Aruanas - 1ª temporada

Créditos da imagem: Globoplay/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Aruanas - 1ª temporada

Série foca no trabalho intenso e arriscado de um grupo de ativistas

Henrique Haddefinir
07.07.2019
17h16

É difícil falar de Aruanas sem esbarrar no seu posicionamento político. A série traça um perfil intenso de como funcionam e se arriscam as ONGs em defesa do meio-ambiente no território profuso e perseguido do estado do Amazonas. Estamos falando de ativismo num momento do país em que o uso dessa palavra se tornou um problema sócio-cultural, uma espécie de "xingamento" partidário, o que não deixa de ser uma ironia, já que mesmo sendo "não-governamentais", essas instituições passaram a estar atreladas ao julgo do estado sobre elas. A obra de ficção – que gosta e precisa de certo compromisso com a realidade – se debate para ser menos política e mais arte, deixando para o espectador o trabalho de perceber com a própria sensibilidade o que essa mesma obra quer dizer sem poder dizer.

Escrita por Estela Renner Marcos Nisti e com direção artística de Carlos Manga Jr.Aruanas encontra seu equilíbrio ao decidir recortar sua inevitável dose de maniqueísmo e concentrá-la no dono de uma grande mineradora. Luiz Carlos Vanconcellos ficou com a posição de antagonista dessa história, vivendo o empresário Miguel, que se dedica a mascarar a exploração dos recursos naturais com a boa e velha demagogia. Ciente de que precisa ficar fora do radar do ativismo, ele faz sua empresa ser divulgada como extremamente preocupada em seguir as normas de segurança ambiental. Porém, uma rede ilegalidades que incluem chantagens, subornos e assassinatos estão por baixo dessa falsa consciência política.

Aruanas é uma palavra indígena que significa sentinelas e é exatamente assim que se comportam as protagonistas da trama. Luiza (Leandra Leal) é a agente de campo, determinada, aquela que se infiltra, invade, espiona. Seu drama pessoal está na relação com o filho pequeno, que precisa de sua presença, ao passo em que os problemas que envolvem a ONG se tornam cada vez maiores. Veronica (Taís Araújo) é a advogada do grupo, imensamente dedicada e muitas vezes até um pouco excessivamente objetiva. Ela é quem faz as conexões políticas necessárias para o andamento da ONG e vive também o conflito de estar apaixonada e envolvida com o marido de Natalie (Debora Falabella). Natalie, por sua vez, é apresentadora de um respeitado programa de entrevistas e usa sua influência para ajudar o grupo. A quarta sentinela é Clara (Thainá Duarte), que chega fugindo do marido abusador. Clara tem uma presença forte na história, mas por ser o rosto menos conhecido das quatro, acaba injustamente eclipsada.

Sentinelas

A história parte de uma palavra comum a todas as dramaturgias de suspense: dossiêÉ o dossiê de provas contra a mineradora de Miguel que começa a mexer com a rotina da ONG. No caminho para recebê-lo de sua fonte, Luiza descobre que o jornalista que entregaria as provas para ela está morto na mala de seu carro. Então, uma série de acontecimentos começam a construir uma rede de tensões que vão avançando vertiginosamente, obrigando as Aruanas a espremerem os próprios interesses em nome de um interesse maior: a saúde dos moradores que orbitam os garimpos ilegais do estado. Índios e moradores das cidades próximas estão morrendo ou ficando doentes por conta dos altos índices de mercúrio na água e nos peixes. Um problema real, categórico, que veste as iniciativas ficcionais para entreter e sim – porque não? - problematizar a questão.

Como tem acontecido com quase todas as produções seriadas da Globo, Aruanas tem um apuro técnico inegável. Aqui, no entanto, a história não fica em segundo plano. Não há, de fato, nenhum recurso narrativo estranho aos olhos de quem conhece atentamente os thrillers construídos em cima da dinâmica entre autoridades e ações civis. Está tudo lá: as invasões, queimas de arquivo, busca por provas, nerds hackeando, fugas, cativeiros... O roteiro de Aruanas não vai para direções que não sejam previsíveis (inclusive com um final clássico das histórias que desmascaram vilões), mas nenhuma proposta de bom senso é feita com o intuito pretensioso de originar, basta que o “feito antes” seja feito com propriedade e equilíbrio. A série desvia do potencial impacto negativo do “eu já sei o que vai acontecer” nos distraindo com um bom texto e com a seriedade das atrizes que vivem aquelas personagens. Não há desvios desnecessários, o argumento central é priorizado e cria eficientes picos de tensão no decorrer dos 10 episódios.

Ainda há alguns exageros, contudo. A figura de Camila Pitanga como Olgaa lobista da mineradora, é importante para o enriquecimento da história, mas enquanto Miguel encontra humanidade na relação com a neta, Olga surge como uma personagem unidimensional. Ela tem pouco tempo de tela, não tem um desenvolvimento pessoal esclarecido e o roteiro demonstra um interesse cabal em retratá-la como os vilões polidos que cheiram cocaína nos quartos de hotel, tal qual aqueles que vemos em séries da HBO. Ainda assim, não é como se esse fosse um tipo característico apenas da fantasia. Aruanas é uma série positivamente previsível, porque o que ela desenha é o que está registrado na história do ativismo desde sempre.

Assim, enquanto tenta deslizar por esses assuntos tão delicados sem perder o controle dos limítrofes entre arte e panfleto, é impossível não se sensibilizar pelo momento que a série escolhe para usar sua voz, mais alta que antes, quando grita, literalmente, os nomes dos ativistas mortos em diversos pontos da nossa história. É aí que Aruanas demonstra não estar em cima do muro, não ser esterilizada, não ser um produto pasteurizado de uma fala que não lhe cabe. A série pode e quer relevância, vai buscar por ela em posicionamentos eloquentes, sobretudo porque esses não são tempos de hesitação. O mundo está cercado de cidadãos que são homenageados todos os dias por terem como profissão a dedicação total à proteção da vida humana. Está na hora de incluir aí aquele que merece a mesma honra e o mesmo reconhecimento: o ativista. 

Nota do Crítico
Ótimo