Boneca Russa

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Boneca Russa - 1ª Temporada

Nem a premissa, nem a protagonista, nem as soluções de Boneca Russa são originais, mas mesmo assim ela funciona

Henrique Haddefinir
20.02.2019
15h19
Atualizada em
20.02.2019
15h39
Atualizada em 20.02.2019 às 15h39

Qualquer bom fã de cinema ou de televisão que assista aos primeiros episódios de Boneca Russa, produção da Netflix criada por Amy Poehler, Natasha Lyonne e Leslye Headland, vai perceber imediatamente que não está assistindo nada de novo. O cinema está tomado de histórias sobre o mesmo dia sendo vivido inúmeras vezes, várias séries de TV tem seu clássico episódio do mesmo dia sendo vivido em looping. O recente e despretensioso A Morte dá Parabéns tem uma premissa parecidíssima: uma menina com hábitos transgressores morre no dia do aniversário e precisa viver o mesmo dia um monte de vezes, até descobrir o que deu errado para prendê-la nesse ciclo. É extremamente semelhante e ainda que a série da Netflix seja mais polida, sua força fica questionável diante dessas evidências.

A presença de Natasha Lyonne no elenco também merece destaque tanto pelos aspectos positivos quanto negativos. Natasha tinha uma carreira regular no cinema e foi apenas com Orange is the New Black que alcançou extrema notoriedade. Sua personagem na série era peculiar... Nicky era lésbica, viciada em drogas, álcool, extremamente autodestruitiva e desgrenhada. E, ainda assim, carismática. Era muito difícil encontrar alguém que não tivesse por ela um extremo carinho e uma extrema torcida. Eis que, depois de se ausentar da série por algum tempo, Lyonne surge em Boneca Russa com uma cópia quase exata de Nicky. Nadia não é lésbica, mas está cercada delas. Seus modos são igualmente autodestrutivos. As drogas, o álcool, o cigarro que não sai da boca, a sarjeta eventual e nenhuma preocupação nem mesmo em imprimir na protagonista uma linguagem corporal diferente. É como se a vida de Nadia fosse um dos flashbacks de Nicky.

O fato da atriz ser também uma das criadoras de Boneca Russa revela o seu absoluto fetiche pelo tipo de personagem que construiu. Ela criou, escreveu e até dirigiu episódios, onde também atuava, formando um pacote de controle criativo absoluto. Há pouco do humor constrangedor de Poehler e muito do humor cínico de Lyonne. A questão toda aqui é saber se ela conseguiria fazer o público torcer por outra personagem tão transgressora, da mesma forma que ela conseguira fazer em Orange. De fato, são construções tão semelhantes que não é surpreendente que ela tenha conseguido. Boneca Russa é uma explosão de tudo que já foi visto sobre o assunto. Mas, ainda assim, é impossível parar de assistir.

Como sempre, esse tipo de dramaturgia começa do mesmo jeito. Nadia é uma programadora de games que está na própria festa de aniversário, organizada pelas amigas, aproveitando mais um dia das mesmas coisas. Até que ela morre, subitamente, num atropelamento; e volta para o mesmo momento onde tudo começou, no banheiro da festa. Nas primeiras vezes ela pensa que a sensação de déjà-vu foi provocada pelas drogas, mas aos poucos vai ficando claro que está presa num looping de retornos, morrendo no mesmo dia, de formas diferentes, até que as pequenas diferenças entre esses retornos vão revelando uma trilha de pistas que a levam enfrentar a obrigação de resolver o que está a impedindo de seguir em frente, morta ou viva.

Durante a primeira metade da temporada o apelo da série se concentra na comédia em torno das descobertas de Nadia. Ela usa um monte de drogas, passa um longo tempo achando que estava chapada e continua morrendo de formas estúpidas. O texto é bem escrito, abusa desse “humor narcótico” que sai da boca de Lyonne com extrema fluidez, fazendo com que seja impossível não se divertir. É como um desfile de malucos beleza, sem noção nenhuma de realidade, alienados do mundo, com seus traficantes e filosofias entorpecidas. Mas, que se tornam “amigos” do público de uma maneira quase imediata. Ainda que a história vá se desenvolvendo sem grandes surpresas, a sensação de conforto é grande.

A partir da entrada de Alan (Charlie Barnett) na vida de Nadia, os roteiros começam a se sentir obrigados a desenvolver um mitologia. Os estranhos acessos ao passado de Nadia fazem parecer que a produção começou a se levar a sério e então ela acaba perdendo força. A trama faz um check-list em todas as características do gênero: as investigações sobre a vida dos envolvidos, aquele momento em que um não acredita no outro, as pequenas diferenças no tempo, as conclusões sobre precisarem “consertar alguma coisa” e até o nariz sangrando para demonstrar a exaustão do corpo. Boneca Russa vai chegando perto da surpresa final sem oferecer nada de realmente surpreendente, mas faz tão corretamente o que propõe, que as fraquezas mitológicas não ameaçam o produto final. Além disso, o uso de metáforas como a do gato (e suas setes vidas), o peixe-beta (que só pode ficar sozinho no aquário) e até do vídeo-game (onde você continua jogando e “morrendo” até resolver o obstáculo) são bem usadas, escritas com certa elegância.

Enfim, fica a grande pergunta: a série tem gás para uma segunda temporada? O final fechado pareceu preventivo e faz parecer que se o formato fosse antológico, a vida útil seria mais garantida. Por uma temporada, a vida recorrente de Nadia pode ser interessante. Por mais que isso... As camadas de uma boneca russa não são infinitas.

Nota do Crítico
Bom