Desaparecido Para Sempre promete mistérios mas falha em suas resoluções

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Desaparecido Para Sempre promete mistérios mas falha em suas resoluções

Série francesa adaptada da obra de Harlan Coben não consegue envolver o espectador

Henrique Haddefinir
18.08.2021
10h16
Atualizada em
18.08.2021
11h41
Atualizada em 18.08.2021 às 11h41

O “sequestro” de autores e showrunners promovido em massa pela Netflix encontrou no escritor Harlan Coben uma espécie de terreno seguro. Todas as 14 obras do autor já são parte do acervo de possibilidades da plataforma e Desaparecido Para Sempre é o quinto título adaptado. Junto com cada adaptação, uma pequena volta ao mundo: Não Fale com Estranhos foi produzida na Inglaterra, O Inocente na Espanha, Safe foi parar de novo na Inglaterra e Silêncio na Floresta foi conduzido na Polônia. Agora chegou a vez da França e toda a ação de Desaparecido Para Sempre foi transferida para Nice, uma bela cidade litorânea que em nada se entende com as propostas sombrias da trama.

A mudança de cenário não foi a única licença da obra original e nem a mais drástica. O DNA da literatura misteriosa de Harlan ainda está presente na maneira caótica com a qual a história se desenvolve, mas é inegável que em se tratando de narrativas fragmentadas, a ótica da direção pode fazer toda diferença na maneira como a atmosfera é transmitida para o público. No caso de Desaparecido para Sempre, o diretor Juan Carlos Medina optou por uma espécie de frenesi editorial, repartindo toda a história em pequenos pedaços, muitas vezes desconexos e fora de contexto, afetando imensamente a forma como David Elkaim e Vincent Poymiro planejaram estabelecer cinco focos, em cinco personagens, durante os únicos 5 episódios.

O que leva a certos questionamentos, contudo, não é exatamente a construção de atmosfera ou o retalhamento da trama. Esses são pontos importantes, mas que poderiam ter sido perdoados ou nem mesmo absorvidos, se o trabalho da direção e dos roteiristas não tivesse empacado em algo que estava além do controle deles: o mistério em si. Sim, porque em narrativas pautadas na resolução de mistérios, não é importante somente conduzir bem o suspense, mas ter na manga uma explicação coerente e catártica para justificar nosso tempo de espera. Nesse quesito, Desaparecido Para Sempre deixa muito a desejar. Os mistérios estão lá, são muitos, mas o difícil mesmo é se importar com eles.

Na história, o jovem Guillaume (Finnegan Oldfield) presencia as mortes de duas pessoas que ele amava imensamente: o irmão Fred (Nicolas Duvauchelle) e Sonia (Mila Ayache), sua ex-namorada. O corpo de Fred não é encontrado e dez anos se passam. A história dos crimes parece adormecida, até que a atual namorada de Guillaume, Judith (Nailia Harzone), desaparece. A partir daí, o protagonista veste aquele figurino clássico do investigador amador obcecado e a narrativa fica indo e voltando no tempo para, supostamente, nos revelar pouco a pouco qual seria a resolução para as duas grandes perguntas: onde está Judith e porque Fred e Sonia foram mortos. E é por essas respostas que estamos seguindo em frente... No final das contas, o grande pecado está na incapacidade da produção de dar explicações minimamente interessantes.

Enganados, mas não para sempre

Como geralmente costuma acontecer com produções do gênero, a presença do suspense nos primeiros momentos é muito eficiente. O drama da vida de Guillaume se desenrola na tela nos fazendo sentir certo pesar por ele. A empatia, contudo, logo dá lugar a um estranhamento. Os elementos usados pela narrativa para aplicar a sensação de suspense constante surgem envoltos em obviedades como a figura sombria no fundo da cena, o tiro não acertando claramente um personagem para que não fique claro que ele está morto; e até um flerte com elementos sobrenaturais, que é jogado na nossa cara, sem nenhum contexto e sem nenhum desenvolvimento. Vale o suspense pelo suspense mesmo.

Como era de se esperar nas narrativas modernas, há uma tentativa desajeitada de inserir engajamento social na construção dos enredos. Essa tentativa está ligada diretamente ao sistema de foco em personagens específicos a cada episódio. No episódio centrado em Daco (Guillaume Gouix), por exemplo, temos talvez a melhor construção de personagem de toda a temporada, com os males do neonazismo sendo retratados de maneira competente e convincente. O problema é que todo aquele legítimo investimento narrativo no personagem não interfere em absolutamente nada que acontece na trama principal. Nada.

A partir do episódio 3 começa uma desconfiança de que aquela salada temporal não vai nos levar até o melhor dos lugares. Isso é absolutamente confirmado no episódio final, onde a resolução do mistério vai parar na fronteira da cafonice, com absolutamente nenhum desdobramento emocional eficiente e zero surpresa. Se já no começo da história a minissérie já não tinha substância criativa minimamente interessante, nos minutos finais tudo começa a soar como se tivesse sido planejado na última hora ou pior; como se tivesse sido planejado, mas só fosse mesmo enfadonho, genérico, sem brilho.

Porém, para os fãs de Harlan Coben esse é só o início do caminho. Ainda há um número grande de obras para serem adaptadas, viajando o mundo e repetindo diretrizes. Apesar de derrapar na pista, Desaparecido Para Sempre é bem produzida e tem apelo comercial. Ela só peca onde jamais deveria pecar: a resposta para o mistério só serve para deixar a pergunta mais irrelevante.  

Desaparecido Para Sempre
Desaparecido Para Sempre

Duração: 1 temporada

Nota do Crítico
Regular

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