acontece surpreendentemente cedo, fazendo com que o restante dos capítulos passe a depender menos do mistério e mais dos desdobramentos da trama. Essa escolha não compromete o interesse pela história, que encontra nas ações das personagens e nos conflitos familiares seu principal motor. Ainda assim, alguns momentos poderiam se beneficiar de um desenvolvimento mais cadenciado, sem que isso exigisse uma temporada muito maior.

No fim, Dom de Iludir dá conta do recado como melodrama e cumpre sua função de entreter e emocionar, mostrando por que o Brasil é referência nesse formato. É mais uma ótima adição ao catálogo da Netflix, com uma história capaz de envolver o grande público por meio de conflitos familiares e sentimentos universais. Ao demonstrar que essa combinação de elementos tradicionais do melodrama com uma narrativa mais concentrada funciona, a série fortalece a aposta da plataforma no gênero. Acima de tudo, mostra que a novela e o melodrama não vão desaparecer diante das transformações do audiovisual. Eles podem encontrar novos caminhos - e o streaming já é um deles.

Nota do Crítico

Dom de Iludir

Criado por: Diane Maia, Mirna Nogueira
Onde assistir:

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