Foto de Coisa Mais Linda

Créditos da imagem: Coisa Mais Linda/Netflix/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Coisa Mais Linda - 1ª temporada

Nova série original da Netflix fala da busca das mulheres por seu espaço com muito samba e bossa nova

Camila Sousa
25.03.2019
14h21
Atualizada em
27.03.2019
23h23
Atualizada em 27.03.2019 às 23h23

Produções de época são comuns no entretenimento. Há uma curiosidade nata do público em saber como viviam as pessoas nas décadas passadas. Enquanto nos EUA vários períodos são retratados em séries e filmes, no Brasil essa prática é mais comum com as novelas, que muitas vezes exibem belos cenários e figurinos. É dentro deste contexto que a Netflix lança Coisa Mais Linda, sua nova série original brasileira situada entre o final da década de 50 e o começo dos anos 60. É uma época mágica, quando o samba e a bossa nova começam a tomar forma, mas também é uma época de luta para alguns grupos da sociedade, principalmente as mulheres.

É impossível falar sobre Coisa Mais Linda e não ressaltar o quanto cada protagonista é diferente, e exatamente por isso traz uma discussão nova. Malu (Maria Casadevall) é filha de uma família rica de São Paulo. Ela se casa, tem um filho e, imagina, uma vida perfeita para os padrões que a aquela sociedade exigia dela. Mas um dia Maria Luísa vai para o Rio de Janeiro e descobre que seu marido fugiu com outra e a deixou cheia de dívidas. Ela tem duas escolhas: ou voltar para a casa dos pais e procurar outro casamento, ou seguir sua vida independente. Lígia (Fernanda Vasconcellos) tem uma realidade parecida: jovem, bonita e casada, seu próximo passo na vida social do Rio de Janeiro é ser mãe. Só que o sonho de Lígia sempre foi cantar, mas seu marido não aceita ter uma esposa que trabalha. A terceira mulher desse grupo é Adélia (Pathy DeJesus), uma mulher negra que vive no morro e trabalha duro para sustentar a filha. Ela conhece e ajuda Malu e as duas se tornam grandes amigas. Fechando o quarteto há Theresa (Mel Lisboa), que acabou de voltar de Paris e tem o que seria o relacionamento mais desconstruído naquele tempo: ela tem um trabalho importante em uma editora, tem um relacionamento sincero com o marido e não é maltratada por ele (como acontece com outras).

Talvez seja demais descrever cada uma das personagens, mas há uma riqueza importante aqui. Malu, Adélia, Theresa e Lígia são de origens diferentes e possuem dores diferentes. Mas todas elas sofrem com os preconceitos do dia a dia e por isso se unem. Cada uma delas apoia a outra e serve de suporte, mesmo antes de uma grande amizade ser estabelecida. Quando as quatro estão juntas e conversam, cada uma traz um pouco de sua vivência e, mesmo que aquela não seja a dor da outra, há uma sororidade bonita entre elas, sem julgamentos. Em uma realidade que muitas personagens femininas diferentes são colocadas na tela como rivais, é gratificante ver como essas quatro forças entenderam a importância de trabalharem juntas.

A música é parte importante do seriado através de Lígia, Capitão (Ícaro Silva) e Chico (Leandro Lima). Enquanto Malu tem a ideia de abrir um clube de bossa nova para tocar a vida sem precisar ser sustentada por ninguém, são esses três personagens acima que cantam, tocam e emocionam. Na verdade, havia até mais espaço para a música no seriado, mas os momentos dedicados a isso funcionam muito bem dentro da trama e enriquecem a história. A parte técnica/visual de Coisa Mais Linda é praticamente impecável. Figurinos, design de produção e cenários são caprichados e a fotografia é realmente um capítulo à parte. Há muita cor, principalmente nas cenas ao ar livre e na praia. Isso ressalta o calor do Rio de Janeiro e traz reconhecimento para quem já visitou a cidade e sabe como ela é quente. O contraponto disso é a meia-luz das boates de música, que deixam o fundo e a plateia com menos luz para acentuar a bela música que é cantada no palco. Por tudo isso, Coisa Mais Linda já é uma série que se torna relevante para assistir.

