Cartaz de Anne with an E

Créditos da imagem: Anne with an E/Netflix/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Anne With an E - 3ª temporada

A busca pelo amor e pela própria origem marcam a vida de Anne na espetacular e agridoce última temporada

Henrique Haddefinir
28.11.2019
18h54

A história da pequena Anne, criada por Lucy Maud Montgomery, já teve algumas adaptações que percorreram a televisão ao longo dos anos (o livro de onde saiu a personagem foi escrito em 1908). Mas, sem dúvida, a que estamos vendo agora pelo canal CBC do Canadá e pela Netflix, é a mais adorada. Ainda assim, devido aos números insatisfatórios da audiência, o canal e a plataforma entraram num consenso sobre o destino da série e Anne With an E chega ao fim aqui, justamente nessa movimentada, intensa e especial temporada.

O anúncio do cancelamento já gerou as reações esperadas e uma grande campanha tenta promover a chance de sobrevivência da atração, que, sabendo ou não dessas possibilidades sombrias, se preparou para dizer adeus da melhor maneira possível. O terceiro ano é estratégico também, já que a personagem entra nos definitivos anos da adolescência e o final da fase escolar que a levará para a faculdade. Basicamente, ela tem o cenário necessário para providenciar despedidas, mas sua qualidade é tanta que ninguém está interessado em dizer adeus.

A história da órfã que vai parar em Green Gables por engano e acaba conquistando os corações de Matthew (R.H. Thompson) e Marilla (Geraldine James), encontra o fechamento de um ciclo, quando a menina – crescida e madura – percebe que sua imaginação peculiar e seus sonhos de liberdade precisam ser alimentados por um futuro de geografias mais abrangentes. Todos sabíamos que, se a série chegasse ao fim, seria com a partida de Anne para algum lugar. Era um caminho inevitável, construído desde a primeira temporada, ainda que para os fãs da saga, o distanciamento da personagem fosse uma ideia longínqua. Mesmo sendo uma produção elegante, emocional e por isso mesmo incomum, havia a esperança de mais alguns anos seguindo Anne pelos bosques de seus pensamentos.

[Cuidado com spoilers leves abaixo]

Mi’kmaq

Essa última temporada se concentra em duas grandes narrativas. A primeira com Anne (Amybeth McNulty) no último ano da escola, escrevendo para o jornal e apaixonada por Gilbert (Lucas Jade Zumann). Do outro lado, a série adiciona às polêmicas de sempre a chegada de uma tribo indígena que apavora os moradores. É claro que Ka’kwet (Kiawenti:io Tarbell), uma das meninas da tribo, se torna uma marcante amiga para a protagonista. A chegada desse símbolo do preconceito, com seus absurdos sobre a crueldade dos índios e sua acusada inferioridade, se estabelecem na temporada de modo surpreendente. Anne e Ka’Kwet se relacionam de uma forma extremamente provocativa e emocionante.

A discussão acerca dos preconceitos contra os índios não são, contudo, o único engajamento dos roteiros desse último ciclo. Anne With An E sempre foi uma série que flertou com questões socioculturais de maneira delicada. Agora, com a personagem chegando aos 16, os conflitos da narrativa se tornam um pouco mais intensos, distantes do ponto de vista lúdico que dominou quase completamente os dois anos interiores. Anne é obrigada a lidar com a realidade implacável, vivenciando rejeições, morte e crueldade, sendo confrontada com o quanto ainda poderia manter sua etérea visão do mundo, antes que tudo fosse arruinado pelos hormônios.

Na roda da narrativa estão histórias surpreendentes sobre liberdade de expressão e direitos femininos. Diana (Dalila Bela) sempre despontou como uma personagem que vivia de perto o controle familiar acerca da figura da mulher naqueles tempos. Ela precisava seguir uma cartilha de regras e deveres que a levariam a um só destino: o casamento. A proximidade com Anne, contudo, muda essas perspectivas para ela, que decide lutar por um lugar de independência, enfrentando as tradições e a família numa época em que isso era inconcebível. Com sensibilidade, os roteiros tentam fugir do panfletário, do didático, costurando essas abordagens com os perfis que os personagens já tinham.

A certeza de uma temporada final, contudo, sempre perseguiu Anne With An E. Os roteiristas prepararam para ela um final apoteótico, tais quais suas maiores fantasias. Mas, não se esqueceram que o mundo não é colorido para todas as crianças. Das dores desse último ano, fica a maior de todas: o destino cruel de Ka’kwet, impossível de ser corrigido se a série não continuar. O reencontro de Anne com a própria origem deu a ela um fechamento justo, coerente. Mas, a infinidade de personagens profusos que a cercam, parecia ainda pedir por mais tempo de vida em fantasia. Não será possível, enfim. No dia 03 de janeiro a série chega ao Netflix pela última vez.

Anne With An E, contudo, nunca será esquecida. Com seus floreios verbais e invocações lúdicas, a personagem nos devolveu o otimismo diante da vida. Aos que estiveram dormentes ao material do sonho, Anne foi um despertar.

Nota do Crítico
Excelente!