Séries e TV

Crítica

Assédio

Super-série baseada nos crimes do ex-médico Roger Abdelmassih é extremamente sombria e ambiciosa

Henrique Haddefinir
11.10.2018
16h47

A Rede Globo sempre teve uma certa dificuldade de colocar séries no ar por muitas temporadas - no caso de um modelo norte-americano, como está acostumada a maioria dos espectadores. O canal obteve sucesso com comédias familiares que tinham uma linguagem muito particular, como A Grande Família, Sob Nova Direção, Tapas e Beijos, que ficaram no ar por muitos anos. De toda a produção nacional seriada que foge dessa métrica conservadora, Os Normais continua sendo o resultado mais bem sucedido, com uma estrutura textual ousada e um conjunto de características narrativas surpreendentemente originais, e que ficou no ar o bastante para ter três longas temporadas. Era uma série"de verdade". De lá para cá foi um festival de seriados dramáticos que duravam apenas um ano. Para essas, a Globo inventou um novo nome: super-séries.

Assédio/Youtube/Reprodução

Assédio, escrita por Maria Camargo e dirigida – a mãos pesadas – por Amora Mautner, é outra dessas produções que tem uma estrutura episódica clássica, mas garantida para apenas um ciclo, algo que os americanos também começaram a fazer com adaptações literárias. Adaptação de A Clínica: Farsa e Crimes de Roger Abdelmassih, a trama conta a história real de algumas das vítimas de abuso e estupro quando foram procurar o médico para tentar engravidar. Rogerfoi o especialista em reprodução assistida mais famoso do país, tendo na lista de clientes nomes como Pelé, Tom Cavalcanti, Fernando Collor e Gugu Liberato.

O caso, que ficou nas manchetes entre 2009 e 2017, foi um dos mais movimentados da mídia e surpreendeu a todos por conta de suas características quase macabras. Abusando de mulheres por anos, Rogerfoi responsável pela destruição de várias famílias e pela desconfiança de pais e mães que poderiam ter em seus filhos o DNA do monstro. O estuprador dopava a maioria das vítimas, as estuprava e elas só percebiam algo de errado quando acordavam. A série foca em algumas das histórias - cada episódio tem o nome de uma das clientes -, enquanto pinta o retrato do ex-médico, cada vez soando mais terrível. Trata-se, definitivamente, de uma super-série: em 10 episódios, a história tem começo, meio e fim muito bem marcados.

Assédio: Uma série sobre abuso

Assistir ao programa pode ser incômodo em muitos momentos, vale dizer. Contada como se fosse um documentário em que os envolvidos dão depoimentos, essa crueza narrativa encontra uma direção plástica e, ao mesmo tempo, direta. Da abertura, com uma quase irônica versão de "Silent Night", até o formato widescreen da tela, tudo na organização artística de Assédio é calculado para valorizar o drama. Dentre tantas produções globais que perdem o rumo por serem mais estética que texto, a sérieé exemplo do oposto, em que a história é contada com doses cavalares de realidade, onde ela, é claro, se escora. Talvez o problema da área dramatúrgica da Globo seja mesmo a que depende única e exclusivamente de criações originais.

Durante os episódios, as vítimas do ex-médico vão se espalhando pela trama e se acumulando de modo perturbador. Nesses tempos em que a palavra "assédio" tem sido muito usada no contexto das relações de intimidação, a trama pode causar um ruído na construção de sentido. De fato, em muitos momentos a palavra "abuso" parece mais adequada aos propósitos da história. É claro que em seu hediondo histórico, Roger - que teve o sobrenome trocado por razões jurídicas - provocou episódios de assédio a algumas das clientes. Porém, na grande maioria dos casos relatados da série, as mulheres são abusadas enquanto estão desacordadas, o que caracteriza muito mais um abuso que um assédio. Mesmo assim, isso não interfere em nada no resultado alcançado, sendo apenas um detalhe que pode afetar a "venda" da produção para os leigos no tema.

Médico e Monstro

Quem procura pelas notícias a respeito de Roger Abdelmassih se depara com a figura de um homem que não inspira sedução. Antonio Calloni, escalado para o papel, desvenda a dissimulação do sujeito e constrói uma figura forte, sexualizada, perversa, que espelha Adbelmassih com a imagem que ele, provavelmente, gostaria de ter. De tudo a respeito da produção, acompanhar a mente distorcida do homem é o mais assustador: Roger é um machista inveterado que acha que todas as mulheres são passíveis de serem molestadas, porque, no fundo, é o que todas elas querem. Maria Camargoé muito competente e estratégica com tudo que sai da boca dele e que teve que ser inventado levando em consideração as impressões que outras pessoas tinham.

As vítimas são defendidas por um time liderado por Adriana Esteves, que faz a que promove uma certa costura entre os depoimentos. Ela está magnífica, mas as atuações de Mariana Lima como a esposa de Roger, Paolla Oliveira como a segunda esposa dele, Hermila Guedes, Paula Possani, Fernanda D'Umbra como as principais vítimas, são muito marcantes. Elisa Volpato vive a jornalista que condensa o trabalho de vários outros que ajudaram – na vida real – a prender o criminoso, que, infelizmente, não teve a punição que merecia por todos os atos hediondos cometidos desde o início da carreira.

Por fim, o grande choque do espectador se concentra totalmente no traço em comum que muitas das produções sobre crimes famosos têm no Brasil: a impunidade. O final de Roger pode não ser surpreendente, mas é surpreendente acompanhá-lo na construção de uma "nova vida", apoiado por amigos, parentes, familiares, pessoas influentes e por uma nova esposa, uma mulher que viu de perto tudo pelo qual ele foi acusado. Estamos cientes do quanto o dinheiro contorna a justiça, mas ver monstros serem abraçados como Rogerfoi é definitivamente perturbador. Suas vítimas, mulheres que foram afetadas para sempre, seguem sendo acusadas de serem "mentirosas", "confusas" ou simplesmente "recalcadas". Mais um hematoma no nosso sistema judiciário e na nossa noção de responsabilidade civil.

Assédio, uma outra ótima produção global, já está totalmente disponível na GloboPlay - e terá seu primeiro episódio exibido na TV em 15 de outubro.

Nota do Crítico
Ótimo