Pôster promocional da 2ª temporada de Atypical

Créditos da imagem: Atypical/Netflix/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Atypical - 2ª Temporada

Segundo ano do seriado da Netflix alivia o enfoque absoluto em Sam e reforça sua delicadeza e elegância

Henrique Haddefinir
13.09.2018
22h56

Os autistas são donos de uma perspectiva diferente do mundo e também são parte de um exercício de observação e escrutínios constantes – e vindos de outros olhares. Pessoas com diferenças reconhecíveis imediatamente experimentam doses de realidade que logo se tornam material suficiente para anos de dramaturgia. A produtora Robia Rashid procurou ajuda na hora de levar a vida de Sam (Keir Gilchrist) para a televisão, e foi através desses estudos que Atypical se formou: uma história sobre como aceitar a diferença no mesmo exercício de reconhecer a inevitabilidade dela. Não dá para pregar igualdade o tempo todo quando há no mundo a necessidade real de respeitar o inevitável.

Durante o primeiro ano tudo era sobre conhecer Sam, um jovem autista de 18 anos que quer ter sua primeira namorada. Nessa premissa simples estão escondidas as forças da produção, que basicamente se apoia em texto e atuação de um modo descomplicado e ao mesmo tempo divertido. Para isso, usa um time de atores seguros e que compreendem o mundo onde estão inseridos, enquanto a própria criação da série está cercada de um terreno calculado para se comunicar diretamente com o público disposto a visualizar essa fresta por onde Sam espreita o mundo.

Atypical se reconhece como comédia, daquelas que imprimem um saudosismo familiar dos sitcoms, mas sem as risadas de fundo e sem o imenso conservadorismo do formato. Especialmente na segunda temporada, as coisas definitivamente começaram a sair da zona de conforto, ainda que no primeiro ano os ares já não fossem tão “certinhos” assim. Se a mente do protagonista funciona para ramificações transgredidas, não se poderia esperar que a série fosse retratar sua família como uma “família margarina” clássica. Na primeira temporada, a traição e a sexualidade foram temas importantes onde a narrativa se apoiou - para com isso emitir ao público a informação de que mesmo que cheia de ternura, Atypical não seria totalmente convencional (como nem poderia ser).

Happy Feet

Depois de ter tentado entender os mecanismos da atração e do sexo, Sam já está familiarizado com parte da sistemática interpessoal que diz respeito aos relacionamentos carnais. Paige (Jenna Boyd) foi essencial para esse processo e como recompensa, os roteiristas mantiveram a personagem em cena, usando-a para que Sam a perceba como importante da mesma maneira como acontece com todos nós: sem querer. No primeiro ano a presença de Paige em sua vida era cercada de listas e regras. Agora, ela vai se tornando parte da vida dele organicamente, sobretudo porque ele já desistiu de tentar enquadrá-la nas próprias expectativas. Muito carismática, a personagem nos informa em seus olhares e expressões que ainda está apaixonada pelo “amigo”, mas tudo é conduzido de maneira extremamente delicada.

Então, a narrativa da segunda temporada continua na direção daquilo pelo qual a série nasceu: o senso de independência. A separação dos pais aumenta a pressão em cima de como a vida adulta do personagem será conduzida e numa dessas investidas ele acaba indo parar num grupo de apoio de autistas, todo formado por atores que realmente vivem a condição; o que polidimensiona os reflexos que o protagonista propõe. É claro que a maneira peculiar com a qual eles pensam sempre flerta com o humor, mas o texto se preocupa em não fazê-los um motivo para piada e o riso vem como consequência dessa sagacidade. Essa é a maior qualidade de Atypical. Sam agora precisa expandir suas relações e fortalecer outras. Isso resulta em ótimos momentos com o grupo, com Paige, com Zahid (Nik Dodani) e até com a nova “colega” alternativa com quem ele encontra toda vez que se esconde num depósito da escola.

Em torno disso está o crescimento dramatúrgico da família de Sam. Seus pais lidam com a traição através de um sistema lento de perdão. Mas, é em Casey (Brigette Lundy-Paine) que a série encontra o caminho para experimentar o amadurecimento com uma perspectiva simples e honesta. Tudo que acontece com ela segue uma engrenagem nada original durante toda a temporada. Qualquer história sobre um personagem de classe média que vai para uma escola de ricos tem as mesmas coisas. Porém, quando parece que os roteiristas de Atypical não tem nada de novo a dizer, os acontecimentos da conclusão revelam outras e interessantes intenções. Ainda que o namorado da menina seja cada vez mais carismático, os caminhos de Casey no ano três serão realmente desbravadores.

Seja na maneira desconstruída com a qual as impressões de Sam funcionam, ou no equilíbrio delicado entre o drama e a comédia, Atypical não levanta mais perguntas apenas sobre ser autista. Quem poderia imaginar que absolutamente tudo sobre essa série seria atípico?

Nota do Crítico
Ótimo