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Séries e TV

Crítica

Em Hacks, Jean Smart interpreta comediante lendária que sempre mereceu ser

Os 10 episódios da comédia criada por trio de Broad City estão disponíveis pela HBO Max

Flávio Pinto
08.07.2021
17h09
Atualizada em
27.11.2021
20h50
Atualizada em 27.11.2021 às 20h50

É muito fácil se perder no catálogo do mais novo melhor streaming de todos os tempos da última semana, a HBO Max. Além dos sucessos de público e crítica, há os conteúdos originais desenvolvidos para a plataforma, como The Flight Attendant, série alçada a chamariz do serviço de assinatura no Brasil.  Uma que está menos em evidência é Hacks. A gema obscura da filha mais nova da Warner Media não tem doses cavalares de sexo, voltas e reviravoltas alucinantes ou um elenco facilmente reconhecível. O que ela faz é tocar em um tema sensível a todos nós, a solidão, com graça e qualidade. 

Hacks conta a história de Deborah Vance, vivida por Jean Smart (atriz veterana da TV, hoje em evidência na HBO por Watchmen e Mare of Easttown), uma comediante pioneira, mas ultrapassada. Embora ainda tenha uma série de contratos milionários em seu nome, a sua menina dos olhos, uma residência em Las Vegas, está por um fio. O que pode salvá-la no momento, de acordo com Jimmy (Paul W. Downs), seu agente, é uma atualizada no repertório. 

Para isso, ela aceita a sugestão do funcionário, que é a de contratar uma roteirista mais jovem e vinda de Los Angeles para a tarefa: a também comediante Ava Daniels (Hannah Einbinder). A novata foi selecionada a dedo para a missão, pois, assim como a veterana comediante, já teve dias melhores. Atualmente, Ava vive a realidade de um  “pós-cancelamento”, após ter feito uma piada com o filho gay de um congressista no Twitter. Sem emprego e com o nome sujo em Hollywood, ela resolve aceitar o convite para trabalhar com a celebridade cafona e decadente de Vegas. 

De cara, as duas não se bicam. Deborah acredita que Ava é indisciplinada e não possui referências. Já Ava enxerga em Deborah uma mulher grossa, datada, e sem humanidade. Mas da mesma forma como o contraste entre as duas humoristas é rapidamente desenhado, logo fica nítido como ambas necessitam uma da outra, e esse contraste geracional é uma das forças que move a produção. 

Outra motivação da série é mostrar como, até hoje, o tratamento das mulheres na indústria, seja da comédia, ou hollywoodiana no geral, ainda não é justo. Mesmo com o Me Too, o feminismo, e os movimentos de inclusão, estamos diante de um segmento em que o sexo “frágil” tem prazo de validade. Hacks mostra diversos exemplos de como o seu legado pode virar pó em questão de minutos se você for mulher. Por exemplo, graças a uma polêmica envolvendo seu nome, Deborah perde a oportunidade de se tornar a primeira mulher a apresentar um talk show noturno em uma rede de TV (fato similar que ocorreu à falecida e lendária Joan Rivers, uma das inspirações diretas para a concepção da personagem). Também há uma intensa discussão sobre como as mulheres são verbal e até fisicamente assediadas em clubes de comédia, similar ao que ainda acontece em sets de gravação. 

Em outra análise, Hacks explora a formação de uma dupla improvável que se encontra em dois momentos distintos de solidão. Ava não tem ninguém que a acolha em um momento de extrema vulnerabilidade e ostracismo profissional, enquanto Deborah está sendo minada dentro da sua zona de conforto, já que não há ninguém que lhe diga simplesmente a verdade - até sua nova contratada aparecer. Ao longo dos dez episódios da primeira temporada, a dupla vai se entendendo na base do atrito, e uma das graças é acompanhar como elas aprendem a se aceitar. 

Hacks é aquele raro exemplo de comédia que não somente acerta em cheio nas piadas, mas também consegue construir os momentos doloridos da “vida real”. É capaz de ir até além para fazer uma piada funcionar, sem medo de saber quem irá ofender (acredite, em inúmeros momentos os roteiristas da produção não tiveram medo do cancelamento). Outra coisa que Hacks faz muito bem é mostrar que Jean Smart deveria há anos ser a rainha do mundo. Deborah consegue ser levemente sociopata, irônica, vilanesca, manipuladora, complicada e nada caricata. Isso porque Smart encontra nuances e sutilezas que impedem que a personagem vire uma imitação barata da Meryl Streep em O Diabo Veste Prada

Hannah Einbinder, por outro lado, é o completo oposto da elegância. Ela constrói uma personagem totalmente segura da sua própria insegurança. E acredite, embora uma novata em Hollywood, Einbinder tem os genes da comédia em suas veias. Sua mãe na vida real é Laraine Newman, do elenco da primeira geração do Saturday Night Live, aquela que contava com Bill Murray, Gilda Radner, Dan Aykroyd, Jane Curtin, Chevy Chase, entre outros nomes. Sua Ava consegue ser uma bagunça em todos os sentidos, mas totalmente segura de si de uma maneira que não é um repelente para as outras pessoas (algo que a série Girls, da HBO, não soube fazer bem).

Através da química absurda entre essa dupla dinâmica, a série constrói uma trama paralela sobre respeito, admiração e amizade. Apesar de todo o seu humor instintivo, existem várias séries dentro de Hacks: uma comédia sobre comédia, uma série sobre mulheres no showbusiness, uma série sobre encontrar o seu lugar no mundo. E a minha favorita, uma série sobre encontrar seu par nos lugares mais improváveis. 

É engraçado porque, antes da estreia de Hacks, Kayley Cuoco, de The Flight Attendant, era a favorita do Emmy para ganhar a estatueta de melhor atriz em série de comédia (a atual favorita é Smart). Queria ter encontrado outra forma de começar essa frase, pois, segundo as palavras de Deborah Vance, "se você começar uma frase com, 'É engraçado porque ...', provavelmente não é".

Hacks
Em andamento (2021- )
Hacks
Em andamento (2021- )

Criado por: Lucia Aniello, Paul W. Downs e Jen Statsky

Duração: 1 temporada

Nota do Crítico
Excelente!

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