Infelizmente há alguns pontos negativos e eles aparecem principalmente entre o meio e o final. A série começa redondinha, apresenta suas personagens, estabelece as tramas e propõe desenvolvimentos interessantes, como o mercado de trabalho machista em que Theresa está inserida. Mas esse fôlego dos primeiros episódios cai bastante entre o quinto e o sexto. A narrativa é apressada para que as personagens concluam logo o seu arco e cheguem ao gancho final - que, aliás, é muito bom. Ao fazer isso, Coisa Mais Linda tira o peso de algumas situações e problemas. Em certo momento, por exemplo, uma personagem tem problemas com a maternidade. Mas o impasse é resolvido e superado dentro de um episódio. Há emoção na atriz que interpreta tudo isso, mas o curto espaço de tempo torna difícil uma relação mais profunda. Além disso, a série ainda sofre com alguns vícios novelescos. O primeiro deles é o excesso de falas explicativas. Várias cenas são construídas para passarem uma mensagem sozinhas, sem a necessidade de diálogo, mas mesmo assim o personagem que está em cena narra o óbvio. Isso tira o brilho e a imersão do público, que começa a construir o significado do que está vendo na tela, mas rapidamente ganha a resposta pronta. O segundo, e ligeiramente mais incômodo, é a marcação de núcleos com a trilha sonora. Se a cena está no Rio, toca bossa nova. Mas se há um corte para o morro, por exemplo, imediatamente começa a tocar um samba. Claro, é interessante que a série tenha vários estilos musicais, mas utilizar isso para pontuar núcleos é desnecessário.

Feminismo, machismo, racismo…

Felizmente, os problemas citados não atrapalham o objetivo principal de Coisa Mais Linda, que é retratar a juventude e a realidade social de uma época. As mulheres estão na linha de frente e cada uma aborda um tema. Quando descobre que o marido a abandonou por outra, Malu precisa aprender a cuidar do próprio dinheiro e resolver sua vida sozinha, já que até então essas tarefas eram consideradas masculinas. Lígia tem um marido que não concorda com sua carreira de cantora e é interessante perceber como, no começo, a personagem mente para si mesma, dizendo que também concorda com aquilo e não seria boa nisso no fim das contas. No fundo do coração, ela não pensa dessa forma, mas prefere mentir para se adequar e evitar brigas, comportamento muito comum entre as mulheres com relacionamentos complicados.

Theresa, que tem a relação mais desconstruída de todas, traz para o seriado a questão do mercado de trabalho. Ela escreve para uma revista feminina da época, mas é a única mulher da redação. A publicação é totalmente escrita por homens que assinam os textos com nomes de mulheres. Não é segredo o quanto revistas de comportamento influenciam jovens e adultas e o resultado de um material escrito totalmente por homens é que são eles que ditam o que é tendência e quais são os comportamentos “adequados” daquela sociedade. Além disso, há o próprio dia a dia da redação, em que Theresa ouve os pequenos preconceitos que estão normalizados ali: já temos uma mulher, não precisa de outra; mulheres são muito emotivas; essa é muito jovem, vai engravidar logo.

E há Adélia, a mulher negra que traz uma luta totalmente diferente de todas essas citadas acima. Porque além de lidar com tudo isso, ela também enfrenta o racismo. A série é certeira ao mostrar que não são grandes vilões e monstros que discriminam Adélia pela cor de sua pele. Ela ouve isso de pessoas cruéis, mas também ouve das próprias amigas e pessoas próximas, revelando que o preconceito pode estar em qualquer pessoa e precisa ser trabalhado. Há ainda outro ponto interessante: assim como as outras mulheres, Adélia conquista seu espaço com o desenvolvimento dos episódios, mas o racismo não muda: ele está do primeiro ao último episódio, evidenciando o quanto o peso que ela carrega é muito maior do que das outras.

Por fim, Coisa Mais Linda mostra o quanto o machismo daquele tempo também prejudica os homens. Claro, a carga deles é menor, mas eles também sofrem, por exemplo, quando uma mãe chama os filhos de “fracos” porque eles demonstram sentimentos. Se as mulheres da época precisavam ser delicadas e donas de casa, os homens tinham o papel de ser fortes e provedores. Qualquer coisa que saísse desse padrão era considerado errada.

Como dito anteriormente, a série termina com um gancho interessante para a segunda temporada e, com todos esses temas, há muito potencial para o desenvolvimento de discussões e personagens interessantes. É preciso corrigir a questão do ritmo e dos diálogos expositivos, tão comuns na TV aberta, mas se tiver coragem para fazer isso, Coisa Mais Linda é uma aposta promissora (e encantadora) para o futuro.

Nota do Crítico
Bom