Foto de Derry Girls

Créditos da imagem: Derry Girls/Netflix/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Derry Girls - 1ª temporada

Série da Irlanda do Norte mostra com originalidade como é ser jovem em um país em conflito

Camila Sousa
10.01.2019
10h41
Atualizada em
10.01.2019
15h57
Atualizada em 10.01.2019 às 15h57

Existem algumas convenções que fazem parte da cultura pop. O ensino médio, por exemplo, sempre foi representado em filmes e séries americanas que mostram conceitos como o baile da escola, os armários e a disputa entre os grupos diferentes de adolescentes. Exatamente por existir tantos produtos mostrando a mesma coisa é que Derry Girls, série original Netflix da Irlanda do Norte, surge como um fôlego de originalidade.

Criada pela roteirista Lisa McGee (Raw), a série acompanha a jovem de 16 anos Erin (Saoirse-Monica Jackson) e seus amigos, que vivem em uma área de conflito da Irlanda do Norte durante a década de 90. Com uma trama tão diferente, não é surpresa descobrir que McGee viveu algo semelhante e cresceu na cidade de Derry, a mesma que serve de palco para o seriado. Essa experiência de vida da criadora faz com que Derry Girls tenha uma originalidade difícil de alcançar.

Um exemplo interessante é quando Michelle (Jamie Lee O’Donnell), uma das amigas de Erin, entra com seu grupo no ônibus escolar e oferece revistas da Avon para os demais colegas. Um momento totalmente natural para a juventude brasileira - acostumada a levar revistas de venda de cosméticos para a escola - mas que jamais teria espaço em uma série americana. Mas esses momentos leves também são permeados pela presença do conflito. O exército está sempre nas ruas e, embora assuste o espectador, já se tornou algo comum para Erin e seus amigos. Há, inclusive, um momento duro e poético em que a seriedade das forças armadas é colocada em contraponto com a rebeldia da década de 90.

Essa história tão rica e cheia de detalhes só funciona realmente pela qualidade do elenco. Embora sejam mais velhos do que os personagens (entre 25 e 30 anos), os nomes que compõem o núcleo adolescente entregam tudo o que é necessário: as conversas bobas e sem sentido, as paixões proibidas por pessoas mais velhas, o medo de uma grande prova que acontecerá em breve, etc. Elementos comuns e, de certa forma batidos pelos motivos já explicados acima, mas que ganham uma roupagem nova e ao mesmo tempo muito familiar. Erin vive com os amigos em uma cidade do interior. Todos se conhecem e qualquer elemento fora do comum é digno de sair no jornal da cidade. Quem cresceu em circunstâncias semelhantes sentirá uma boa dose de identificação.

O elenco adulto também funciona muito bem. Os pais de Erin, por exemplo, são perfeitas caricaturas de uma geração enérgica e, de certa forma, ultrapassada. Ma Mary (Tara Lynne O’Neill) comanda a casa e fala o que pensa, enquanto Da Gerry (Tommy Tiernan) precisa conviver com as críticas, principalmente do sogro que vive com eles (Ian McElhinney, de Game of Thrones). Essa dinâmica apresenta uma família ligeiramente desconjuntada, porém feliz e capaz de se unir diante de problemas maiores. Já Siobhan McSweeney (The Fall) faz o papel da Irmã Michael, a freira que comanda a escola e é tão irônica e mal-humorada que muitas vezes é difícil acreditar em suas respostas rápidas e ácidas.

Derry Girls termina fazendo uma bela desconstrução do desfecho de filmes adolescentes. Enquanto o público é acostumado a ver a garota tímida se tornar rainha do baile da escola, aqui Lisa McGee retoma o tema do conflito e faz mais uma vez um paralelo entre a inocência desse período da vida com o confronto armado que existe no país. É um final simples, mas ainda assim tocante e carregado de significado. Com seis episódios de 20 e poucos minutos cada, a série é rápida e intensa - assim como muitas coisas na juventude - e mostra que mesmo as pessoas mais comuns carregam histórias que valem a pena ser contadas.

Nota do Crítico
Ótimo