Aquele sobre Matthew Perry, da Netflix, faz dolorido retrato do astro de Friends
Documentário mergulha na depressão e luta contra opióides que o ator travou até o fim da vida
É comum que documentários sobre estrelas de Hollywood no estilo Netflix, especialmente os póstumos, celebrem a carreira e o talento da pessoa em questão. A nova série sobre Matthew Perry, o Chandler de Friends, diverge dessa norma em todos os sentidos. Ao longo de três episódios que mesclam entrevistas com amigos e familiares, o espectador conhece em detalhes a luta contra a dependência de opioides e a depressão travada pelo ator por pelo menos três décadas, sem espaço para o alívio das piadas ou as corriqueiras homenagens em produções do tipo.
O roteiro divide a trajetória de Perry em um matemático início, meio e fim, começando pela tradicional busca pela fama e pela incessante procura por validação entre seus pares e o público. Mary Robertson dirige a série usando, em boa parte, o tom da consagrada autobiografia do ator, famosa por ser um mergulho sem filtros nas inseguranças pessoais e na dependência química do artista. Os depoimentos da irmã, Mia, e dos amigos próximos trazem alguma leveza à história, mas, como o próprio Perry é quem guia a narrativa, é inevitável que o humor autodepreciativo tome conta dos episódios, especialmente dos dois últimos.
O início é um belo retrato de como um jovem com típicos problemas familiares encontra nas piadas uma forma de fuga. Em um mundo consumido pela fama, Matty, como era chamado pelos amigos, sonhava, acima de tudo, em ser famoso e, ao mesmo tempo, arrancar sorrisos de qualquer audiência. Esses traços se misturam, se confundem e desembocam em uma espiral de infortúnios quando, depois de um acidente de jet ski, Perry começa a tomar analgésicos e, para aplacar a dor e a ansiedade, passa a abusar das doses. Isso, aliado ao vício em álcool, transforma o cotidiano de um dos maiores astros de Hollywood em um inferno pessoal, como ele mesmo descreve.
Tanto o segundo quanto o terceiro episódio trazem confissões, intercaladas com entrevistas de terceiros, de um sujeito literalmente esfacelado pelo vício. Perry sofreu uma ruptura do cólon, foi internado inúmeras vezes e, por muito pouco, não morreu no hospital. Nos últimos anos, mal saía de casa em Los Angeles e, mesmo após uma peça que foi sucesso de crítica em Londres, nunca conseguiu se reerguer. A reunião de Friends, que provocou comentários maldosos na internet sobre a condição física do ator, foi um de seus últimos suspiros públicos antes da autobiografia que o colocou no topo do ranking da Amazon.
O documentário lembra, em essência, por que o humor autodepreciativo de Chandler era tão eficiente: Perry era exatamente como ele. Rir da própria desgraça era o escudo que usava para combater seus medos, mas que, em determinado momento, se tornou insuficiente. Em um mundo no qual nem chegar ao auge parecia bastar, o ator se viu refém dos próprios sonhos. Mesmo realizados, eles nunca pareciam ser de fato desfrutados. No fim, tornou-se mais uma vítima de um sistema que precisa criar e destruir estrelas com a mesma intensidade.
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