Bill Skarsgard em Castle Rock, do Hulu

Créditos da imagem: Castle Rock/Hulu/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Castle Rock - 1ª Temporada

Seriado inspirado na obra de Stephen King honra o universo do autor - até mesmo nas complicações com finais

Henrique Haddefinir
15.09.2018
19h02

Quando a saga A Torre Negra chegou ao fim – depois de sete livros – os fãs de Stephen King puderam ter uma espécie de redenção depois de anos tentando defender o escritor de suas dificuldades para terminar suas obras. Extremamente competente em detalhar cenários, emoções e personalidades, King priorizava a jornada do suspense, mas tinha problemas em revelar o que estava por trás da relva. Os leitores passavam páginas e páginas vidrados no mistério, mas principalmente em seus anos de ouro (70 e 80), o autor dava explicações estapafúrdias para a rede de suspense que ele mesmo criara. Algumas vezes as explicações nem vinham ou em tramas não-sobrenaturais, eram atrapalhadas por uma severa prolixia.

A Torre Negra, contudo, veio como um bálsamo depois de tanta peleja.Durante a leitura dos sete livros, personagens e criaturas vistas em várias das obras do escritor reaparecem - ele mesmo aparece em um dos universos - e com isso nos informa que desde que sua carreira começou, alguns de seus trabalhos terminaram sendo parte de um plano maior. Esse plano não fazia sentido antes. Agora, com Castle Rock, ele faz.

Dito isso, os fãs que lerem a saga de Roland sentirão a série de uma maneira; e os que não leram, de outra. É como se os que não leram a saga fossem como os fãs pré-Torre e passassem boa parte do tempo tentando entender o que o final quer realmente dizer. Ainda que os fatos sejam não dependam de informações prévias, o conhecimento do mundo do escritor ajuda muito a fortalecer a perspectiva do conjunto. Castle Rock é uma série que une referências, logo nada mais adequado do que estar ciente delas. Mas o programa consegue funcionar como narrativa isolada para o espectador mais leigo.

A trama começa com a descoberta de um homem preso numa jaula, dentro do presídio de Shawshank. Ele não fala com ninguém, não diz o próprio nome (passamos a chamá-lo de Kid) e só repete a mesma coisa: Henry Deaver (André Holland). Henry é um advogado que volta a Castle Rock para investigar o caso. Seu retorno é tomado de tensões, já que quando criança, ele desapareceu, foi reencontrado e adotado pelo pastor da cidade, que acabou morrendo misteriosamente.

Henry acabou sendo considerado suspeito da morte do pai adotivo e foi embora da cidade assim que possível. Portanto, a volta dele para investigar o aparecimento de Kid converge numa rede de novos acontecimentos bizarros em Castle Rock, longamente conhecida como uma cidade tomada de uma energia macabra e mortal.

A simplicidade da premissa encontra a complexidade da forma como é descrita. De braços dados com o estilo contemporâneo de se contar histórias, a série não se poupa de hermetismos estilísticos e, em boa parte do tempo, não é clara sobre nada: faz um monte de curvas, hesita e esconde, não dá um passo para frente sem dar dois para trás e assume o risco de ser cansativa. Em tempos em que fragmentação é moda, ser linear passou a ser incomum. O programa vai do início ao fim complicando tudo, mas faz isso com extrema elegância, cheia de segurança, provocando a ideia de que mesmo que seja apenas para nos distrair, sabe o que está fazendo.

Nublada e com cores frias, as cenas da cidade remontam ao melhor do estilo de King. Várias de suas histórias se passaram em Castle Rock - a última foi Needful Things, de 1991 - ou em cidades próximas a ela - Chester's Mills, de Under the Dome, é vizinha direta. A ideia nunca foi lançar mão de personagens ou tramas situadas nesse universo, mas usar a energia e a atmosfera do lugar como vetor narrativo. Vez ou outra, referências de filmes e livros surgem em easter eggs bem calculados, mas não se intrometem na trama central e no curso das coisas. Depois de alguns episódios, caçar easter eggs deixa de ser o atrativo principal e passa a ser um detalhe que só ajuda a enriquecer a experiência.

Sam Shaw e Dustin Thomason, criadores do seriado nos provocaram de todas as formas que puderam. Transformaram Alan Pangborn (Scott Glenn), personagem de Needfull Things, em um dos nomes mais importantes; e até trouxeram Sissy Spacek, a eterna Carrie White, para viver Ruth Deaver, a mãe adotiva do protagonista: Spacek, inclusive, protagonizou um dos mais belos episódios que vimos esse ano na TV.

Compondo o elenco, outra provocação veio na contratação de Bill Skarsgard para viver Kid: ele é o rosto de Pennywise, no recente It: A Coisa. Melanie Linskey termina a escalação principal vivendo a sombria Molly, tipo de personagem comum com características sobrenaturais que é recorrente na obra de King.

The kid isn't alright

Montar a estrutura narrativa de Castle Rock não é uma tarefa fácil. Os criadores entregam um penúltimo episódio como o dos mais claros da temporada, mas o season finale reproduz todos os traços herméticos presentes desde o início. A ideia de que a cidade faz parte do enredo que conduz a obra de King - sendo uma das fendas no espaço-tempo que foram alargadas pelo enfraquecimento do eixo que segura as realidades – é extremamente coerente com as razões pelas quais a série foi produzida. Porém, quando é preciso focar no papel de Kid na trama, fica perceptível a batalha do roteiro pela contextualização desses dois pontos da dramaturgia. É possível achar que eles foi feito o possível, mas leigos no trabalho do autor podem achar que não a produção não sabia o fazer o melhor.

Dado a epílogos, o escritor trava seus finais com elipses que – no fundo – poupam-no de resolver as armadilhas onde se colocou. A série apela para o mesmo recurso: depois de mais insinuações do que poderia ser a essência de Kid, há um corte súbito e um epílogo que literalmente leva parte do mistério para o mesmo lugar do início. O loop também é condizente com a trama, e pode ser que a próxima temporada ainda aproveite alguns elementos .

Ansiosos por conclusões tem seus motivos para se frustrarem. King melhorou seus finais nos últimos 20 anos, mas ele ainda é o mesmo. O final de It pode ser controverso, mas ler o livro ainda será uma das melhores experiências para qualquer um que se arrisque nas mais de mil páginas. É mais ou menos isso que deve ser levado em consideração na hora de avaliar Castle Rock.

Ano que vem pode ser que Jackie Torrance (Jane Levy) passe a ser o olhar panorâmico que corresponda ao autor desse universo, que é tão importante para a construção das nossas sensações diante da obra. Se a série fizer mais um leitor de King, já terá feito valer a pena.

Nota do Crítico
Ótimo