Séries e TV

Crítica

Better Call Saul - 4ª Temporada

Seriado completa a transição que cada vez mais aproxima seu protagonista de Breaking Bad

Henrique Haddefinir
24.10.2018
15h15

A qualidade e sucesso de Breaking Bad são inegáveis. A história de Walter White pode ter começado de modo inconstante - a primeira e a segunda temporada são confusas -, mas assim que Vince Gilligan, o criador, encontrou o propósito de sua dramaturgia, a narrativa cresceu numa constante de tensões, e muito cedo o protagonista se tornou uma espécie de unanimidade universal. Breaking Bad se tornou quase uma religião.

Better Call Saul/AMC/Divulgação

Assim que sua obra-prima terminou, Gilligan não teve muito tempo até emplacar um novo projeto. O que acabou sendo surpreendente foi a forma como esse novo projeto surgiu atrelado ao sucesso da produção que mal tinha terminado sua história na TV.  O sucesso de uma série faz crescer a ambição financeira do estúdio e também a ambição artística de todos os envolvidos. Depois de passarem pela experiência maravilhosa de ser uma unanimidade, era natural que não quisessem abandonar as possibilidades de ainda sugarem adoração de um produto derivado.

A iniciativa de re-acessar o mundo de Breaking Bad através de Saul Goodman (Bob Odenkirk) pareceu oportunista num primeiro momento. Era quase como se os envolvidos estivessem dizendo que não queriam abandonar sua "galinha dos ovos de ouro". O que importa, apesar disso, é que assim que começaram a ir ao ar, os episódios da série foram revelando que Vince Gilligan e o cocriador Peter Gould tinham um planejamento específico e tratariam a produção com o mesmo cuidado artístico que prevaleceu no original a partir do terceiro ano. Mais que qualquer coisa, Better Call Saul é extremamente elegante e bem cuidada.

A série tinha, contudo, um objetivo muito claro: mostrar como Jimmy McGill se tornaria o pernóstico Saul Goodman. Esse era o plot derradeiro: a motivação maior, além, é claro, de manter o fás de Breaking Bad interessados na nova empreitada. As presenças de Walter e Jesse não foram prometidas de modo algum, mas a história de Saul poderia trazer de volta elementos secundários do seriado original. Isso foi o que acabou acontecendo, ano após ano, com vilões, lugares, situações, todo e qualquer detalhe que invocasse a série-mãe. A busca incessante por easter eggs, entretanto, foi perdendo força conforme o público se envolvia com a história independente de Jimmy. Essa sim, contada de forma bastante minuciosa.

Espertamente, a vida de Jimmy foi organizada com duas fortes motivações: o amor pelo irmão Chuck (Michael McKean, com quem Gilligan trabalhou em Arquivo X) e o amor pela colega advogada Kim (Rhea Seehorn). Jimmy e o irmão tinham uma relação complementar trabalhada em cima de culpas, enquanto Jimmy e Kim estavam separados por apenas um único fator determinante: ela era uma pessoa naturalmente disposta ao bem e Jimmy uma pessoa que naturalmente flexibilizava o bem. Ambos cometiam deslizes e o reconhecimento disso os mantinha próximos. Porém, Better Call Saul é uma história com um fim que todo mundo já conhece, o que significa que enquanto a acompanhamos, já podemos vislumbrar os caminhos que estão por vir.

Por três temporadas o ritmo foi calculado, em alguns momentos até mesmo arrastado. Estabelecer o passado de Jimmy, o meio onde ele estava inserido, seus antecedentes... Tudo isso era importante para torna-lo um elemento independente e tudo isso funcionou muito bem. Gilligan criou as amarras e sabíamos que para que Saul viesse à tona, ele precisaria fazer o protagonista se livrar delas. O quarto ano então começa com a morte de Chuck, já antecipando a primeira dessas ceifações, o que significava que se o plano fosse completar a transição, o relacionamento de Jimmy com Kim teria que ser o próximo a ser sacrificado.

Aprendemos no trabalho de Gilligan que as circunstâncias fazem o criminoso. Jimmy foi punido com um ano sem poder advogar e é claro que as curvas feitas para que ele continuasse vivendo foram mostrando-lhe que seus talentos tinham uma natureza menos convencional. A trama de Jimmy não fazia curvas desnecessárias e os roteiros foram nos sinalizando que ele tentava todas as alternativas possíveis, enquanto era puxado por uma força, um legado, um peso anterior, para o mesmo lugar em que o irmão o jogava quando queria humilhá-lo. Em algum ponto você só precisa aceitar que nunca será julgado pelo que é e sim pelo que foi. Chegávamos a torcer para que ele provasse o contrário, mas, repetindo, essa é uma história que já sabemos onde vai parar.

A quarta temporada tem momentos incríveis no que diz respeito à trajetória de Jimmy, mas a trama de Mike (Jonathan Banks) continua paralela demais, o que faz com que a sensação de que se trata de outra série, se intensifique. Dado a cenas longas e muitos planos abertos, Gilligan usa e abusa dos próprios maneirismos quando é a narrativa de Mike que está no ar: basicamente, ele persegue, vigia e intimida pessoas em quase todos os episódios. Contudo, está cada vez mais descontextualizado da ideia central de Better Call Saul, o que talvez mude agora que Jimmy McGill não existe mais e seu trabalho precisará mais e mais de serviços não-convencionais. A única coisa que os torna compatíveis está na conceitualização da conclusão. Jimmy transitou para Saul e Mike para o assassino que ele ainda não era.

Há uma quinta (e provavelmente última) temporada bastante interessante pela frente, já que o nascimento de Saul Goodman aproxima os fãs dos elementos de Breaking Bad e aumentam as dúvidas sobre os destinos de Kim, Nacho e Howard - únicos personagens do núcleo central que nunca foram mencionados na série original. De certa forma, mesmo tendo completado a transição de Jimmy, os criadores ainda tem nas mãos uma série de destinos e determinações que podem ilustrar os últimos momentos da produção. 

Better Call Saul deve finalmente nos mostrar para onde vamos quando as imagens em preto e branco de todos os inícios de temporada se tornarem brilhantes e lúcidas. A grande surpresa pode estar guardada desde o primeiro instante em que a série nasceu... Estamos diante do maior e mais complexo flashback que a televisão já viu.

Nota do Crítico
Ótimo