Imagem de Castle Rock

Créditos da imagem: Castle Rock/Hulu/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Castle Rock - 2ª temporada

Segunda temporada mantém a natureza sombria na obra de Stephen King, mas tropeça com a manipulação de referências

Henrique Haddefinir
19.12.2019
15h36

Acompanhar uma adaptação é difícil para qualquer fã de literatura, porque é impossível cumprir todas as expectativas e, no processo de tentar fazê-lo, uma adaptação também pode perder sua identidade e virar uma simples cópia do original. Levando isso em consideração, o trabalho de criação da série Castle Rock fica ainda mais admirável, já que ao escolher adaptar um universo e não uma obra específica, os roteiristas podem acessar personagens e situações sem o compromisso de respeitar exatamente a criação deles.

A primeira temporada da série foi fundo nessa premissa e tinha tantas preocupações em manter o aspecto sombrio da obra de Stephen King que chegou a soar ligeiramente hermética, com um sentido e um objetivo não exatamente detectáveis. A Castle Rock construída por Sam Shaw e Dustin Thomason tinha exatamente todos os elementos da cidade que foi explorada em tantos livros de King, mas a costura narrativa proposta por esse primeiro ciclo em muitos momentos parecia ter um planejamento complexo demais.

Talvez por isso a segunda temporada tenha sido encomendada com outro tipo de exigência. O suspense e o horror de algumas situações ainda estavam lá, mas a trama desse segundo ano surgiu com uma clareza bem maior. Além, é claro, de uma assumida inspiração na maneira como American Horror Story manipulou o gênero da antologia: mesmo que as histórias sejam totalmente independentes, uma vaza para dentro da outra, deixando para o espectador o papel de construir as linhas do tempo e perceber as referências. A questão aqui é justamente a maneira como a segunda temporada decidiu fazer isso.

O Lugar Sorridente

Calculadamente, a temporada abre ao som de "Let the River Run", interpretada por Carly Simon, que em sua letra fala de uma tal de Nova Jerusalém. É a primeira pista dos roteiristas sobre o crossover bastante peculiar entre a história de Annie Wilkes (Lizzy Caplan) e Jerusalem’s Lot, a cidade vizinha a Castle Rock e que também foi palco de algumas histórias de King. Então, as estranhezas começam. Misery, de onde saiu a personagem Annie Wilkes (que rendeu um Oscar a Kathy Bates quando foi adaptada para o cinema), é um dos poucos livros não-sobrenaturais do autor. Já Salen’s Lot, o segundo livro da carreira de King, é completamente sobrenatural.

Nos primeiros episódios a história se foca totalmente na exploração da relação entre Annie e a filha Joy (Elsie Fisher), com algum investimento também na relação entre Pop Merrill (Tim Robbins, escalado por conta de seu personagem no longa Um Sonho de Liberdade) e sua família, formada por herdeiros do clã Merrill (conhecidos dos livros Conta Comigo e Trocas Macabras) e por filhos adotivos vindos da guerra. Ace Merrill (Paul Sparks) tem uma tradição de psicopatias na obra de King, mas os filhos adotivos de Pop, vindos da Somália, são fortemente defendidos por Yusra Warsama e Barkhad Abdi.

A interpretação de Caplan para uma personagem tão icônica é notória, forte, respeitável. E acaba sendo o centro das atenções nesses primeiros momentos. Até que, um pouco mais adiante, o passado de Jerusalem’s Lot começa a ser explorado e os episódios marcham para uma direção inesperada, em que os vampiros do romance são substituídos pela bruxaria que remete ao passado mais distante da cidade. Ao sabermos que o cenário de A Hora do Vampiro estaria na temporada as expectativas aumentaram, sobretudo porque o romance é um dos mais catárticos de King e mesmo não se passando em Castle Rock, tem muito da claustrofobia que ela exala.

Porém, as decisões tomadas foram outras. A correlação que a história estabelece com o romance ainda está visível na maneira como a cidade inteira começa a ser invadida por uma espécie de epidemia que transforma aqueles que são “escolhidos” pela força sobrenatural que rege a trama. O problema é que a decisão de explorar Salen’s Lot junto com Misery bifurca a narrativa e uma coisa não necessariamente casa com a outra. Os roteiristas até se esforçam para inserir Annie naquele contexto, mas ela parece deslocada justamente porque aquele não é o universo que a constitui. Tanto que quando toda a loucura com a cidade é resolvida, o season finale retorna para a trajetória individual de Annie, como se tudo aquilo nem tivesse acontecido.

A sensação que fica é de que uma temporada só sobre Salen’s Lot teria sido menos confusa. Uma temporada só com Annie, idem. Quando as duas narrativas se encontram, acontece um certo exagero criativo que mesmo condizente com a dificuldade de King em enxugar seus finais, retira da produção parte de sua elegância. Os minutos finais, entre Annie e a filha, com a esperta descoberta da série de livros de Paul Sheldon (que ela atormentará anos depois), recuperam a sensatez do roteiro e mostram como uma temporada sem personagens catatônicos e sacrifícios para ressuscitação teria sido melhor. Ainda foi bacana ver as temporadas se interligando, mas esse ano foi de Annie e ela deveria ter sido a única dona dele.

Ainda há esperanças de um terceiro ciclo e mesmo que Trocas Macabras tenha sido o último livro que se passa na cidade de Castle Rock, seria interessante ver uma história absolutamente centrada na rotina da cidade. Todas as qualidades da série também são parte daquilo que a torna impopular e talvez não se deva pensar em muitos anos pela frente. O que tiver de ser feito para explorar esse CEP tão sombrio deve ser feito enquanto ainda há tempo.

Nota do Crítico
Bom