Bem-Vindos ao Éden

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Bem-Vindos ao Éden, uma série sobre nada

Produção espanhola cruza várias referências e não alcança nenhum resultado

Omelete
4 min de leitura
Henrique Haddefinir
02.06.2022, às 11H25

Qualquer espectador mais atento vai começar a assistir Bem-Vindos ao Éden e pensar imediatamente em outras produções do gênero. A estrutura com a qual ela foi planejada está em busca exatamente disso: reconhecimento. Absolutamente tudo que os criadores Joaquim Górriz e Guilhermo López criaram está ali para direcionar o espectador para outro lugar, o que pode acabar explicando, enfim, porque a série não se preocupa nem um pouco com substância. Bem-Vindos ao Éden é uma produção que nos faz lembrar muita coisa, mas que no fim das contas é sobre nada.

No cinema, há muito tempo, já tínhamos presenciado um grupo de jovens ir para um lugar paradisíaco com o objetivo de desfrutar dos benefícios de uma sociedade utópica. Era o longa A Praia (2000), em que Leonardo DiCaprio acabava percebendo depois de um tempo que a modernidade não era um conceito tão horrível assim e que o senso de coletividade não é mesmo que ter empatia. Não deve ser coincidência que Astrid (Amaia Salamanca), vilã de Bem-Vindos ao Éden, tenha traços em comum com Sal, a vilã de A Praia, vivida por Tilda Swinton.

Não precisamos, contudo, nem ir para muito longe. O subestimado Midsommar (2019) é uma referência ainda mais precisa. A ideia é a mesma: uma viagem, um lugar lindo, pessoas aparentemente amáveis e logo o mal espreita nas frestas das portas. O maravilhoso Corra! (2017) repete o processo, só que no âmbito individual. Dentro da Netflix, o conceito encontra o exagero em Round 6 (2021), que assume o horror como ponto de originalidade. Bem-vindos ao Éden quer encostar em tudo isso, mas acaba mesmo soando amadora como 3%; na forma como aborda suas questões, em seus diálogos, cenários e, sobretudo, em como pega sua boa ideia e parece não saber o que fazer com ela.

Apesar da premissa recorrente, o enredo tem lá seus atrativos. A história começa quando Zoa (Amaia Aberasturi) se vê diante da oportunidade de participar de um festival de música eletrônica, num lugar paradisíaco, para onde pode escapar de sua vida e de suas relações problemáticas. A ideia vendida pelo material promocional é de que a tal viagem levará até um destino inóspito e mortal. Mas, fica claro logo nos primeiros momentos que a tensão prometida não vai ser entregue. Zoa e mais alguns poucos personagens – como a influencer que se chama África – descobrem que foram recrutados para integrar a vida no Éden, uma espécie de utopia preocupada com questões ambientais e com a construção de um coletivo padronizado.

What the hell

Os problemas já começam na ausência completa de uma lógica estrutural. Os personagens recrutados pelos líderes da seita recebem a permanência na ilha com uma estranha resignação. Embora haja investimento nas relações entre os novos e velhos residentes do Éden, nenhuma delas passa da superfície e acabam sendo uma ferramenta para reforçar outro filão das narrativas espanholas: o homoerotismo. Também não é coincidência que esse homoerotismo seja sempre pautado por uma certa violência ou intimidação. Com seu baixo orçamento, a série investe em seu apelo sexual para justificar tanto tempo sem nenhuma ação corajosa de roteiro.

Mortes e ameaças vão aparecendo pelo caminho, mas nunca fica claro porque elas estão acontecendo ou porque o lugar é verdadeiramente uma ameaça. Existe um segredo que os criadores estão guardando para o futuro, contudo, eles precisariam informar ao público qual seria o escopo onde aquele primeiro momento da história estaria apoiado. Zoa e seus amigos precisam, primeiro, pensar que estão em algum lugar específico para depois descobrirmos, junto com eles, que não é bem assim. Bem-Vindos ao Éden falha, terrivelmente, em estabelecer até mesmo essa primeira impressão.

O lugar não é apresentado, as motivações não são apresentadas, as vantagens de estar ali tampouco. Quando os personagens começam a pensar em fugir é até mesmo difícil entender por quê. A tal utopia pretendida por Astrid não é exatamente um problema, o que torna a ideia de obrigar pessoas a aderirem a ela completamente estapafúrdia. Aquele é um lugar que poderia facilmente existir sem incomodar ninguém e para onde muita gente toparia ir voluntariamente. É claro que deve existir um porém, mas eles constroem toda essa primeira temporada com tensões sem base e chegam até um último episódio onde o mais chocante é aquela rave de “fundo de quintal” onde ninguém pagaria para ir.

A segunda temporada já é uma realidade e a “pitada” de evolução do mistério foi, literalmente, para o espaço sideral. É importante que os envolvidos não percam de vista sua ideia promissora, que pode até ser uma reunião de referências, mas que precisa, antes de tudo, ser mais que uma ideia. Bem-Vindos ao Éden não é uma série sobre preocupações ambientais, não é uma série de relações, não é um thriller, não é um suspense... ela passa por tudo isso sem ficar, sem explorar, sem aprofundar. Ela só existe. Esse Éden pode ser visualmente deslumbrante, mas nem Adão e Eva se divertiriam ali. 

Bem-vindos ao Éden
Em andamento (2022- )
Bem-vindos ao Éden
Em andamento (2022- )

Criado por: Joaquín Górriz

Nota do Crítico
Ruim

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