Imagem de Carnival Row

Créditos da imagem: Carnival Row/Prime Video/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Carnival Row - 1ª temporada

Série do Prime Video usa fantasia para tratar de temas importantes, mas se perde em clichês narrativos

Camila Sousa
29.12.2019
09h54

Anunciada como uma das grandes produções do Prime Video em 2019, Carnival Row tem uma premissa interessante. Com Orlando Bloom e Cara Delevingne no elenco principal, a série mostra uma era vitoriana com um filtro de fantasia. Aqui, humanos, fadas, faunos e outras criaturas mágicas convivem juntas em um mundo cheio de violência e preconceito. No entanto, ainda que tenha temas relevantes, a série perde força por conta dos clichês.

Começando pelos pontos positivos, é estabelecido um passado concreto para a situação atual. Homens e fadas já estiveram em guerra e uma traição fez com que o segundo grupo, junto com outras criaturas mágicas, precisasse encontrar uma forma de sobreviver no mundo dos humanos. Essa é apenas a primeira de várias analogias que a série faz sobre o mundo real. Se aqui há um paralelo com os refugiados, que são expulsos de suas casas e precisam encontrar um novo lar após a guerra, há vários outros exemplos. Faunos, fadas e outras criaturas mágicas vivem à margem da sociedade em empregos que pagam pouco, ou mesmo nas ruas, vendendo produtos e tentando de tudo para ter o que comer. No caso das fadas, que têm um visual muito parecido com os humanos, há ainda os bordéis, já que, apesar do preconceito dos humanos, há uma fetichização da figura da fada e seus “encantamentos”.  

A série é praticamente toda conduzida em cima de tais comparações: criaturas com visuais mais “aceitáveis” conseguem empregos melhores; a protagonista, vivida por Delevingne, precisa esconder suas asas em certo momento com um espartilho; e quase todas as cenas envolvendo autoridades mostram seu desprezo por aqueles que são diferentes. Há xingamentos, como “pixie”, dito como uma forma pejorativa de se referir às fadas, entre vários outros exemplos.  

Fazer tais analogias com os preconceitos que ainda permeiam a sociedade atual é o ponto alto de Carnival Row. Ainda que muitas cenas sejam repetitivas - há vários conceitos que retornam durante a temporada - elas são muito reais. Sabe aquela famosa frase “não tenho preconceito, tenho até amigos que são”? Ela se aplica ao mundo de Carnival Row, em que os humanos convivem com as criaturas, mas só as aceitam se elas estiverem um nível abaixo.

Esse ponto traz, sem dúvidas, a história mais marcante da série: a ascensão do fauno Agreus Astrayon. Ele é uma criatura mágica que conquistou suas próprias posses e quer entrar nesta sociedade que tanto o despreza. Agreus sabe o efeito que sua presença causa nas pessoas, que ficam cochichando pelos cantos e frequentemente o confundem com um empregado. Curiosamente, parece que ele até se diverte com certas reações, embora o real motivo de suas ações seja revelado nos episódios finais: ele conscientemente força sua presença nos espaços para que, um dia, ela não seja tão estranha assim. 

Em paralelo, há o desenvolvimento de Imogen Spurnrose. Criada em uma família rica, mas que atualmente passa por dificuldades, Imogen começa a série como um retrato do preconceito. Ela se sente quase ofendida quando Agreus compra uma propriedade ao lado da sua. É fácil detestar a personagem, fruto de uma criação cheia de intolerâncias, mas é interessante como a série mostra seu desenvolvimento. Pouco a pouco, Imogen vê quem Agreus é de verdade e o envolvimento dos dois é tão belo que até destoa do resto da série. Apesar disso, o arco dos dois é bem desenvolvido, o que não pode ser dito do casal de protagonistas.

História de um amor batido

Desde o começo, Carnival Row deixou claro seu ponto fraco: o roteiro cheio de clichês. A história de amor impossível entre Philo (Bloom) e Vignette (Delevingne) tem diálogos sofríveis, especialmente nos primeiros episódios. Quase consciente disso, a série reservou um episódio inteiro de flashback para mostrar como os dois se conheceram, ainda na época da guerra, e se separaram quando ele fingiu estar morto. O capítulo dá mais consistência para a relação dos dois, mas não muda o fato de que eles não funcionam em cena. Parece que tanto Bloom quanto Delevingne sabem que estão com um texto fraco. As frases soam artificiais no momento em que saem de suas bocas. 

Como se já não bastasse tantos temas, a série apresenta ainda um grande mistério para o inspetor Philo resolver. Pessoas e fadas estão morrendo de formas brutais e, como uma autoridade da cidade, ele precisa desvendar o caso. Sem revelar muito, a resolução de quem é o assassino e suas motivações não poderia ser mais novelesca. Tudo parte, no fim das contas, de um desejo incessante de poder. Os atores que representam tal desfecho até vão bem, mas o arco tem elementos que já foram exibidos à exaustão em filmes e séries. 

Carnival Row volta a ganhar força em suas cenas finais, quando retoma a questão do preconceito. Há um crime de ódio cometido pelas criaturas mágicas e toda essa narrativa é bem desenvolvida, ainda que em segundo plano. É mostrado como um grupo extremista, revoltado após anos de maus tratos, resolve se vingar dos humanos e isso gera o ato que alguns precisavam para justificar medidas extremas. Aqueles que odeiam as criaturas mágicas só estavam esperando um “deslize” para criar a imagem de um grande “inimigo em comum” e tomar medidas drásticas que remetem aos campos de concentração nazistas e deixam ganchos para a já confirmada segunda temporada.

O saldo de Carnival Row é irregular. A série tem uma boa premissa, mas o roteiro cheio de clichês faz com que uma história que poderia ser muito poderosa, perca força. Com a segunda temporada confirmada, é esperar que a Amazon mantenha os temas relevantes, corrija esses problemas pelo caminho e entregue, de fato, uma obra que tem tudo para ser muito mais relevante do que foi até aqui.

Nota do Crítico
Bom