Doctor Who – 12ª temporada

Créditos da imagem: BBC/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Doctor Who – 12ª temporada

Arriscado e sem pudores, segundo ano de Jodie Whittaker triunfa ao resgatar elementos clássicos para renovar a história da série

Nicolaos Garófalo
03.03.2020
18h54
Atualizada em
04.03.2020
09h03
Atualizada em 04.03.2020 às 09h03

Uma das séries de ficção-científica mais importantes da história da televisão, Doctor Who tem uma história conturbada quando se trata da troca de showrunners. No início do revival, em 2005, por exemplo, Russel T. Davies e sua equipe entraram em conflito com o protagonista, Christopher Eccleston, que deixou a série após apenas uma temporada. Anos depois, Steven Moffat assumiu o cargo, mas demorou mais de um ano para estabelecer a relação do Doutor de Matt Smith com seus companheiros Amy (Karen Gillan) e Rory (Arthur Darvill) em 2011.

Novo showrunner, Chris Chibnall não foi exceção à regra. Em seu primeiro ano, em 2018, o produtor e roteirista ignorou grande parte do passado de Doctor Who para estabelecer um universo totalmente novo para Jodie Whittaker, 13ª Doutora e primeira mulher nos 55 anos da série a assumir o papel principal. Por mais colorida e divertida que tenha sido, a 11ª temporada encontrou obstáculos em companions sem identidade e uma Doutora cuja caracterização parecia apenas uma versão genérica – apesar de mais sorridente - do que já fora interpretado por Smith. Felizmente, Chibnall, Whittaker e BBC não são imunes às críticas e retornaram para uma nova temporada mais intrigante e cheia de referências ao universo Whovian.

[Spoilers da 12ª temporada de Doctor Who à frente]

Começando pela atuação de Whittaker e sua caracterização da Doutora, sua versão otimista e cheia de brilho apresentada na temporada anterior segue intacta, embora a atriz consiga navegar sem dificuldades entre a comédia e o drama quando necessário. O retorno de inimigos antigos, como o Mestre (Sacha Dhawan, de Punho de Ferro) e os Cybermen, criam tensões muito mais imediatas do que as apresentadas no 11º ano, deixando a protagonista paranoica e tornando-a superprotetora de suas companions, Yas (Mandip Gil), Ryan (Tosin Cole) e Graham (Bradley Walsh).

Essa preocupação deu mais personalidade à Doutora de Whittaker e permitiu que ela criasse sua própria versão do Senhor do Tempo, mais tridimensional e menos apoiada na performance de Smith como 11º Doutor. Isso se refletiu também no desenvolvimento de sua “família”. Enquanto Yas era deixada de lado na temporada passada, a policial ganha mais espaço e mostra evolução considerável ao longo dos dez episódios exibidos desde o começo de 2020. Ryan deixou de ser o rapaz pessimista apresentado em “The Woman Who Fell to Earth” e já se mostrou um aventureiro nato em “Spyfall”, abertura brilhante da 12ª temporada. Graham continua transbordando carisma, mas ganha mais personalidade ao questionar os segredos da Doutora quando ela se recusa a falar do passado.

Quem brilha na temporada, porém, é o Mestre de Dhawan. Mesmo presente em apenas quatro episódios, o ator traz uma personalidade extravagante digna do personagem, unindo a aura ameaçadora de Roger Delgado, a loucura de John Simm e a imprevisibilidade de Michelle Gomez. O retorno da arma clássica do vilão, o eliminador por compressão de tecidos (TCE, em inglês), também é bem-vindo e foi a cereja do bolo do Mestre de Dhawan, que usou o aparelho de miniaturização sem piedade, para o deleite de fãs das temporadas originais.

O TCE não é o único elemento da série clássica a dar as caras pela primeira vez no século XXI. Momentos como a conexão mental da Doutora com o Mestre, que se comunicam pela primeira vez por telepatia em décadas, e o novo design dos Cybermen, que une elementos dos ciborgues enfrentados pelo 4º Doutor (Tom Baker) nos anos 1970 com os mais modernos, vistos pela última vez em 2017, enfrentando o Senhor do Tempo vivido por Peter Capaldi, são fan-services muito bem feitos e bem-incorporados às suas respectivas tramas. Outras referências menores em diálogos soltos, como a luta entre Doutor e Mestre que resultou na quarta regeneração da série ou à “alergia” dos ciborgues prateados a ouro, também rendem bons momentos aos fãs mais antigos de Doctor Who, quase como um aceno de Chibnall a um dos fandoms mais dedicados do mundo pop.

Outro elemento que faz os olhos dos fãs brilharem é ver, no último episódio da temporada, duas TARDIS novinhas em folha aterrissarem pela primeira vez na Terra. Diferentemente da nave da Doutora, os novos modelos estão com seus circuitos-camaleão intactos, permitindo que o grupo chegue a Sheffield, na Inglaterra, disfarçados como uma simples árvore ou uma casa típica dos bairros residenciais da cidade. Easter-eggs como esse, embora feitos para fãs que acompanham Doctor Who, no mínimo, desde 2005, adicionam ainda mais charme à temporada, que já se beneficiava do grande carisma de seu elenco e caminhava sem grandes tropeços de qualidade.

No geral, os dez episódios desta 12ª temporada formaram uma safra muito boa, apesar da queda brutal de qualidade em “Orphan 55”, terceiro capítulo do novo ano. Genérico e sem graça, o episódio não tem qualquer efeito na temporada e, felizmente, é seguido pela ótima dobradinha “Nikola Tesla’s Night of Terror” e “Fugitive of The Judoon”, sendo que este puxa o fio para a maior reviravolta nos mais de 50 anos de história de Doctor Who.

Outro leve defeito da 12ª temporada, compensado pela criatividade dos roteiristas, é ter se passado quase completamente na Terra. Embora proporcione encontros interessantes, como o já citado Nikola Tesla e a escritora Mary Shelley, a falta de mudanças na paisagem passa a sensação de Chibnall e sua equipe queriam manter a segurança pelo menos nas locações, já que o arco do novo ano, que coloca a Doutora no cerne da origem dos Senhores do Tempo, pode causar reações extremas do público.

Diferentemente da temporada anterior, quando o showrunner preferiu não tocar no legado de Doctor Who para não desagradar os fãs, o 12º ano muda completamente o status quo de diversos personagens, incluindo da protagonista. Chibnall, Whittaker e o resto dos envolvidos na produção arriscaram muito na construção desta nova história que, embora controversa, explica, de sua maneira, diversos “furos” criados ao longo dos anos da série. Além de assumir o risco, a nova temporada ainda entregou ao menos nove belos episódios dignos de serem reassistidos, seja pelas novidades, referências à era clássica ou à maravilhosa, apesar de breve, participação do Capitão Jack Harkness (John Barrowman). Sem pudores, Chibnall e a 13ª Doutora cravaram de vez seu lugar na história de Doctor Who.

Nota do Crítico
Ótimo