Entre o ufanismo e o fato, Brasil 70 é espetáculo que a seleção do Tri merece
Produção da Netflix ultrapassa as lendas em campo para contar uma história, acima de tudo, sobre a paixão pelo futebol e os símbolos nacionais
É quase impossível que você nunca tenha ouvido de alguém mais velho — pais ou avós — que a maior seleção da história do Brasil e do futebol foi a de 1970. Pelé, Gerson, Tostão, Jairzinho e todos os outros viraram símbolos que perseguiram qualquer convocação posterior. Não é à toa — e até demorou para acontecer — que, às vésperas da Copa do Mundo de 2026, finalmente tenhamos essa história contada. Brasil 70: A Saga do Tri, nova minissérie da Netflix, narra os passos do "escrete" e do país naquela época, dando, claro, uma piscadinha para o cenário atual também.
Como em uma boa crônica esportiva, a produção escolhe seus personagens e, a partir deles e dos fatos, floresce o imaginário com os excessos que a paixão nacional permite. Contar histórias cujo final já conhecemos, tal qual os artigos que acompanhavam vitórias e derrotas nos jornais da época, não é tarefa fácil. Como engajar o público a acompanhar uma trama que já sabemos como termina, com suas reviravoltas e conquistas previsíveis? Brasil 70 escolhe o melhor caminho possível ao escalar o triângulo mágico formado por Pelé (Lucas Agrícola), João Saldanha (Rodrigo Santoro) e Zagallo (Bruno Mazzeo) como as engrenagens principais.
No meio do turbilhão que envolvia a ida da seleção para a Copa do Mundo do México, os três foram as figuras centrais. O Rei do Futebol estava desacreditado e era dado como acabado por alguns. Saldanha montou o time e classificou o Brasil para a Copa, mas acabou retirado do cargo por seus conflitos com a Ditadura Militar, que também comandava os bastidores do futebol via João Havelange (Nelson Baskerville). E Zagallo entrou no lugar de João sob a suspeita de todos, mas desde sempre teve o coração de Pelé ao seu lado.
Os arquétipos do trio são muito bem definidos, e o roteiro trabalha ufanismo e fatos históricos — precisos ou ficcionalizados — de forma perfeita para entrelaçar suas jornadas. O texto manipula os sentimentos do espectador com precisão, seja para amar, odiar, suspeitar ou entender os dramas de cada um. Com Pelé, temos a jornada do herói quebrado, que carrega a pressão do título de Rei e precisa entender seu papel entre o ídolo do futebol e a imagem usada pelos militares como sinal de progresso de um país em frangalhos sociais. Saldanha, por sua vez, é o esquentado que bate de frente com o sistema, mas carrega o amor pela pátria e pelo escudo no peito. Já Zagallo é o “novato” que precisa provar, entre suas excentricidades, que tem o que é preciso para ser um vencedor.
Tudo ganha ainda mais intensidade com a escolha do elenco. O trio principal mistura bem a caracterização precisa com a liberdade de criar momentos íntimos que nunca vimos. A semelhança entre Lucas Agrícola e Pelé é assombrosa. Sem cair na caricatura, mas mantendo frases e expressões marcantes, o ator consegue dar ao Rei do Futebol uma camada humana que permite a escalada gradual até o Olimpo deste deus do esporte. O mesmo vale para Santoro, que, ao lado de Marcelo Adnet, vira também a voz que narra a caminhada da seleção na competição. O destaque vale para todo o elenco, diga-se. As caracterizações — especialmente de Fillipe Soutto como Gérson, Gui Ferraz como Jairzinho, Daniel Blanco como Rivelino e Caio Cabral como Carlos Alberto Torres — são excelentes e acabam elevadas pela qualidade técnica da produção.
Poucas vezes o futebol foi tão bem representado em tela como em Brasil 70. A direção das cenas de jogo e a recriação de momentos icônicos dão um banho em outras produções sobre o esporte, como Ted Lasso, por exemplo. É notável a paixão dos realizadores pelo esporte: as jogadas ganham um tratamento visual que beira as histórias de super-heróis e os animes, ganhando um ar mítico. O uso do slow-motion, ainda que excessivo, transporta para a tela o sentimento de prender a respiração quando um gol ou uma jogada incrível acontece. É um retrato que marca a memória de qualquer fanático por esporte.
Essa crônica esportiva audiovisual ainda expande seus horizontes para falar de superstição, heróis e tragédias do passado, como no ótimo episódio que relembra o trauma da Copa de 1950 e a injustiça que assolou o goleiro Barbosa, arqueiro histórico do Vasco da Gama e do futebol brasileiro, até o fim de sua vida. As trevas da Ditadura Militar também acompanham a jornada, com militares fardados e armados aparecendo em quase todos os cenários, no Brasil e no México, mostrando sua influência direta no dia a dia do time e de seu maior astro, além da opressão óbvia do regime nas ruas do país.
Brasil 70, então, traça um paralelo com o Brasil de 2026. A poucos dias do início da Copa do Mundo atual, a seleção vive um momento de descrédito semelhante. O grande ídolo da atual geração também é questionado por grande parte da mídia e da torcida. Além disso, o símbolo da seleção brasileira, a camisa canarinha, tal qual na Copa de 1970, foi sequestrado por discursos patrióticos que defendem um Estado acima das leis e dos direitos da população.
Já próximo da final, João Saldanha deixa claro que, independente de quem tente se apoderar do verde e amarelo, no fim das contas a camisa da seleção brasileira será sempre do povo — aquele que pinta as ruas, que chora e se emociona (e que ganha uma representação simpática na série com um casal que viaja ao México aos trancos e barrancos).
Brasil 70: A Saga do Tri é uma obra pop, com ritmo frenético e que lembra muito Senna (também da Netflix) em alguns momentos, mas se mostra ainda melhor resolvida no que se propõe. A série emociona não só pela conquista de Pelé e seus companheiros, mas por reviver um sentimento que foi tirado de nós desde o 7 a 1 para a Alemanha e o período político que se seguiu. O sentimento de voltarmos a ser torcedores ingênuos, apaixonados e sem vergonha de assumir que nos importamos, sim, com a seleção brasileira, com nossos símbolos e com um território que sempre dominamos: a Copa do Mundo.
Brasil 70: A Saga do Tri
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