Foto de Barrados no Baile

Créditos da imagem: Barrados no Baile/Fox/Divulgação

Séries e TV

Crítica

BH 90210 - 1ª temporada

Reboot de Barrados no Baile surpreende e revela uma ótima mistura entre os clichês do passado e do presente

Henrique Haddefinir
13.09.2019
11h06

Quem nunca quis saber como são os bastidores de uma grande série que se tornou um fenômeno mundial? Quem brigou com quem, quem ficou com quem, quais foram os maiores problemas, rivalidades... Praticamente todo fã quer saber se os atores de sua amada produção eram mesmo amigos, se toda a nossa fantasia tinha algum reflexo de realidade. Com o reboot de BH90210 (Barrados no Baile) os fãs não devem acessar muito dessa “verdade”, mas podem ter um gostinho dela e de toda a mitologia que cerca o programa. Considerando as dez temporadas que ocuparam todos os anos 90, tudo que 90210 tem são histórias de bastidores para contar.

Tori Spelling e Jennie Garth lutam pela relevância há muito tempo, mas depois de algumas péssimas ideias que naufragaram rápido, elas foram atrás dos colegas do passado e tentaram convencê-los a encarar um retorno aos seus antigos personagens. A iniciativa poderia ser catastrófica, se elas não tivessem sido espertas ao entregar ao conceito um pouco do humor de metalinguagem que é tão vigente na atualidade. Foi uma grata surpresa. Ao mesmo tempo em que o reboot enfrenta a cafonice da abertura e da pasteurizada aparência dos atores, ele oferece um frescor de linguagem, com um texto sagaz e uma entrega dos envolvidos a essa imensa brincadeira com o que a carreira deles se tornou.

Brandon (Jason Priestley), Kelly (Jennie Garth), Donna (Tori Spelling), Brenda (Shannen Doherty), Steve (Ian Zearing), David (Brian Austin Green) e Andrea (Gabrielle Carteris) estão de volta, formando o elenco original que contava ainda com Luke Perry. Porém, apenas Jennie, Ian, Tori e Brian ficaram na série durante seus dez anos. Jason e Andrea voltaram no series finale do ano 2000 para uma aparição especial. Já Shannen (que foi demitida da série depois da quarta temporada por um suposto conjunto de comportamentos inapropriados e inimizades) sempre foi o pedaço de “escândalo” mais relevante da produção. Ela nunca aceitou retornar enquanto a série estava no ar e também recusou até mesmo uma pequena aparição no último episódio. De fato, ela só aceitou retornar para o reboot após a morte de Perry e sua participação manteve a atmosfera de peculiaridade e incerteza que sempre cercou sua presença em qualquer set.

Os Novos 90

Os seis episódios do reboot focam na tentativa de Jennie e Tori de colocar para frente o projeto. As duas são até bem honestas na construção dessa identidade, que não representa o que elas são de verdade, mas que é apoiada numa percepção do mundo a respeito delas. Então, Tori aparece como uma celebridade dependente de reality shows e Jennie como uma atriz sempre preocupada com a aparência. A premissa continua no restante do elenco: Brian tem uma mulher que faz mais sucesso que ele; Jason é assombrado pela fama de bom moço (sem ser); Ian continua só pensando em como ganhar dinheiro e mulheres e Gabrielle construiu um casamento e uma vida sensata e cheia de equilíbrio. Shannen surge como alguém que foi buscar evolução espiritual após uma vida de embates e superações. Embora alguns estejam confortáveis em suas vidas pós-fama, há uma jocosa atmosfera de decadência que é essencial para a história andar.

Embora o objetivo maior seja a produção do reboot, os roteiros tentaram dar a cada um deles um norte individual e foi aí que os sinais de fraqueza começaram a aparecer. Assim como acontecia nos enredos dos anos 90, os personagens foram entregues a histórias repetitivas e sem brilho. A relação de Jennie e Jason com outras pessoas, apenas para não lidarem com o que sentem um pelo outro; o tolo suspense com o filho perdido de Brian; a superficialidade de Ian, etc. Apenas Gabrielle tem uma trama menos óbvia, com a saída do armário que tantos fãs esperaram por anos. Tori também é uma base importante para o resultado final, já que mesmo precisando criar uma tensão com Brian, sua luta para manter o reboot de pé incorpora quase todos os elementos charmosos que são a graça da brincadeira.

O texto é a grande estrela do reboot, inegavelmente. Além das piadas com o que se tornou a vida de cada um, os roteiros brincam com noções de mercado, com percepções exageradas da mídia e com outras séries para o público adolescente que também tem atores perdidos no limbo (as piadas com The O.C. no episódio final são incríveis). Participações de atores que passaram pela série original são estrategicamente situados nos episódios, o que também foi um grande acerto. Tudo é motivo para zombar da indústria, dos egos, até mesmo o filtro de luz claríssimo que faz as peles dos atores parecer mais jovem e brilhante. O mundo de 90210 continua esterilizado, sem nenhuma dose de verdade, a diferença é que dessa vez eles não se levam a sério demais.

A razoável audiência alcançada pelo reboot pode resultar numa nova temporada, mas dificilmente ela teria todos a bordo. As apostas são em Brenda, claro. O bom episódio final se apressou em oferecer um gancho que garantisse a contextualização dessa ausência, mas seria interessante se víssemos todos de volta em mais uma pequena temporada que fosse mais fundo nessa exploração deleitosa dos pesares da decadência no showbizz. É claro que o texto também tenta criar uma ligação emocional entre os atores e entre os personagens e o público. Mas, o que queremos mesmo é continuar rindo. É realmente um feito notável que uma série dramática tenha conseguido voltar ao ar vinte anos depois não para falar do drama do esquecimento, mas sim para fazer rir com ele.

Nota do Crítico
Bom