Demolidor: Renascido retorna melhor, mais violenta e política na 2ª temporada
Produção do Disney+ reafirma sua identidade e deixa a sombra da Netflix no passado, mesmo usando seus elementos
A primeira temporada de Demolidor: Renascido tinha uma grande sombra pairando sobre a produção: a série da Netflix amada pelos fãs. Não à toa que a nova versão, agora dentro do universo do Marvel Television, trouxe de volta Charlie Cox, Vincent D’Onofrio, Jon Bernthal, Deborah Ann Woll e basicamente todo o elenco das três temporadas da antiga casa. Mas não bastava replicar o que já havia dado certo — em partes, diga-se — no streaming ao lado. Era preciso colocar esses personagens, de fato, no MCU. E o primeiro ano fez isso com méritos, mesmo que os apaixonados pela visão do passado não consigam admitir. A segunda temporada dobra essa aposta, mas traz algo que os saudosistas vão gostar: a violência.
Após Wilson Fisk (Vincent D’Onofrio) implantar a Lei Marcial e proibir a atividade de vigilantes, Nova York passa a ser controlada por sua Força-Tarefa Anti-Vigilantes (AVTF), com total liberdade para “aplicar a lei” e cometer crimes violentos sem punição do Estado. Atuando nas sombras, Demolidor/Murdock (Charlie Cox) trabalha com Karen Page (Deborah Ann Woll) — ambos procurados como criminosos — para tentar deter o prefeito. A chegada de um navio carregado de armas deixa claro que Fisk tem planos maiores e mais perigosos e que conta com ajudas poderosas em sua missão. É nesse contexto que entra o misterioso e debochado personagem de Matthew Lillard, Charles, que logo demonstra ter ligação com outro conhecido lado do MCU.
Demolidor: Renascido retorna como uma verdadeira continuação da primeira temporada, e não como uma nova história do herói, como acontecia na Netflix. Quem se beneficia é o elenco, que tem mais chances de mergulhar na história desses personagens. Charlie Cox nunca teve uma temporada em que vestisse tanto o manto do Demolidor. Por estar sendo procurado pela AVTF, Murdock acaba vivendo grande parte da história como seu alter ego. Se a primeira temporada focava mais na justiça, com Matt defendendo Hector Ayala, o Tigre Branco, e buscando meios legais contra Fisk, o segundo ano é sobre rebelião e resistência. O roteiro aproveita esses temas para dar ao personagem ainda mais espaço para enxergar a situação sob a ótica do vigilante, e não do advogado.
Essa rebelião aumenta ainda mais a violência na história. A AVTF age sem freios: invade casas e comércios, prende e mata quem quiser, com a proteção do prefeito Fisk — qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência, mesmo que os produtores afirmem que a ideia já havia sido escrita há muito tempo. De qualquer forma, as comparações com o atual cenário político dos EUA serão feitas, principalmente quando a força-tarefa ataca bairros menores de Nova York.
Vincent D’Onofrio está ainda melhor na pele de Wilson Fisk, personagem que parece muito mais relaxado e caminhando para aceitar que é, sim, o Rei do Crime — e não alguém que pensa no melhor para a cidade, mesmo que à sua maneira. Até o visual do personagem ganha mais volume sob os ternos, tornando-o maior, mais brutal e mais próximo dos quadrinhos.
Renascido segue ainda mais a estilização menos “realista” da primeira temporada. Se, no ano anterior, algumas cenas com personagens em CGI causavam estranhamento, agora a série utiliza muito mais efeitos práticos. Cores, uniformes, movimentos de câmera e mudanças de proporção da tela, tudo é feito em prol da narrativa e dos personagens. Há uma sequência inteira com o Mercenário (Wilson Bethel) em um restaurante e outra com o Demolidor em uma prisão que mostram bem a evolução da parte técnica e do trabalho de ação da série. Da mesma forma, há momentos mais calmos, como o Demolidor na igreja ou o uso de telas de TV, que parecem saídos diretamente dos quadrinhos.
A segunda temporada de Demolidor: Renascido é um passo importante na reafirmação do MCU na TV. Depois da ótima surpresa que foi Magnum, a série do Demônio de Hell’s Kitchen comprova que deixou a sombra da Netflix no passado e caminha com as próprias pernas. A entrada pontual de Jessica Jones (Krysten Ritter), que pode até frustrar quem esperava mais, mostra que a Disney sabe brincar com as peças que tem e faz acenos para o futuro do grupo de heróis urbanos da Marvel.
Como nas melhores obras do MCU, Renascido entende que seu maior mérito está na construção de seus heróis, seus medos e seus erros. Fica evidente que o primeiro ano sofreu com a mudança de rota no meio do caminho, se afastando da visão Netflix e criando algo mais próprio e próximo do MCU. A segunda temporada trabalha com essa ideia narrativa já bem estabelecida e se aproveita disso.
A guerra entre Demolidor e Wilson Fisk ganha contornos dramáticos e a série não tem medo de explorar seus dilemas ou poupar personagens dessas consequências, seja pelo lado da máscara ou daquele que a veste. Isso vale para Murdock, para o Rei do Crime, para BB Urich (Genneya Walton), Daniel (Michael Gandolfini) ou aqueles que ainda se escondem atrás do manto da nostalgia (de menos de 10 anos, diga-se) e não aceitam que Renascido é a melhor versão do Demolidor.
Demolidor: Renascido
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