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Crítica

Black Mirror: USS Callister - 4ª temporada | Crítica

Episódio usa paródia de Star Trek para falar sobre insatisfação, idealização e abuso

Natália Bridi
29.12.2017
15h44
Atualizada em
30.12.2017
12h00
Atualizada em 30.12.2017 às 12h00

A narrativa - seja na literatura, no cinema, na TV, ou nos games - é uma rota de fuga para alguns problemas. Na ficção, leitores, espectadores e jogadores encontram uma fonte de descanso (uma história boba para passar o tempo e relaxar), companhia (vendo semelhantes em personagens e situações) e catarse (um meio de extravasar as frustrações da vida diária). “USS Callister”, episódio da quarta temporada de Black Mirror, leva essas “soluções” ao extremo para explorar as consequências das mágoas reprimidas no dia a dia.

Dirigido por Toby Haynes (Doctor Who, Sherlock) e escrito por William Bridges e Charlie Brooker (respectivamente o roteirista do episódio “Shut Up and Dance” da terceira temporada e o criador da série), “USS Callister” faz uma paródia de Star Trek (com um quê de Galaxy Quest) na sua investigação da complicada mente de Robert Daly, interpretado em todas as suas camadas por Jesse Plemons. Como é de se esperar da série, nada é o que parece ser, e a aventura espacial vai aos poucos se transformando em um drama psicológico.

Como Star Trek, porém, o episódio sabe unir profundidade filosófica e humor, o que torna “USS Callister” um dos momentos mais divertidos e interessantes da antologia. Cristin Milioti (mais conhecida por ser a mãe de How I Met Your Mother) faz da oposição ao personagem de Plemons a base para uma criar uma mulher inquieta e debochada e da sua interação com os personagens secundários (interpretados por Jimmi Simpson, Milanka Brooks, Michaela Coel, Billy Magnussen, Osy Ikhile e Paul G. Raymond) nascem as verdades absurdas da colorida ficção espacial.

O contraponto com a realidade monocromática dá consistência a estrutura leve. O mais simples dos diálogos se torna complexo em uma história sobre interação e percepção. Diferentes visões de mundo entram em conflito e posições de poder se alternam para criar uma análise sobre insatisfação, idealização e abuso.

Esse é um capítulo que reúne o melhor da proposta de Black Mirror: a capacidade de entreter e intrigar. As risadas se misturam ao gosto amargo dos questionamentos abertos por uma trama que é acompanhada passo a passo com atenção. Não é recomendado para momentos de busca por mera tranquilidade, mas é um bom e necessário momento de reflexão. 

Nota do Crítico
Excelente!