Better Call Saul - 5ª temporada

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Séries e TV

Crítica

Better Call Saul - 5ª temporada

Novo ano da série surpreende com uma provocante inversão de expectativas

Henrique Haddefinir
27.04.2020
12h02

Viver à sombra de Breaking Bad é uma realidade com a qual Better Call Saul precisou lidar. A carreira de Vince Gilligan, criador de ambas, está apoiada nesse universo há várias décadas e mesmo que a proposta fosse imprimir o mínimo de diferenças entre as duas, tudo acaba sendo complementar, tudo fica um pouco misturado. Ao passo em que a vida de Jimmy (Bob Odenkirk) se aproxima da era Walter White, Better Call Saul vai ficando mais e mais parecida com o original. Nessa emblemática quinta temporada, os envolvidos tomaram a decisão correta e não lutaram contra a evidência de que o que os fãs querem é Breaking Bad. O que, enfim, eles tiveram.

A trajetória desse quinto ano, de certa forma, é muito parecida com a trajetória de Walter nos primeiros anos de BB, quando ele ainda só queria dinheiro e sentia o peso das decisões que tomava. Embora Jimmy tenha se tornado Saul Goodman, os roteiros desse ano fizeram questão – ainda bem – de manter boas partes do velho Jimmy em pauta. A figura de Howard (Patrick Fabian), por exemplo, foi providencial para demarcar essa diferença. O Jimmy que quer se vingar, que quer o poder, que quer esmagar os que duvidaram dele, está ali. Mas, ainda há resquícios de sensibilidade que são suficientes para fazê-lo hesitar na hora de atravessar certas fronteiras.

Kim (Rhea Seehorn) ocupa uma posição que também é, de certa forma, semelhante à que Jesse ocupava ao lado de Walter. Até essa quinta temporada isso jamais tinha sido insinuado ou cogitado. Mas, Vince fez um ótimo trabalho em trair nossas expectativas com relação a personagem. Sabemos que Kim não é parte do futuro de Jimmy/Saul e isso significa que estamos sempre sob o suspense de que ela morrerá ou romperá com ele por discordar de seus novos métodos. De fato, em vários momentos dessa temporada somos levados a crer que uma dessas coisas vai realmente acontecer, apenas para nos depararmos com uma solução que é menos óbvia e mais transgressora.

Better Call Kim

No texto que publicamos sobre os dois primeiros episódios a preocupação era que durante mais um ano a trajetória de Jimmy continuasse excessivamente paralela aos caminhos de Mike (Jonathan Banks) e do crime organizado. Havia no texto, também, um certo otimismo de que, com a captura de Jimmy por Nacho (Michael Mando), essa convergência fosse finalmente acontecer. E ela aconteceu... A propaganda de uma abordagem profissional nada convencional chegou até os Salamanca e a temporada conduziu a proximidade desses dois universos com muita propriedade. Adoramos ver Jimmy defendendo seus clientes avulsos, mas adoramos mais ainda vê-lo sendo eleito o “amigo do cartel”.

Por conta disso, os roteiros encontraram o escopo perfeito para trazerem de volta Hank (Dean Norris) e Gomez (Steven Michael Quezada), agentes da DEA que investigam justamente as atividades criminosas que Jimmy precisa defender. A volta dos dois personagens é uma espécie de “continuismo de luxo”. Ela não oferece nada de novo ao cenário, mas faz todo sentido nesse momento da história do protagonista. É um fan service, mas que demorou tanto para acontecer que fica longe de parecer gratuito. A dinâmica entre Hank e Gomez sempre foi positiva para Breaking Bad e vê-los de volta foi também foi um pouco triste, justamente porque sabemos o fim que eles terão.

Provavelmente o momento em que a temporada encontrou seu clímax definitivo foi no episódio "Bagman", dirigido por Vince Gilligan e cheio dos maneirismos que tornaram Breaking Bad um clássico. A jornada de Jimmy e Mike pelo deserto foi não só artisticamente competente, como deu início a uma série de eventos que finalmente aceleraram importantes transformações entre os personagens. As sequências de Lalo (Tony Dalton) indo até a cada de Jimmy confrontá-lo foram extremamente tensas e a tensão se manteve até o último momento, no episódio final, quando o plano para que o chefão fosse exterminado fracassou, colocando Gus (Giancarlo Esposito), Nacho e Mike numa reta de vingança que vai movimentar todo o próximo ano. Mas, o episódio serviu, sobretudo, para revirar os códigos morais de Kim, colocando-a disponível para exercer os métodos de Jimmy com um renovado empenho.

A ansiedade para a sexta e última temporada não poderia ser maior. Além do impacto que a vingança de Lalo terá, há um ponto do futuro em que Jimmy – assim como Walter – perderá sua “alma” e isso, sem dúvida nenhuma, acontecerá por influência do desenvolvimento de Kim ao lado de Saul Goodman. Os fãs – quem diria – precisarão lidar mais uma vez com a tragicidade de uma parceria. Alguém vai seguir, mas há quem fique esmagado pelo caminho.

Nota do Crítico
Ótimo