Séries e TV

Crítica

Dear White People - 2ª Temporada | Crítica

Ainda mais ácida e segura de si, série ataca intolerância disfarçada de liberdade de expressão

Rafael Gonzaga
07.05.2018
18h25
Atualizada em
08.05.2018
06h07
Atualizada em 08.05.2018 às 06h07

Depois de transformar o filme Cara Gente Branca, premiado em 2014 no Festival de Sundance, em 10 episódios lançados na Netflix em 2017, Justin Simien retorna em grande estilo para mais uma remessa de capítulos impecáveis. Dessa vez, a missão é expandir a história além do argumento original, usando os reflexos dos eventos vistos na primeira temporada para não apenas solidificar a personalidade dos personagens principais, mas para contar novas e interessantes histórias. Com o protagonismo melhor dividido, o segundo ano de Dear White People ganha complexidade e intensidade - se é que é possível - ao falar essencialmente sobre a desonestidade intelectual de quem esconde discursos de ódio atrás da lógica deturpada de liberdade de expressão.

Se na primeira temporada o maior destaque na direção ficou com Barry Jenkins, ao mostrar Reggie (Marque Richardson) na mira de uma arma no "Chapter V", Simien conseguiu mostrar o peso de sua assinatura na série no segundo ano. O melhor momento da trama se dá no "Chapter VIII", um dos três dirigidos por Simien na nova temporada, ocupado integralmente com o que se torna um discussão de relação entre Samantha (Logan Browning) e Gabe (John Patrick Amedori) - o auge é uma sequência sem cortes de quase cinco minutos onde a dupla e a câmera passeiam livremente pelo ambiente enquanto um texto cortante é cuspido no público sem piedade. Assim como no caso de Reggie, a cena é paralelamente a base de uma discussão sobre situações que são cotidianamente banalizadas e o potencial delas de tomarem proporções assustadoras.

Samantha abre espaço durante boa parte da temporada para que personagens como Coco (Antoinette Robertson), responsável por um dos melhores momentos da série no episódio dirigido por Kimberly Peirce, brilhem. Todos os personagens que lideram episódios, incluindo ainda Joelle (Ashley Blaine Featherson), Troy (Brandon P Bell), Lionel (DeRon Horton) e Reggie, dão conta do recado ao expor suas narrativas. Cada um segue mostrando como o racismo, ainda que sentido coletivamente, possui desdobramentos muito particulares. Reggie vivendo com seu trauma, Joelle personificando debates como o da solidão da mulher negra e Troy lidando com a pressão de corresponder às expectativas de ser o legado da luta de seus antepassados são coisas que mostram o potencial da série em abordar de forma clara discussões importantes.

Através de Lionel, a série aborda questões muito delicadas tanto sobre a empatia entre minorias sociais distintas quanto da total ausência dela. Há passagens cortantes do cotidiano do rapaz que ficam ainda mais impactantes pela naturalidade como são apresentadas na tela - como o momento em que um rapaz diz que não flerta com homens negros, como se o que ele chama de preferência nesse caso não fosse algo socialmente construído. Usando o processo de amadurecimento do personagem em relação a sua sexualidade como pano de fundo, a segunda temporada mostra Lionel se reconhecendo em questões particulares do jovem latino Wesley Alvarez (Rudy Martinez) ao mesmo tempo em que se decepciona repetidamente com outros rostos do núcleo LGBT - em especial, Silvio (D.J. Blickenstaff).

Um ponto alto da segunda temporada são também as participações especiais. Se o primeiro ano divertiu com Defamation, a paródia de Scandal, por exemplo, o segundo ano apresenta Prince O 'Pal-ities, novo programa fictício de TV protagonizado pela ótima Lena Waithe e que usa a série Empire como base. Outros convidados interessantes são Tyler James Williams, que vive Carson Rhodes, e Tessa Thompson, que interpreta seu extremo oposto, a reacionária Rikki Carter. A participação de Thompson é especialmente interessante levando em conta que a atriz deu vida a Samantha no filme original - Williams também estava lá, como Lionel - e, em sua passagem na série, ela enfrenta a protagonista em uma cena ótima sobre sobrevivência e ética.

Uma coisa genial que fica clara nessa temporada é a habilidade de Simien em converter realidade em ficção. Quem acompanhou os ataques que a primeira temporada sofreu, sendo acusada de “racismo inverso” e outros absurdos, percebe que a série é, de certa forma, metalinguística ao parodiar de forma recorrente algo pelo qual ela mesma foi criticada. Ao longo de toda a temporada, diversos arquétipos de racistas são exemplificados, dos mais explícitos - como o rosto por trás da conta @AltIvyW - até os mais pateticamente cotidianos, como o rapaz branco que usa uma camisa escrita Black Lives Matter ao mesmo tempo que trata todos os negros a sua volta com condescendência.

Ao longo da temporada, a série usa flashbacks de décadas passadas para exemplificar como comportamentos segregacionistas do passado seguem gerando reflexos no mundo contemporâneo - isso é genial do ponto de vista de entender como a opressão passa por metamorfoses para se tornar mais sofisticada e, com isso, não desaparecer. Esses flashbacks estão também ligados ao principal mistério da temporada, ligado à criação de sociedades secretas universitárias. Contudo, essa trama, liderada por Samantha e Lionel, derrapa ao plantar signos demais sem dar respostas concretas de para onde empurrará a trama em suas próximas temporadas. O próprio desfecho é confuso e o impacto dele está mais ligado ao ator que aparece do que ao que acontece na tela.

É surpreendente que a segunda temporada tenha conseguido ser ainda melhor que seu primeiro ano, já bem acima da média. De modo geral, a série ganha segurança: a impressão é de que a nova remessa de episódios começa com as raízes fincadas na ousadia do ano de estreia. A soma de um elenco talentoso e de um roteiro impecável gera alguns dos melhores diálogos que o espectador poderá encontrar no mar de produções televisivas atuais, com humor irônico e drama sincero. Poucas atrações divertem e emocionam de forma tão orgânica sem abandonar um discurso importante como Dear White People tem feito na Netflix. Justin Simien discute os limites da nossa sociedade, as consequências e a origem do ódio, a crueldade disfarçada de ingenuidade do opressor e a vitória da resiliência perante as fragilidades do oprimido: é entretenimento educativo da melhor espécie.

Nota do Crítico
Ótimo