Foto de Carmen Sandiego

Créditos da imagem: Carmen Sandiego/Netflix/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Carmen Sandiego - 1ª temporada

Série animada da Netflix é visualmente encantadora, mas sem coração

Camila Sousa
21.01.2019
17h48

Existem personagens com características tão icônicas que se tornam sinônimo do que fazem. O Mestre dos Magos, por exemplo, é conhecido por seus famosos sumiços após uma frase de efeito. Não é raro pessoas que fazem algo parecido ganharem o apelido da figura de Caverna do Dragão. Algo semelhante acontece com Carmen Sandiego, personagem criada no universo do games que ganhou uma animação na década de 90. A detetive/ladra era perseguida pelos agentes Zack e Ivy, enquanto viajava misteriosamente para várias partes do mundo. A famosa pergunta (que também dá nome ao desenho) Em que lugar da Terra está Carmen Sandiego? reflete o quanto a personagem era intrigante e se tornou símbolo do universo enigmático das investigações.

Criada por Duane Capizzi (As Aventuras de Jackie Chan), a animação de Carmen Sandiego feita para a Netflix carrega pouco dessas características. Ao invés de ir com os agentes no encalço da protagonista, o público aqui está ao lado dela e isso acaba com grande parte da mística ao redor da personagem. Os dois primeiros episódios do seriado têm literalmente o título de “Quem é Carmen Sandiego” e contam toda a história de como a garota órfã resgatada se tornou uma das pessoas mais espertas do mundo.

Isso condiz com a proposta do desenho, que é diferente das obras anteriores da personagem: a Carmen com voz original de Gina Rodriguez foi criada dentro da academia de ladrões e se tornou a melhor deles. Mas quando descobriu o que precisaria fazer ao se formar (incluindo ameaçar a vida de outras pessoas), ela escolheu deixar a ilha, viver no mundo real e fazer de tudo para frustrar os planos da agência dos vilões. Se nos desenhos e animações clássicas o público tentava descobrir quem era Carmen Sandiego, aqui sua proposta é bem clara. Mas isso tem lados positivos e negativos.

Ao mostrar toda a origem da personagem, era esperado que o desenho criasse um grande sentimento de empatia. Afinal, se o público entende as motivações de Carmen, imediatamente vai se preocupar com todas as suas emoções. Mas a proposta da Netflix é de algo bem mais simples, com foco na ação e aventura e menos nos sentimentos. Existem sim momentos de desenvolvimento mais dramático, principalmente quando ela tem o aguardado “encontro com sua mentora”, mas nenhum deles é memorável. Dessa forma, a Netflix eliminou o clima de mistério sobre Carmen Sandiego, mas não entregou uma profunda relação com a personagem que justificaria a mudança.

De modo leve, a animação toca em assuntos como personalidade e a necessidade de se adequar ao ambiente ao seu redor. Enquanto estava na academia, Carmen tinha o apelido de Ovelha Negra e isso tinha relação com sua vida lá. Apesar de se destacar, era conhecida por não gostar de seguir as regras rígidas do local. Enquanto crescia, queria alcançar o sucesso em seus próprios termos, algo que se tornou realidade com a fuga da ilha. Nada disso alcança outras camadas de discussão, mas ainda assim está presente.

Visualmente, Carmen Sandiego é encantadora. O traço dos personagens, por exemplo, tem muitas variações que refletem as personalidades de quem está em tela. Carmen é magra e esguia, o que combina com seus movimentos ágeis, já o detetive Chase Devineaux, que mantém a mente fechada em toda a investigação, tem traços mais quadrados. Outro ponto visual que chama a atenção é como os cenários ao redor dos personagens carregam traços clássicos, beirando um desfocado que acrescenta charme e combina com o clima noir do desenho.

Quando a Netflix anunciou que faria um novo desenho de Carmen Sandiego, os fãs que já conheciam a personagem ficaram empolgados com as possibilidades. Em uma realidade com animações feitas para o público adulto (BoJack Horseman) e outras infantis, mas carregadas de subtexto (Hora de Aventura, Steven Universo), as possibilidades para a detetive eram enormes. Mas o serviço de streaming escolheu seguir um caminho comum, que pode entreter crianças menores e distrair levemente os adultos, mas não vai além disso.

Nota do Crítico
Bom