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Crítica

Better Call Saul - 3ª Temporada | Crítica

Série derivada aprimora sua trama com o excelente Chuck McGill e dá contextos interessantíssimos a rostos conhecidos de Breaking Bad

Aline Diniz
22.06.2017
19h16
Atualizada em
29.06.2018
02h34
Atualizada em 29.06.2018 às 02h34

A proposta de Better Call Saul sempre foi mostrar a jornada de Jimmy McGill (Bob Odenkirk) e sua transformação em Saul Goodman. A terceira temporada da série faz muito mais do que isso, criando um pano de fundo detalhado da guerra de poder pelo tráfico em Albuquerque, além de aprofundar ainda mais as histórias de origem de outros personagens queridos do universo introduzido em Breaking Bad. De Gus Fring (Giancarlo Esposito) a Lydia Rodarte-Quayle (Laura Fraser), o retorno de alguns rostos à série derivada tornam todo o contexto da transformação de Jimmy, que está prestes a acontecer, algo mais complexo.

A primeira cena de todas as temporadas de Better Call Saul é sempre um show à parte. Como uma garantia de que Vince Gilligan e Peter Gould sabem o que estão fazendo, a abertura dos três anos mostra Gene, a nova personalidade de Jimmy, e seu trabalho de gerente no Cinnabon. É uma forma de garantir ao público que toda a vida de Jimmy, Saul, Gene ou qualquer outro nome que o personagem venha a ter já foi pré-planejado. Não há lacunas na história e tudo se conecta, antes e depois de Breaking Bad.

Aliás, a maneira como o roteiro entrelaça as tramas dos personagens é primorosa. Gilligan e Gould já haviam estabelecido sua capacidade de planejamento em Breaking Bad, mas ela aparece aprimorada em Better Call Saul. Tudo tem um motivo, é só esperar um pouco que a explicação chega - e quando você menos espera. Afinal, quando Saul é introduzido na série-mãe, ele já chega com um time completo, sempre existe alguém responsável por algum braço da operação e isso obviamente não foi construído da noite para o dia. Um dos mais importantes pontos dessa temporada, por exemplo, é a importância de Mike (Jonathan Banks) à operação de Saul Goodman. Sem ele, não existiria time. Mas sua relevância é revelada aos poucos e ele certamente ainda vai ter um papel muito maior na criação da nova persona do advogado.

Além de ter aprimorado o roteiro, o visual proposto por Gould e Gilligan também só melhorou em Better Call Saul. Toda a série é maravilhosa e faz referências visuais a si mesma o tempo todo. São momentos sutis, mas importantes para o crescimento dos personagens de uma maneira imprescindível. A presença de Chuck McGill (Michael McKean) na vida de Jimmy se mostra uma das maiores influências na transformação do irmão, mas nunca de forma explícita. Sem Chuck, certamente não existiria Saul Goodman.

Mas além de ser um irmão terrível, um péssimo sócio e uma pessoa sem escrúpulos, Chuck McGill é também um dos mais bem construídos personagens da série - e da televisão. Detalhado e cheio de peculiaridades, ele é essencial à trama e mostra exatamente de onde veio o lado trambiqueiro de Jimmy - mesmo que as trapaças de Chuck sejam sempre executadas com algo que quase pode ser descrito como elegância. Diz muito também sobre a personalidade de Jimmy o quão protetor ele é do irmão mais velho, mesmo que seja passado para trás e maltratado por ele. A instabilidade mental de Chuck fortalece e enfraquece Jimmy com as mesmas proporções; da mesma forma como, profissionalmente, ele inveja e quer distância do sucesso do irmão mais velho. A dualidade na relação dos McGill é essencial para o desenvolvimento de ambos os personagens, mas é um dos estopins da criação de Saul Goodman.

Além de Chuck, Kim (Rhea Seehorn) é também essencial para que a jornada de Jimmy faça sentido. Sem ela, é impossível ver o personagem evoluindo - mas o laço dos dois é mais importante à trama do que aparenta. Kim é a bússola moral de Jimmy e para que ele se torne Saul Goodman, algo de muito ruim vai ter que acontecer à ela. O inevitável destino de Chuck já vai causar um grande impacto a Jimmy, mas é o decisivo futuro de Kim que vai desencadear o “nascimento” de Saul Goodman.

Na terceira temporada, a narrativa de Better Call Saul não dá sinal de cansaço, mas segue por um caminho que claramente já está planejado. Já temos um ponto de partida e uma linha de chegada, tudo o que precisamos agora é que as lacunas sejam preenchidas.

Nota do Crítico
Excelente!