Champions – 1ª Temporada

Séries e TV

Crítica

Champions – 1ª Temporada

Comédia produzida por Mindy Kaling tem boas piadas e boas intenções

Henrique Haddefinir
04.07.2018
12h02
Atualizada em
04.07.2018
12h24
Atualizada em 04.07.2018 às 12h24

Dificilmente alguém que assistiu sitcoms nos anos 1980 e 1990 não vai sentir a presença silenciosa de uma plateia ao vivo assistindo os enredos inofensivos de Champions, a comédia da NBC que entrou no catálogo do Netflix recentemente. Ainda que a pequena transgressão da série esteja presente no enredo, uma olhada rápida faz parecer que estamos diante de um Two and a Half Men contemporâneo, onde as aventuras de seus protagonistas, dessa vez, só são mais conscientes, politizadas e referencialmente espertas.

Produzida por Mindy Kaling (que está no elenco de Oito Mulheres e um Segredo), a comédia se impõe na programação da NBC no mesmo lugar onde já estiveram The New Normal e Apartment 23, ambas comédias com um texto transgressor e afiado, que tiveram uma vida curta por não representarem os números esperados pelo canal. Champions já sofreu o mesmo julgo. Se nenhum outro canal se interessar pela série, ela estará no limbo das produções mal compreendidas pela produção executiva da emissora. Ainda que não seja fantástica, Champions é honesta com seus objetivos e em alguns momentos consegue mesmo ser engraçada.

Não podemos nem dizer que as razões para seu cancelamento tenham a ver com o fato de ter um “nicho” específico. Embora o universo gay esteja muito presente na trama, a NBC é dona de Will & Grace, um dos maiores baluartes da diversidade que a televisão já viu. Talvez, então, o grande diferencial seja o elenco, o que explica um pouco das reações. Champions se salva no texto, mas não tem um time de atores tão campeão assim.

Two and a half gay Man

A história de Champions é absolutamente básica: dois irmãos vivem como solteiros inveterados e tudo muda quando um deles descobre que tem um filho adolescente gay. Colocamos as coisas assim em virtude de uma sinopse, porque o fato de Michael (J. J. Totah, que vimos na última temporada de Glee) ser gay não é considerado o grande plot da série em momento algum. Mindy (que faz a mãe do garoto) decidiu oferecer esse como o diferencial. Não é o fato de Michael ser gay que move a trama, é o fato de Vince (Anders Holm) ter um filho.

Como acontece em toda trama do tipo, há uma série de coadjuvantes bizarros que aqui, transitam pela academia decadente que os dois irmãos administram. Esse “humor de escritório” é parte da formação de Mindy, que não usa disso para tentar fisgar todas as fatias de público possíveis. Vince e o irmão Matthew (Andy Favreau) tem certa ternura, não são machistas misóginos; e é bom ver como a homossexualidade de Michael é tratada por eles com extrema naturalidade.

O melhor da atração, contudo, está nos diálogos do próprio Michael, que declama um verdadeiro arsenal de referências de cultura pop. Ele quer ser um astro, então não faltam provocações a celebridades, citações de filmes e séries; e opiniões polêmicas sobre coisas que estão em vigência midiática no momento. Champions é uma série de texto, não de acontecimentos. E embora o texto de Michael seja ótimo, muitas vezes a presença cênica de Totah é insegura, faltando mais peso na direção de seus movimentos ou mesmo na entrega e manutenção de suas expressões. Às vezes parece que ele está sempre com uma expressão de quem espera a próxima ordem. Ainda assim, Michael e uma funcionária da academia chamada Ruby (Fortune Feimster) são a alma da série e acabam engolindo os outros.

Não é como se Champions fosse fazer falta. Provavelmente em dias ninguém mais se lembrará dela. Suas qualidades estão mais no que ela representa do que no que ela executa. Mesmo assim, uma segunda temporada será bem-vinda. Nem Will & Grace  sabia onde estava em seus primeiros passos.

Nota do Crítico
Bom