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Crítica

BoJack Horseman - 4ª Temporada | Crítica

Série acerta em seu quarto ano com o que faz de melhor: tratar de temas profundos com situações absurdas

Camila Sousa
11.09.2017
12h43
Atualizada em
11.09.2017
13h39
Atualizada em 11.09.2017 às 13h39

“Histórias nos confortam, nos inspiram e criam um contexto para nossas experiências no mundo”. É assim que Princess Carolyn começa o último episódio da quarta temporada de BoJack Horseman e isso é um grande resumo de tudo o que essa série animada é. Desde sua primeira temporada, o seriado sempre se destacou por conseguir tratar de temas profundos com situações absurdas, afinal estamos falando de uma realidade bem parecida com a nossa, em que o mundo é habitado tanto por pessoas, quanto por animais que agem como pessoas. Mas o quarto ano conseguiu ir ainda mais fundo nas questões de relacionamento e família, criando uma atração que tem o sentimento agridoce tão buscado por várias obras de entretenimento.

Quando começamos o quarto ano, BoJack Horseman está desaparecido. No fim da temporada anterior, ele quase se entregou à sua tristeza, mas mudou de ideia ao se deparar com algo totalmente diferente de sua realidade em Los Angeles, que remeteu à sua própria natureza. Isso é uma coisa que a série já explorou várias vezes: depois de erros, derrotas e decepções, BoJack foge de sua vida comum e tenta encontrar uma forma diferente de viver, antes de perceber que a mudança física não necessariamente significa uma mudança de personalidade e ele continuará sendo quem é, não importa onde. Apesar de ser um conceito repetido dentro da trama, essa é uma das lições de vida de BoJack Horseman e sua recorrência dentro da série só mostra como esse é um ponto importante para o criador Raphael Bob-Waksberg.

Ao deixar o personagem um pouco afastado no começo, a nova temporada acerta ao desenvolver os coadjuvantes, como Princess Carolyn, Todd e o Sr. Peanutbutter, que agora está concorrendo ao governo da Califórnia. Durante muitos episódios, os paralelos políticos e as situações inusitadas promovem uma boa diversão, principalmente para quem acompanhou de perto as eleições americanas. Não há nenhuma citação direta a Donald Trump, mas as referências são engraçadas e certeiras. Afinal, não é nada estranho disputar o governo de um estado em uma competição de esqui. Em paralelo, Diane teve o papel de levantar discussões pertinentes com a realidade atual, como a falta de segurança das mulheres na sociedade, tema que rendeu tantas frases absurdas que é impossível não rir, apesar daquele gosto amargo de saber o quanto daquilo é verdade.

A temporada também desenvolveu a trama de Princess Carolyn, que foi do céu ao inferno ao longo dos 12 episódios. Prestes a mudar de vida e conseguir algo que sempre quis, Carolyn viu tudo ruir na frente de seus olhos e agiu como os personagens da série costumam agir: de forma exagerada e auto-degradante. Esse arco foi um dos mais emocionantes da série, principalmente pelo apego do público com a personagem. Todos queriam um final feliz para Princess Carolyn e suas derrotas conseguem doer até mais do que as do protagonista.

Já o personagem Todd pareceu um pouco perdido ao longo das tramas, embora participe da maior parte delas. Afastado de BoJack, com quem fazia uma dupla interessante entre o inocente e o mal-humorado, Todd precisou encontrar outras motivações dentro da narrativa e algumas coisas ficaram um pouco forçadas. Uma pena, mas nada que comprometa o personagem por completo ou a temporada.

Voltando para BoJack, a temporada fez um movimento arriscado, porém necessário, ao mostrar mais sobre a família e a origem do personagem. Com isso, sua relação conturbada com os pais ficou mais explicada, mas não totalmente justificada, o que é um grande acerto. A mãe de BoJack é totalmente dura com o filho e nem mesmo todos os problemas e traumas de seu passado podem apagar isso. Afinal, o cavalo protagonista da série não tem culpa das circunstâncias em que veio ao mundo, ou dos sacrifícios de sua mãe, ou de tudo o que aconteceu com ela antes de seu nascimento. A culpa não é de ninguém, a não ser da própria vida.

A introdução de uma suposta filha de BoJack, algo já pincelado no fim da temporada anterior, também levou o personagem em várias novas jornadas de questionamento de sua índole, de sua capacidade e de seu lugar no mundo. Vale destacar aqui o episódio que mostra o que se passa dentro da cabeça de BoJack e como ele consegue tomar decisões tão questionáveis com aqueles que ama. Em seu interior, o protagonista é inseguro, pessimista e tem medo de perder as pessoas, apesar de sempre conseguir fazer algo para afastá-las. BoJack é o protagonista dessa história e, apesar de ser impossível não ter empatia por ele, suas decisões erradas geram um tipo de revolta do público que o acompanha. É exatamente por isso que esse episódio se torna tão importante ao mostrar que, no fundo, ele não é um cara ruim, apenas alguém machucado que comete erros ao tentar lidar com suas feridas. Novamente, a culpa é simplesmente da vida.

Apesar de tocar em tantos pontos pessimistas ao longo da quarta temporada, BoJack Horseman termina mostrando que sim, ainda existe esperança de algo melhor. A vida, aquela mesma que traz coisas ruins a todo momento, também pode ser responsável por trazer algo bom. Não será perfeito, como nunca é. As feridas, dores e traumas ainda estarão com nosso protagonista, como estão com todas as pessoas do mundo, mas ele pode finalmente conseguir se relacionar com alguém de forma completamente verdadeira. Um final agridoce e muito bonito de assistir.

Nota do Crítico
Excelente!