Disque Prazer diverte com a criação do primeiro serviço de telessexo do mundo

Créditos da imagem: Divulgação/Netflix

Séries e TV

Crítica

Disque Prazer diverte com a criação do primeiro serviço de telessexo do mundo

Produção holandesa arrisca muitas linguagens e não consegue uma identidade segura.

Omelete
4 min de leitura
Henrique Haddefinir
14.04.2022, às 09H28
ATUALIZADA EM 14.04.2022, ÀS 09H44
ATUALIZADA EM 14.04.2022, ÀS 09H44

A Amsterdã do final dos anos 80 não era exatamente um lugar conhecido por seu apelo turístico. Vivendo os últimos anos da Guerra Fria e tomada por uma fama persecutória de permissividade, a cidade sofria com problemas parecidos com os que Nova York sofrera dez anos antes: prostituição, drogas e crime andavam pelas ruas – muitas vezes à luz do dia – misturadas ao potencial sócio-político daquela região. Hoje, com ruas devidamente "higienizadas", Amsterdã continua sendo um símbolo de progressividade.

Foi naquela época que dois irmãos muito espertos começaram a usar um serviço de linhas telefônicas pagas para o bom e velho “sex phone” que já era feito privativamente em todo o mundo. A vantagem é que você podia pagar para ter alívio com estranhos, sem envolvimento e no conforto do seu lar. O escritor Fred Saueressig levou a história real do crescimento do serviço para as páginas de seu livro 06 Cowboys; e esse ano, a Netflix apresentou a série Disque Prazer (Dirty Lines) para seus assinantes, sob a promessa de divertir com essa premissa peculiar e involuntariamente cômica.

Para isso, a trama da série estabelece uma rede de personagens que já conhecemos bem de produções com temas até mesmo semelhantes, como Masters Of Sex, por exemplo. São de praxe o visionário ambicioso e incorreto, sua esposa alienada e sua equipe de crédulos num passo empresarial (ou científico) que pode ser tão sensacional quanto absolutamente delirante. Disque Prazer recorre aos clássicos do gênero sem autocrítica, mas ao menos situa tudo numa linguagem acessível, que pode ser vista sem a responsabilidade e a pressão erótica de outros títulos do catálogo.

Como também era de se esperar, tudo começa com o “indivíduo comum” descobrindo que sua vida vai ser sacudida por uma nova empreitada. Marly (Joy Delima) é uma universitária que não tem uma vida sexual muito bem ajustada, mas que está no lugar “errado” na hora certa: para conseguir uma grana extra, aceita trabalhar numa nova empresa, chamada Teledutch, que grava mulheres contando histórias eróticas, explícitas, para o estranho e promissor serviço de telessexo que Frank (Minne Koole) e Ramon (Chris Peters) criaram originalmente no país. São eles que começam o fenômeno de pornografia tecnológica que ganhou o mundo na década de 90 e vive seu apogeu com as facilidades da internet.

Disque Prazer Sem Prazer

Pieter Bart, criador da série, sabe que tipo de público quer alcançar e não perde a chance de fazer piada com o passado de um serviço que morrerá logo dali a alguns anos. Assim, a megalomania de Frank logo nos primeiros episódios serve como uma luva para o olhar curioso de Marly, que vai parar em um trabalho que não representa em nada a maneira como ela lida com a própria sexualidade. De fato, a série é esperta ao estabelecer que apesar de criarem um mercado liberal, todos os três personagens mais importantes da produção têm alguma barreira no quesito.

Dos três, Ramon é quem tem a trajetória mais equilibrada. Casado, com filhos e uma vida pacata, Ramon esconde sua homossexualidade com a força de um felino. Mas, é claro que a proximidade direta com o mercado do sexo o coloca diante dos desejos que ele vinha sufocando há tempos. E embora o roteiro tome decisões previsíveis sobre como a trama dele se desenvolve, as angústias do personagem o aproximam do espectador, que já entendeu que nem Frank e nem Marly vão ser realmente levados a sério pelo enredo.

Contudo, tanto Minne Koole quanto Joy Delima fazem de Frank e Marly duas figuras que sabemos exatamente quem são e que tem seu carisma. O “porém” da estrutura de Disque Prazer é a maneira como ela lança muitas coisas na receita e acaba não desenvolvendo substancialmente nenhuma delas. Como Marly é a narradora, ela é quem acaba sofrendo mais intensamente os efeitos dessa frouxidão. A quebra da quarta parede, por exemplo, passa longe do charme com que era feita em Fleabag (ou até mesmo em Os Normais, anos antes, aqui no Brasil) e nem alcança, também, a incisividade com que era usada em House of Cards. Muito cedo, o recurso vai se esvaziando e sendo usado didaticamente, para explicar coisas para a audiência.

As transformações sócio-políticas da cidade se restringem ao que está passando na TV entre as cenas, como uma nota de rodapé, sem grande relevância para a dramaturgia. A trama envolvendo o serviço de telessexo em si tem ótimos momentos (como quando é tomada a decisão de abrir um ramal para atender gays), mas que são quase lançados nos episódios a esmo. E a razão para isso é simples: os roteiros têm problemas na organização das linhas temporais. O passado e o presente dos acontecimentos se misturam sem as devidas transições, sem signos. É difícil até mesmo reconhecer as mudanças nos personagens.

Mesmo assim, a série tem um bom ritmo e muito senso de humor. É difícil saber, contudo, se com um desenvolvimento tão fraco de personagens, o espectador estará disposto a fazer mais uma “ligação” para a temporada seguinte. Seria interessante ver como será o gráfico de sucesso e decadência, mas nunca se sabe... A Netflix tem puxado plugs, ignorado pedidos e em alguns casos, não admite erros e desliga na cara. Sem dó. 

Disque Prazer
Em andamento (2022- )
Disque Prazer
Em andamento (2022- )
Nota do Crítico
Bom

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