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Crítica

Dark - 1ª Temporada | Crítica

Com temáticas maduras e cheia de reviravoltas, série acerta em trama que desafia noção de tempo

Rafael Gonzaga
05.12.2017
19h54
Atualizada em
05.12.2017
22h28
Atualizada em 05.12.2017 às 22h28

Dark, primeira produção original alemã da Netflix, estreou envolta em mistério, mas com a premissa de ser uma das séries mais sombrias do serviço de streaming - e conseguiu o feito nos dez episódios da primeira temporada. Criada por Baran bo Odar, que dirige a maior parte dos episódios, e por Jantje Friese, responsável por assinar o roteiro da série, Dark é uma ótima pedida para quem gosta de ver histórias de ficção científica sendo usadas como pano de fundo para questões filosóficas. A primeira temporada vai fundo nisso ao debater noções de passado, presente e futuro através de uma ótica pouco ortodoxa enquanto reflete sobre algumas das principais questões que permanecem sem resposta fora da ficção: de onde viemos e, principalmente, para onde vamos?

A história se passa na cidadezinha pacata de Winden, um município industrial alemão cujo maior destaque é sediar uma usina de energia nuclear que, na história, está sendo desativada. O espectador é apresentado a personagens com grande potencial de desenvolvimento só pelo que carregam de bagagem, como o jovem Jonas Kahnwald (Louis Hofmann), que carrega a angústia de não entender o suicídio do pai ou sua mãe Hannah, (Maja Schöne) que vive um caso proibido com Ulrich Nielsen (Oliver Masucci), homem que entra em uma jornada atrás do filho desaparecido. Conforme a história vai avançando, a trama evolui e o espectador é introduzido a uma dinâmica onde passado, presente e futuro coexistem de forma não necessariamente linear.

A série de fato é sombria e as comparações que veículos como Vulture e The Guardian fizeram ostensivamente com Stranger Things fazem muito mais sentido no ponto de partida da série que no decorrer dela - há de fato a premissa de uma criança desaparecida de forma que beira o sobrenatural servindo como base da série, mas a história não se sustenta só nisso. Há outros elementos que se convergem com esse sumiço e que são fundamentais para a trama, como o surgimento de um corpo na floresta e os rastros misteriosos deixados por um homem que cometeu suicídio. Enquanto a série dos irmãos Duffer cativa pela amizade e pelo afeto entre os personagens, Dark se torna interessante pela forma como seus protagonistas externalizam os efeitos de seus traumas - e, dito isso, sim, Dark é infinitamente mais sombria que Stranger Things.

Um aspecto da série que pode gerar problemas de compreensão, além, é claro, da própria trama principal complexa, é a quantidade de personagens. Ainda que a série não deixe a impressão de ter ninguém exatamente sobrando, em 10 episódios muita gente das quatro famílias principais é apresentada - só dos Nielsen, por exemplo, são oito personagens. Além deles, há os Kahwald, Tiedemann e os Doppler. O roteiro da série faz um bom trabalho criando personalidades sólidas para cada um deles, mas, em alguns momentos, um guia com as árvores genealógicas de cada família seria bastante útil para lembrar de onde veio cada personagem - o curioso é que até mesmo essa confusão soa coerente com a proposta da série.

Em relação à parte técnica, o saldo é positivo, mas há aspectos que se sobressaem em relação a outros. Existe um cuidado detalhista, por exemplo, na fotografia da série: o clima sombrio é alimentado por uma iluminação fraca e azulada sendo contrastada por cores fortes, garantindo um ambiente melancólico quase o tempo todo; as locações externas do interior da Alemanha também caem como uma luva para a proposta visual do programa. Por outro lado, ainda que tenha uma trilha sonora excepcional, a série peca um pouco ao pesar a mão nos recursos sonoros para assustar de forma muito óbvia o espectador em vários momentos - fica a impressão de que a trama por si só não sustentaria o terror sem fazer tanto barulho.

O grande mérito de Dark está em conseguir acertar a balança da complexidade: a série não é fácil de entender, mas entrega perguntas e respostas na medida certa para não ser impossível de ser compreendida. O ritmo, nem tão rápido e nem tão lento, é ideal para não sobrecarregar o espectador de informações e o desfecho consegue ser simples sem ser óbvio - pelo contrário, é surpreendente. Jantje Friese e Baran bo Odar - leia aqui uma entrevista com a dupla - conseguiram concluir bem o primeiro ano e deixar boas expectativas plantadas para uma segunda temporada. Ainda que a série tenha sido comparada exaustivamente com Stranger Things, há elementos suficientes para quem é apaixonado por produções como Arquivo X e De Volta Para o Futuro, por exemplo. Dark é uma série com temáticas maduras e é cheia de reviravoltas - é difícil não se sentir motivado a devorar a série de uma vez só e ficar horas depois pensando em tudo que foi apresentado por ela.

Nota do Crítico
Ótimo