O Espião

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

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Sasha Baron Cohen impressiona e eleva minissérie a status de clássico instantâneo na Netflix

Nicolaos Garófalo
13.09.2019
10h00
Atualizada em
13.09.2019
10h17
Atualizada em 13.09.2019 às 10h17

Mais conhecido por suas comédias de humor ácido, Sasha Baron Cohen talvez seja um dos últimos nomes a vir à cabeça quando se pensa em suspenses de espionagem. Afinal, os poucos filmes em que o ator apareceu fora de um de seus vários personagens originais foram massacrados pela crítica e pelo público. Nem O Ditador, outra criação sua, agradou aos espectadores. Ainda assim, o selo da Netflix e a inspiração na história real de Eli Cohen criaram para O Espião expectativas que, felizmente, foram atingidas.

Sem enrolação, os primeiros segundos da série mostram o destino de Eli (Baron Cohen) e sua missão na Síria, avisando o espectador que, não, essa história não tem um final feliz. Mas pouco importa: estamos aqui para ver a transformação do ex-agente da inteligência israelense no playboy sírio que auxilia em um golpe de estado.

A vida de Eli em Tel-Aviv ao lado da esposa Nadia (Hadar Ratzon Rotem) era boa, mas incompleta. Antes membro da Mossad (serviço secreto de Israel) operando no Egito, ele agora vive como contador em um shopping, enquanto sua mulher trabalha de costureira para uma socialite. Sem pensar duas vezes, Eli aceita mentir para Nadia e arriscar a sua vida quando Dan (Noah Emmerich) oferece a ele a oportunidade de se infiltrar na alta sociedade síria e ganhar a confiança de Amin Al-Hafez (Waleed Zuaiter), que planejava tomar o governo da Síria.

A série, então, se divide em dois núcleos: a colorida vida de Eli como Kamel Amin Thaabet, grande empresário sírio criado na Argentina, que se diverte em grandes festas ao lado dos ricos e poderosos do país árabe; e a cada vez mais cinzenta Tel-Aviv de Nadia, que, com o passar do tempo, se vê criando duas filhas sozinha enquanto o marido “viaja o mundo à procura de investidores para o país”. A diferença de coloração entre as duas realidades de Cohen cresce, com sua vida de verdade ficando quase completamente em preto e branco ao fim dos seis episódios. Os retornos esporádicos do agente não são o bastante para separar suas identidades e a interpretação Baron Cohen expõe a dualidade de um homem dividido, conversando perfeitamente com a mudança de tons entre as cenas.

Ver o inocente e gentil Eli perder a paciência com autoridades no shopping como se tivesse o poder do magnata Thaabet é, ao mesmo tempo, surpreendente e assustador, passando ao espectador exatamente o mesmo sentimento que Nadia tem na hora. Âncora emocional e moral da série, a atriz Ratzon Rotem rouba absolutamente cada cena em que aparece, seja disfarçando seu cansaço no trabalho ou brigando ferozmente para que seu marido diga a verdade.

As vidas do casal, tão emocionalmente carregadas e com diálogos que vão do romântico ao agressivo, tornam o terceiro núcleo quase esquecível. Dentro da Mossad, Dan e Jacob (Moni Moshonov) orientam e supervisionam o trabalho de Eli, mas suas cenas servem apenas para quebrar o ritmo constante de tensão, com diálogos exposicionais que pouco adicionam à trama sem o envolvimento de Baron Cohen.

O plano da Netflix com O Espião, entregando o final em seus primeiros segundos, pode parecer arriscado. Mas a tensão criada pelos episódios seguintes da minissérie prova que o destino pouco importa se o caminho for bem trilhado. Apesar de alguns poucos buracos na pista, Sasha Baron Cohen provou de uma vez por todas ser mais do que o comediante escrachado de Borat e Brüno, colocando a minissérie no patamar das grandes produções televisivas da década.

Nota do Crítico
Ótimo